Dmitri Volkov. Esse é o nome que me deram, mas me pergunto quem realmente sou. Talvez essa pergunta não tenha resposta. Tenho 26 anos, nasci dia 1º de janeiro, o que significa que hoje, além de ser mais um início de ano, também é meu aniversário. Grande coisa. A vida é uma sucessão de dias sem propósito, e o primeiro de janeiro é só mais um. Meu despertador toca, indicando que são 4:35 da manhã. O som irritante perfura o silêncio, mas demoro alguns minutos antes de finalmente me levantar.
Meu apartamento é pequeno e escuro, uma metáfora adequada para minha existência. Apenas um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala. Nada que chame atenção, mas também não preciso de muito. Afinal, qual é o sentido de se apegar a coisas materiais se no fim todos nós caminhamos para o mesmo destino: o vazio?
Vou até o banheiro e tomo um banho rápido. Dez minutos são o suficiente para limpar o corpo, mas não a alma. Saio, visto meu uniforme azul de faxineiro e sigo para o hospital onde trabalho. Não tomo café da manhã. Nunca tenho fome a essa hora. Prefiro economizar meu tempo. Caminho até o hospital. É uma escolha deliberada. Eu poderia pegar o metrô, mas a caminhada me obriga a encarar a insignificância da minha vida. Além disso, gosto de gravar reflexões diárias em meu gravador.
"DIA 01/01/2025, 5:00. Mais um dia como qualquer outro. O céu está nublado, as ruas desertas, e o frio de inverno parece intensificar o vazio dentro de mim. O silêncio é quase ensurdecedor."
Chego ao hospital às 5:30 e começo o meu turno. O trabalho não é difícil. Limpar corredores, banheiros, quartos. Um emprego medíocre para uma pessoa sem perspectiva como eu. O dia avança de maneira tediosa, como todos os outros. Quando são 15h, um colega do turno da noite me lembra que pediu para mim cobrir o turno dele semanas atrás. Sem problemas. Não faço nada de útil em casa, então posso continuar aqui, empurrando o pano de um lado para o outro pelos corredores.
Por volta das 18h, ouço o som de sirenes de ambulâncias do lado de fora, algo comum por aqui, mas dessa vez, há algo diferente: policiais acompanhando. Sigo limpando, tentando ignorar o sentimento estranho que se instala em mim.
Minutos depois, recebo a tarefa de limpar o quarto 289. Entro e vejo uma garota, aparentando 16 ou 17 anos, deitada, conectada a várias máquinas. Seu rosto pálido e as marcas de enforcamento no pescoço me contam uma história que eu conheço bem. Já tentei me matar várias vezes. Fracassei em todas, mas reconheço os sinais. Ela dorme, mas seu corpo frágil respira com a ajuda das máquinas. Começo a limpar o chão do quarto.
De repente, ela desperta. Seus olhos se arregalam, e ela começa a gritar, com uma voz tão forte que parece impossível sair de um corpo tão frágil.
- NÃO! ELE VAI ME ACHAR! TENHO QUE SAIR DAQUI!
Dou um passo para trás, surpreso. A porra da adrenalina faz ela parecer outra pessoa. Aproximo-me com cuidado.
- Senhorita, calma. Não tente se levantar. Vou chamar uma enfermeira. - Minha voz sai mais tranquila do que me sinto.
Ela não me ouve. Me acerta um tapa na cara com força que me surpreende. Minha cabeça lateja com o impacto, e por um momento, tudo o que consigo pensar é em como seria satisfatório machucá-la de volta. Arrancar seus membros, fazer com que ela nunca mais levantasse a mão contra mim. Mas não faço isso. Sou civilizado. Aperto o botão para chamar a enfermeira e seguro a garota com um pouco mais de força do que deveria.
- Shhh... Calma. Você está segura. Está no hospital.
Ela para de se debater e, com a respiração ofegante, responde:
- Certo... - Ela me olha por alguns instantes antes de perguntar: - Qual o seu nome?
