-Anda logo, Clara! Daqui a pouco começa a chuviscar e nem vai dar pra brincar!
-Eu já tô indo, deixa só eu pegar minha bike!
Eu e Clara íamos com pressa até minha casa, que ficava a uns 700 metros dali. Desde que fizemos 8 anos, nossas mães nos deixam ir até a casa um do outro sem sermos "vigiados". No início ela ainda estava meio preocupada, mas em breve faremos 9, então já conseguimos andar sozinhos.
Quando chegamos peguei meus brinquedos no quarto e fomos para o jardim, pois lá é espaçoso e mais fresquinho do que o pequeno cômodo em que durmo.
Brincamos e corremos por uns 40 minutos, e cansados, deitamos na grama verdinha das chuvas anteriores(pois estávamos na temporada mais chuvosa do ano) e passamos a observar as nuvens.
-Ei, Lucas, aquela nuvem não parece um cachorrinho?-disse a garota de curtas madeixas loiras.
-Cachorrinho? Me parece mais um gato.
-É, talvez pareça mesmo.
Ficamos num silêncio confortável, até que Clara me fez uma pergunta que definitivamente não esperava.
-Lucas, o que acontece conosco depois que morremos?
-Eu não sei direito, mas minha mãe uma vez disse que viramos uma estrela depois de morrer.
-Uma estrela? É sério isso? Que sem graça!- reclamou ela.
-Pois é, imagina ficar para sempre parado no céu? Ainda mais no meio daquele breu todo!
-Sim! Eu não quero ser uma estrela! Quando eu morrer quero ser uma...uma... Nuvem!
-Espera, uma nuvem? Por quê?
-Ora, basta olhar para o céu de novo. As nuvens podem ser tudo que quiser! Um cachorro, um gato, uma bola, uma árvore e até mesmo algo identificável!
-Mas se você fosse uma nuvem, seria o que?
-Não quero definir isso! Eu posso mudar sempre que quiser, seria livre para fazer e ser o que quiser! Não seria fantástico?!
-Com certeza seria.- disse sorrindo à Clara, vendo como seus olhos brilharam ao dizer sobre a liberdade.
O céu escurecia cada vez mais e logo pingos d'água começaram a cair sobre nós.
-Começou a chuviscar! É melhor eu voltar logo pra casa!- disse ela,
-Quer que eu te acompanhe?
-Não precisa! Uns 15 minutinhos e eu já chego!
-Ok! Até a próxima, Clara!
-Até, Lucas!
A garota logo partiu sob sua bicicleta rosa claro, saindo do meu campo de visão. Voltei para casa, li o último capítulo de um livro ilustrado que ganhei de minha tia, e cansado, adormeci rapidamente. O sonho foi tranquilo, com a diferença que Clara apareceu nele, saltitando feliz e livremente.
Levantei para tomar café, e logo de manhã o céu já estava fechado. Sentei-me à mesa, mas quando olhei para minha mãe pude ver seus olhos inchados e ouvir soluços.
-O que houve, mãe?!
-Eu sinto muito meu filho...
-O que aconteceu?!
-A Clara... ela faleceu.
-Que...? Quando, como, o que aconteceu?!
-Ontem de tardezinha, quando ela voltava pra casa, um homem a atropelou por que não a viu por causa da chuva. Oh, Deus; ela era tão jovem!
Meu mundo desabou. Minha mãe me abraçava, mas seus toques pareciam frios à minha pele. O ar não entrava em meus pulmões, e o desespero não permitiu que uma lágrima descesse pelo meu rosto. A mesa com retalhos coloridos nunca pareceu tão monocromática em toda a minha vida.
Afastei as mãos de meu corpo e andei com passos lentos, sentindo-me arrastado pelas últimas forças que ainda possuía. Caí de joelhos no jardim e comecei a chorar. Um choro sofrido e de saudades. Encarei o céu, esperando vê-la radiante, com seus olhos azuis brilhando em inocência e amor, como sempre tive a honra de ver. Mas aquele rosto angelical não apareceria para mim novamente.
A chuva caía tão forte quanto minhas lágrimas. As nuvens pareciam falar comigo, dizendo que estava tudo bem. Elas choravam comigo.
Deixei a última lágrima cair e sorri. Sorri como Clara sorriria. Agora ela podia ser quem quisesse para todo o sempre. Ela estava livre para todo sempre.
Fim.
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Como as nuvens
Short Story-Lucas, o que acontece conosco depois que morremos? -Eu não sei direito, mas minha mãe uma vez disse que viramos uma estrela depois de morrer. -Uma estrela? É sério isso? Que sem graça!- reclamou ela. -Pois é, imagina ficar para sempre par...
