Capítulo 1

64 3 2
                                        


Para todas as meninas que assim como eu, acreditaram em finais felizes prometidos por alguém que acabou partindo: Este livro é a prova de que a minha história não termina onde alguém me deixou — ela começa quando eu decido reescrevê-la.

🐾

Me lembro de tudo perfeitamente.

Era abril de 2025, exatamente um ano após o falecimento do meu avô, quando minha mãe e eu nos mudamos oficialmente para outro estado. Ela dizia que precisávamos de distância — de tudo, de todos, até de nós mesmas — para conseguirmos respirar de novo. Na época, eu só consegui concordar. Não porque eu quisesse ir, mas porque era a única forma de tentar acompanhar alguém que eu estava prestes a perder de um jeito diferente.

Hoje, três anos depois, aos 27 anos, entrei novamente naquela cafeteria depois de tanto tempo. E, por um segundo, senti como se tivesse pisado dentro de uma versão antiga de mim mesma, guardada em algum canto da memória.

Durante todo o período em que estive longe, nunca rompi de verdade com minha antiga vida. Mantive contato com meu pai, como sempre fiz. Ele continuou sendo um dos pilares mais importantes da minha existência, alguém que me lembrava diariamente que eu ainda tinha algo sólido para chamar de lar, mesmo que não fosse um lugar específico. Meu pai sempre foi isso pra mim: um porto seguro.  

Minha mãe... bem, eu nunca a odiei. Eu odiava o que a depressão fez com ela. Odiava a forma como a perda do meu avô — o homem que era o centro da nossa família — a quebrou por dentro. Odiava não conseguir alcançá-la, não saber como puxá-la de volta. Por muito tempo, achei que ela simplesmente não queria reagir. Mais tarde, descobri que ela já nem sabia mais como.

E, apesar de tudo, apesar do caos, da distância e das despedidas, nunca consegui odiar a cidade que deixei para trás. Era aconchegante, de um jeito que só cidades pequenas conseguem ser. O clima frio, a chuva quase diária, o cheiro de terra molhada... eram coisas que me faziam sentir pertencente a algum lugar. 

Sentia falta da cafeteria também. Das mesas de madeira já marcadas pelo tempo, do barulho constante e familiar da máquina de café, do vapor subindo como um pequeno ritual diário. Sentia falta do meu canto preferido perto da janela, onde eu costumava observar a rua enquanto imaginava como seria minha vida se eu tivesse coragem de mudá-la.

Mas, acima de qualquer cafeteria, acima até desse cheiro de terra molhada que sempre parecia acalmar meu peito, o que eu mais sentia falta era de Luke.

Apesar de já ter tido inúmeros gatos ao longo da vida, Luke foi meu primeiro cachorro. Na época, minha mãe trabalhava em uma clínica veterinária da nossa cidade, e a cachorrinha de lá havia tido uma ninhada. Assim que o vi — aquele filhotinho desajeitado, com o formato de um coração em seu nariz— algo simplesmente clicou. Foi amor à primeira vista, daquele tipo que a gente sente antes de entender. Passei a visitá-lo todos os dias antes de ir ao serviço, contando as horas até o dia em que finalmente pudesse levá-lo para casa.

O pai de Luke era um border collie, o que explicava a energia ilimitada e a alegria inquieta que ele carregava no corpo inteiro. Ele precisava de espaço, de campo, de céu. E como meu pai morava em um sítio, deixá-lo com ele foi a melhor decisão — para Luke, e para mim. Saber que Luke estava correndo livre no sítio me confortava. Era uma saudade que doía, mas não machucava. Uma saudade boa.

E talvez tenha sido ali, nesse espaço vazio que ele deixou, que comecei a perceber outra ausência — a minha própria. A sensação de estar sempre longe de mim mesma.

Cafés, Gatos e Outros acasosCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang