O monstro se aproximava.
Seus grunhidos altos, guturais e inumanos se tornavam mais altos a cada passo que o grandalhão tomava. Os olhos, os quais fazia de tudo para não encarar, brilhavam com um cintilar vermelho, furioso. A boca tinha fileiras de dentes podres, e se abriu para dizer, com uma voz terrível, a mesma que perturbava sua mente há tantos anos:
"Não adianta correr."
O monstro deu um passo adiante. O menino deu um passo para trás, cambaleando com o próprio peso, o coração quase saindo pela boca. Uma risada alta e aterrorizante escapou do bicho, que mesmo assim não desviou o olhar faminto da presa à sua frente. "É engraçado você pensar que consegue escapar."
Mais um passo adiante. Não havia ninguém no bosque. Só os galhos secos das árvores frágeis eram sua companhia. Mesmo se gritasse com toda a força dos pulmões, não seria capaz de chamar ninguém. Estava sozinho. Iria morrer. Iria...
"Já era, menino", o monstro continuou. Um cheiro de esgoto o acompanhou. As histórias sobre ele eram verdade. O mau odor era uma consequência natural da sua condição. "Saiba que isso é culpa do seu pai. Lyal... aquele desgraçado!" O monstro balançou a cabeça e soltou mais um grunhido que deixou os pelos do menino arrepiados. "Quando voltar para casa pela manhã, caso você voltar, diga a ele para não mexer comigo de novo, nem com ninguém da minha família."
O menino tentou dar mais um passo para trás, só para trombar com o tronco grosso e espinhento de um pinheiro. O choque não foi maior do que a dor da realização: aquele era o seu fim. Iria morrer, e não tinha se despedido dos pais. Não tinha aproveitado nada. Não tinha dito que amava a mãe e não tinha guardado as roupas que ela pediu para guardar. Seus sete anos de vida passaram diante dos seus olhos.
O cheiro de esgoto e lixo podre se tornou mais forte. Ele fechou os olhos, pois não queria ver. Gritou, mesmo sabendo que era inútil. Seu corpinho tremia do dedo do pé até o último fio de cabelo loiro.
O hálito quente e fedido do monstro roçou seu pescoço, e ele gritou. O monstro também gritava, o prazer tomando seu corpo grande e peludo. A dor... Aquela dor...
"Não!" Remus gritou, e o cenário se desfez diante dos seus olhos, a lembrança indo embora conforme recobrava a consciência. "Me solta, me solta...!" As últimas palavras foram um sussurro, já que sua garganta estava seca demais para falar mais alto.
Balançou a cabeça e fechou a boca, esperando seus pensamentos se alinharem. Quando o eco dos seus gritos desapareceu, o silêncio reinou. Seu corpo estava tremendo, apesar dos feitiços de aquecimento lançados no dormitório, e ele estava encharcado com o próprio suor.
Secou as lágrimas e olhou ao redor. Estava em sua cama, com as cortinas rubras do dossel fechadas, protegido da visão dos melhores amigos. O ar frio do inverno atingiu sua pele sensível, e Remus se encolheu ainda mais. Estendeu a mão, abriu as cortinas com cuidado e olhou pela janela. Ainda estava escuro. Devia ter dormido por no máximo duas horas.
Fazendo o mínimo de barulho possível, ele se levantou, calçou as pantufas, agarrou o primeiro gorro que viu e saiu do dormitório. Seus amigos estavam roncando, imperturbados pelo barulho. Àquela altura, já estavam acostumados com os pesadelos, assim como Remus.
Desceu as escadas e foi até a Sala Comunal, que estava vazia, para variar. Deviam ser três da madrugada, e até os alunos mais rebeldes estavam dormindo nesse horário.
Fungou uma vez, foi até o sofá, o mais próximo da lareira acesa que conseguiu, e se encolheu ali. Levou os joelhos ossudos até o perto e se abraçou, formando uma bolinha trêmula. Talvez, se algum elfo doméstico passasse, nem o notaria.
YOU ARE READING
Monstros - Wolfstar
FanfictionRemus Lupin acreditava que o sexto ano em Hogwarts envolveria somente a escolha dos seus cursos preferidos na grade de matérias, algumas decisões importantes chegando e muitos fins de semana escapando escondido da escola para beber com os amigos. ...
