O som contínuo e abafado dos ventiladores ecoava pelas paredes de concreto, uma música monótona que os habitantes do subterrâneo conheciam desde o nascimento. Os túneis eram apertados e escuros, iluminados apenas por luzes amarelas fracas, que tremulavam de tempos em tempos. Kira caminhava mecanicamente pelo corredor, seu olhar fixo no chão, como se nada ao seu redor pudesse capturar sua atenção.
Ela se dirigia ao centro de processamento, onde trabalhava desde que completara a idade exigida. Cada passo ecoava no vazio, ressoando nas paredes metálicas. O ar cheirava a ferrugem e algo estagnado, uma mistura de umidade e tempo perdido. O mundo lá embaixo era sufocante, mas a única alternativa era o "mundo superior", um lugar que ninguém ousava sequer imaginar. O mundo lá fora estava morto.
Kira fechou os olhos por um momento, enquanto andava imagens invadiram sua mente. Não era incomum que ela se visse em meio a cenários desconhecidos, paisagens vastas e destruídas, céus cobertos por uma névoa radioativa e silhuetas distantes, desfocadas, como fantasmas do passado. Um calafrio percorreu sua espinha. Era apenas mais um sonho. Tinha que ser.
Quando chegou ao centro, um grande prédio sem janelas, Kira escaneou seu cartão na entrada. Uma luz verde piscou, e as portas se abriram, liberando um sopro de ar frio e artificial. Tudo ali dentro parecia desprovido de vida - máquinas zumbindo suavemente, operários sentados em silêncio, focados em suas tarefas rotineiras.
Ela se sentou em sua estação, e uma tela brilhou à sua frente com ordens do dia. Kira olhou para as palavras, mas seu foco não estava ali. O zumbido incessante, as máquinas ao redor, as pessoas sem rosto e sem expressão - tudo parecia se desfazer, como uma pintura desbotada. Os flashes de sua mente eram cada vez mais fortes. Havia um outro lugar. Havia uma vida antes disso. Algo estava errado.
As horas passaram sem que ela percebesse, até que um toque estridente soou, anunciando o fim do turno. Kira piscou, voltando a si, e viu que os outros trabalhadores se levantavam de seus postos, em uma sincronia quase robótica. Ela os seguiu, mesmo que sua mente ainda estivesse longe, em outro tempo, em outra realidade.
No caminho de volta ao seu alojamento, uma figura espreitava na sombra de um beco. Kira hesitou, sentindo um desconforto crescente. Era comum haver sombras em lugares como aquele, mas essa parecia diferente. Quando ela tentou ignorar, uma voz baixa sussurrou seu nome.
"Kira."
Ela parou, virando-se devagar. Os olhos arregalados tentando focar na direção de onde vinha o som. A figura permaneceu imóvel por alguns segundos, mas então deu um passo à frente. Era uma mulher, de aparência cansada, o cabelo emaranhado e os olhos profundos, como se carregasse todo o peso do mundo em suas costas.
"Você está vendo, não está?" a mulher perguntou, com um sorriso que misturava desespero e esperança. "Você sabe que há algo errado."
Kira congelou. As palavras dela ressoaram como um eco de seus próprios pensamentos. Ela sabia. Sempre soube.
A sensação de déjà vu a dominava. O que a mulher tinha acabado de dizer reverberava em sua mente, uma verdade incômoda que ela tentava ignorar havia dias, talvez meses.
"Eu... não sei do que está falando", respondeu, sua voz fraca e trêmula.
A mulher deu um passo à frente, e Kira notou como ela se movia com uma inquietação contida, como se algo estivesse prestes a explodir dentro dela. Os olhos da mulher brilhavam com uma intensidade quase perturbadora.
"Não sabe?", ela sorriu amargamente. "Todos nós sabemos, em algum lugar aqui dentro." Ela apontou para a cabeça, com o dedo trêmulo. "Eles fizeram isso com a gente. Nos quebraram. Mas você... você ainda lembra, não lembra? Lembra da superfície?"
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Ecos do Vazio
General FictionEm um mundo devastado por uma guerra nuclear, Kira, uma das poucas sobreviventes, enfrenta alucinações cada vez mais perturbadoras enquanto tenta escapar de uma organização secreta que controla os últimos resquícios da humanidade. À medida que sua m...
