Coloco meu moletom preto olhando para a janela.
Está nevando, o que significa que daqui poucas horas algumas crianças irão atirar bolas de neve umas nas outras e provavelmente acertar um carro e acertar um motorista pouco atento ao volante.
Sim, isso me ocorreu.
Desvio meu olhar para o espelho do armário e até que acabo gostando do que vejo.
Cortei meu cabelo semana passada e substituí meus óculos por lentes, pois eu era a cara do meu pai com armações quadradas.
Fito cada detalhe meu que mudei conforme os meses, as novas tatuagens que sempre escondo por medo de sair da casca, porém o mesmo motivo da minha autoestima ter aumentado.
Pego meu fone acima da escrivaninha e o passo pelo pescoço, logo depois o colocando na orelha.
Ainda tinha um longo caminho a percorrer até o trabalho e por sorte decidi sair cinco minutos antes do comum para pegar um lugar bom no metrô.
Foi uma péssima idéia vestir uma calça jeans rasgada nesse frio, enquanto esperei o ônibus meus joelhos não paravam de tremer enquanto cruzava meus braços com força contra o corpo.
Quando ele parou, retirei com certa lentidão o passe e atravessei a catraca me sentando no banco gelado.
Era meu primeiro inverno fora da escola, longe dos aquecedores nas salas de aula e do aconchegante canto aos fundos da sala.
Troco de música, coloco qualquer uma do Green Day pois é minha banda favorita e a tatuagem da granada em forma de coração em meu braço diz muito.
Meu coração é uma granada prestes a explodir.
Encosto minha testa na janela e vejo as pessoas lá fora, umas caminhando apressadamente e outras entrando em lojas quentinhas.
[...]
Cheguei cedo e mesmo assim o metrô estava apinhado de gente, tive que manter minhas mãos no bolso do moletom para conseguir me locomover.
Não consegui um lugar, eu nunca consigo.
Continuo com meus fones, prestando atenção pois minha parada seria a terceira.
(life letters - never get used to people)
Comecei a me perder na música, só acordei quando percebi uma movimentação e só faltavam mais duas paradas para a minha.
Vi um lugar vazio e me sentei antes que mais alguém sentasse, mas logo me arrependi pois estava perto demais das pessoas ao meu lado.
Fiquei sentada olhando para a sinalização e mais uma vez as mesmas pessoas que vejo todos os dias, se retiraram.
As portas se fecharam novamente e aliviada tenho mais espaço para respirar tranquilamente.
Presto atenção nas pessoas quando elas se distraem com os celulares, a maioria delas parece ser mais adulta que eu.
Claro, eu não aparenta ter quase 19 anos, tenho a mesma cara de sempre de uma garota de dezesseis e o fato de ter cortado o cabelo só me rejuvenesceu.
Quando o trem finalmente desacelerou e vi mais pessoas do lado de fora da estação, imediatamente me levantei decidida a ser a primeira a sair dali.
[...]
Quando cheguei na porta do trabalho ajeitei meu fone no pescoço, depois enfiei minhas luvas no bolso e abri a porta fazendo o sininho tocar.
A mudança repentina do frio para um calor aconchegante fez todo o trajeto valer a pena.
-Seu dia de sorte Cassy, nossa entregadora teve um contratempo e você vai substituir ela. -a voz familiar feminina apareceu por trás da sala dos fundos com um pacote nas mãos.
Trabalho na floricultura Lily's, simplesmente a mais famosa floricultura de Manhattan, mas também entregamos cartas endereçadas e embrulhos com coisas românticas dentro.
Sim, é um trabalho um pouco clichê demais, mas eu simplesmente não estou nenhum pouco disposta a trabalhar em escritórios.
Conheci Wanda nas redes sociais há uns anos e viramos amigas, eu só não imaginava que seu grande plano de abrir uma floricultura tivesse dado certo.
Sim, eu fico cerca de uma hora e meia em um trajeto pra longe do conforto da minha cama para escrever cartas fofas que nunca irei receber.
-Mas como? Eu ainda não tenho aulas de direção, elas começam mês que vem.
-E pra sua sorte também, a entrega vai ser mais perto do que imagina. A uma janela de distância. Ok, talvez um pouquinho mais -ela apontou para um prédio e olhei através da janela. -talvez encontre meu irmão, a entrega vai ser no quarto ao lado então entregue isso pra ele por mim.
Ela pegou um buquê de rosas vermelhas.
-Entregar rosas vermelhas pro seu irmão? -perguntei confusa.
-Não, as rosas são para o vizinho dele. O embrulho é pra ele, mamãe pediu pra entregar pra ele mas tenho alguns outros ramalhetes pra preparar ainda hoje.
-Ah....certo. Devo falar algo mais pra ele?
-Hm, não, mas quero falar algo pra você. Não se assuste quando o ver, aja naturalmente por favor.
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music is my religion
RomanceCassandra Boullevard, uma recém adulta que quer levar a vida não tão séria com a ajuda da música, se desprendendo do luto e começando a viver de uma forma diferente da qual sempre viveu.
