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Era uma madrugada fria e chuvosa, onde os pingos pesados do temporal batiam sobre as minhas costas, aumentando o estado reflexivo ao qual eu me encontrava.
As luzes das pilatras me faziam companhia naquela viela escura e vazia, onde o ar melancólico invadia meus pulmões e me tornava ligeiramente cega por causa da chuva.
Mas nada me era incômodo maior do que a agonia presente em meu peito, a fita constante de pensamentos pesando sob minha cabeça, me tornando mais miserável e biltre enquanto caminhava.
Em minhas mãos pesava um buquê de crisântemos brancos, murchos pelos pingos, um presente escolhido à dedo para o meu filho.
Ah, o meu querido Jonathan, tão doce e infantil, a vivacidade em suas bochechas rosadas, o sorriso brincalhão e iluminado pelo brilho de seus olhos, os cachos escuros em sua cabeça ao qual adorava que eu acaricia-se.
Todas as manhãs nós tomávamos café em uma esplêndida tranquilidade, ao meio dia almoçavamos em meio à conversas e risadas, as tardes jogávamos algum jogo ou ele iria brincar com os seus amigos enquanto eu me ocupava na receita de seu bolo favorito.
E ao final de cada dia, ele se arrumava para dormir, se aconchegada entre as cobertas, enquanto eu idealizava histórias para ele ou simplesmente cantarolava uma linda melodia para ele, observando o meu lindo menino cair no sono e sonhar lindamente e eu partia de seu quarto para deixa-lo dormir tranquilamente com as suas quimeras.
Uma realidade linda e fantasiosa, uma lembrança onírica da verdade ao qual me acompanhava.
Eu poderia ter vivido essa bela ilusão, se eu não fosse alguém incrustada pelo desgosto da vida e as consequências de minha criação.
Agora, eu me remoia e me condenava pela maldição ao qual eu impus ao meu próprio filho. Causando cicatrizes incuráveis e uma morte irreversível.
Todos os dias eu envenenava a sua figura, ingerindo em sua mente a crueldade de minhas palavras e a dor de minha própria amargura, ferindo o seu âmago e coração, causando-lhe aflições que não eram para ser suas.
Cega pela minha ignorância e movida pelos pesares de minha vida infeliz, disse-lhe desgostos, insultos e o peso de uma responsabilidade que não pertencia a ele.
Não fui capaz de perceber o primeiro corte em sua pele oliva, nem a segunda, muito menos as faixas que passaram a cobri-las.
Não observei a sua quietude, sua desconfiança, seu retraimento, a sua tristeza, a sua mágoa ao me olhar, o quão vazio e oco ele havia se tornado e a solidão e enfermidade que o acompanhava.
A única coisa que eu via era apenas algo para descontar meus pesares, o calor de minha raiva e a demasiada onda de minhas futilidades.
E aqui jaz o meu corpo sob o seu túmulo, o punho cerrado sob meu peito, em uma tentativa falha de retirar aquela agonia de meu peito, sendo atormentada pelas lembranças e arrependida de cada segundo gasto em tornar a vida dele um tormento.
Hoje, clamo por seu perdão, mesmo que não merecido, mas necessário para a minha alma pesada e martirizada, sendo perseguida pelo espectro de seu fantasma, que me diz verdades cruéis e me atormenta toda as noites.
Me vejo perto de alcançar a insanidade todos os dias, ao ver você vagando pela casa e sumido por trás das portas, me olhando pelas brechas dos móveis e rindo, não tão infantilmente como antes, persistindo apenas um som sombrio e sádico, como se estivesse se divertindo com o meu estado alucinado.
Estou condenada, assim eu penso, olhando para os crisântemos em seu túmulo, meus olhos lacrimejantes.
Ele me perseguiria nas sombras, até que eu decidi terminar o curso de minha existência, então pararia, me fazendo acreditar que ele havia me perdoado e descansado.
No fim, não haveria encerramento, ele continuaria me perturbando na espreita, esperando pacientemente eu cair em minha própria ruína e que me junte a ele no outro plano, apenas para continuar me torturando.
Encharcada pela chuva e minhas próprias lágrimas, cair na inconsciente não era o que eu esperava, mas não importava, quando se está sujeita ao delírio, a morte comparece tardiamente...
Última aparição de Elizabeth Russell
Romênia, 1879
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Ruína
Mystery / Thriller~ O lamento de uma mãe no túmulo de seu filho, que como uma fantasma ou até mesmo um delírio por parte dela, persegue e assombra a sua mente tão debilitada, até que a sua ruína mental seja encontrada... ~