Respondo de maneira mecânica, como faço com todos.
- Dmitri. E o seu?
- Ângela.
Fico um tanto intrigado. O nome me soa familiar. Não é comum por aqui. Já ouvi esse nome antes. Minha mãe... Ela também se chamava Ângela.
- Nome bonito. Minha mãe também se chamava Ângela.
Ela sorri, um sorriso doce, que não combina com a intensidade de seus gritos anteriores.
- Obrigada, Dmitri.
- Vou buscar um pouco de água para você, enquanto os enfermeiros vêm te ver. Volto já.
Saio do quarto e vou até a cozinha, enchendo um copo de água. Volto cerca de oito minutos depois, mas quando entro no quarto, algo está errado. As máquinas apitam. O corpo dela está imóvel, e os enfermeiros ao lado murmuram algo sobre uma parada cardíaca.
Como? Ela estava viva minutos atrás. Eu a vi, falei com ela. Não faz sentido. Qualquer pessoa com o mínimo de entendimento médico sabe que ela não poderia ter tido uma recaída tão repentina após acordar daquela forma.
O pensamento de que algo está terrivelmente errado me assombra, mas não digo nada. Deixo para lá. Eu deveria me importar? Não. Minha vida já é um mistério sem fim. Mas não consigo evitar a curiosidade.
Horas mais tarde, já perto das 23h, decido investigar. Vou até o necrotério. Como faxineiro, tenho acesso a todas as salas, inclusive essa. Entro sem ser notado e procuro o corpo de Ângela. Encontro-o em uma das gavetas e puxo o corpo para fora. Frio e pálido, como deveria estar.
Sinto uma estranha necessidade de tocar seu cabelo, e o faço. Meus dedos deslizam pela pele gelada enquanto murmuro para mim mesmo:
- A morte me é tão familiar...
Observo o corpo dela por alguns minutos e depois examino os detalhes na ficha que foi deixada ao lado. Sem sobrenome. Provavelmente uma garota de rua. Tentativa de suicídio, morte cerebral, enforcamento. Nada disso faz sentido. Ela acordou. Eu vi. Não pode ter morrido de morte cerebral. Não assim.
Algo mais chamou minha atenção. Debaixo das unhas dela, havia carne. Raspo um pouco com a unha e confirmo: carne humana. Ela lutou com alguém antes de morrer. Isso explica o desespero quando acordou. Alguém entrou no quarto e a matou enquanto eu saía. Provavelmente a sufocaram, já que não há outros sinais de trauma. Mas por quê? E quem?
Volto à sala de autópsia e preparo o corpo para uma investigação mais aprofundada. Tomo cuidado para não deixar marcas que os médicos possam perceber. Tenho 40 minutos antes que alguém possa notar minha ausência.
Depois de examinar o corpo, tiro três conclusões óbvias: primeiro, foi uma tentativa de assassinato, não suicídio. Segundo, ela foi estuprada. Há sinais claros de ferimentos internos. Terceiro, isso foi premeditado. Ela foi drogada, provavelmente mantida sob controle até que fosse mais fácil descartá-la.
Posso imaginar o cenário. Um psicopata a drogou, a estuprou, e depois a enforcou, simulando um suicídio. Quando alguém a encontrou, ela foi levada para o hospital, mas o assassino a seguiu, garantindo que o trabalho fosse concluído. E foi enquanto eu saía do quarto que ele terminou o serviço.
Amanhã, verifico as câmeras de segurança. Vou descobrir quem fez isso. Esse jogo está apenas começando, e já estou mais envolvido do que gostaria.
Guardo o corpo de volta, limpo qualquer evidência da minha curiosidade, e saio do necrotério. Amanhã será um longo dia.
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Sangue do Passado
HorrorTítulo: Sangue do Passado Dmitri Volkov, 26 anos, vive isolado em Moscovo, em um pequeno apartamento, carregando o peso de um passado inescapável. Como faxineiro de hospital, sua rotina é desprovida de vida, enquanto suas memórias sangrentas o assom...
