Capítulo I

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Suzana du Vel era um menino normal. Ele não era nem feio e nem bonito, embora tivesse uma boa compleição física. Seus cabelos eram negros como um desastre petrolífero à noite, e seus olhos tinham uma certa malícia, que era ocultada por sua aparência tediosamente comum, um daqueles meninos que todos os outros pegavam no pé. Seu queixo era pequeno e seus dentes, ligeiramente protuberantes. Aos dezessete anos, e a escola era o seu universo. Sabia que não seria assim para sempre, que este seria seu último ano na escola, a menos que fosse aceito em alguma universidade. Mesmo assim, a escola era o centro de sua vida. Era bom aluno, o primeiro nas turmas de inglês e matemática, e era bem atlético, também. Fazia parte do time de futebol da escola, os Greenville Devils, onde jogava na posição de linebacker. Adorava ir para as festas que seus amigos davam, regadas à sexo, drogas e rock n' roll. 

Como todo o menino da sua idade, ele era apixonado por sua colega mais popular: a maravilhosa Violet Hellfire. Havia algo de hipnótico naquela menina. Seus cabelos ruivos e ondulados eram como chamas, e seus olhos eram de um castanho profundo, como duas pedras incandescentes no centro de um vulcão. Tudo em Vi era quente: ela era baixa, com um olhar sexy, seios médios, uma cintura fina e quadris largos, mas não excessivamente. Suas pernas eram grossas, e ela não era nem gorda, nem magra. Ela tinha aquela aparência típica de lolita destruidora de lares.

Enfim, no meio de toda essa normalidade, Suzana tinha um segredo sombrio, que estava prestes a ser revelado. Um dia, quando estava prestes a entrar na sala de aula, Vi o puxou pela mão para um canto e o pressionou contra a parede. Imediatamente, cada pelo no corpo do rapaz se eriçou. "Será," pensava ele, "que ela finalmente me notou?" Nem percebeu que estava olhando com desejo para Violet. Fez um biquinho, como quem fosse beijar a colega.

- Ei, retardado! O que você pensa que está fazendo? - indagou ela.

- É... Eu não sei... Você me puxou pro canto... - respondeu o garoto.

 - É o seu pai - insistiu a aluna.

A menção a seu pai trouxe calafrios à espinha de Suzana. Não cresceu tendo muito contato com a sua linha paterna que, a bem da verdade, não se estendia para além de seu avô, que era velho como o tempo, mas sempre que esteve com o seu progenitor, as experiências foram as piores possíveis e, sua mãe, uma daquelas "tias da Assembléia de Deus," também não costumava contar bons relatos sobre ele.

- O quê? - interpelou o jovem, exasperado - Como é que você conhece meu pai?

- Digamos que ele é alguém que eu admiro muito... - retorquiu a jovem.

O garoto olhou para Violet. Ela usava uma camiseta regata sem sutiã, uma calça jeans e botinas de couro marrons. A garota tinha um ar sensual e perigoso, e o fato de ser admiradora de seu pai era ainda mais desconcertante.

- Seu pai precisa de você! - continuou o crush dele.

Os olhos de Suzana se arregalaram. Lembrou-se de todas as vezes que sua mãe disse que seu pai o procuraria, mais cedo ou mais tarde, e todas as histórias terríveis que ouviu acerca dele. O que quer que estivesse acontecendo, o rapaz só queria estar longe dali e, talvez, nem quisesse mais ter nada com a sua crush, Violet Hellfire.

- Nem fodendo! - exclamou o rapaz, tentando se livrar da posição delicada que seu amor o colocara, imprensado contra a parede. Buscou uma rota de fuga e tentou se evadir, mas a jovem foi mais rápida, e beijou-lhe na boca.

 Atônito, o linebacker sentiu o seu coração pular dentro do peito. Não acreditava no que estava acontecendo. Sempre fora apaixonado por esta menina e, até ontem, ela nem sequer parecia saber de sua existência! Agora, estava beijando o rapaz para tentar convencê-lo a ouvir uma mensagem de seu pai, ou alguma coisa assim.

- Seu pai quer que você vá até ele - disse a moça, rapidamente, antes que o sangue voltasse a circular nas veias de Suzana. 

- Mas eu não vou! - repetiu o rapaz - Olha, Vi... Você sabe o que minha mãe faria se soubesse que eu perdi, não... Que eu cabulei uma aula? Minha mãe é muito mais assustadora que *ele*...

- Você não pode estar falando a sério... - interrompeu a garota.

- Olha, deixa eu voltar pra aula, Vi...

- Não! - interrompeu a garota - Você precisa ir ver o seu pai. É muito importante!

- Mas o que aconteceu? Ele está bem? - disse o adolescente, agora preocupado.

- Então... Você vem? - indagou a moça, desta vez, em tom gentil e suave.

- Desculpe... Eu não posso fazer isso. - finalizou o mancebo.

Sentindo-se frustrada, talvez até acuada, posto que o pai de Suzana era alguém a ser temido, ela soltou, em um tom lépido e serelepe:

- Eu falo tudo o que você quiser! Qualquer coisa!

Um frio tomou conta da barriga de Suzana. Talvez fossem gases ou algo mais líquido, mas era quase como se tivesse recebido um soco na boca do estômago.

- Qualquer coisa? - repetiu o menino.

- Sim, o que você quiser.

Um novo calafrio percorreu a espinha dele. Era como se seus sonhos tivessem, subitamente, se tornado realidade. Ele estava pronto para tirar vantagem daquela situação. Não seria, afinal de contas, tão ruim assim, não é? Passar um tempo com o próprio pai... Aprender um pouco do ofício dele... Quem sabe? 

Uma vergonha tomou conta do corpo do popular rapaz, encabulado.

- Bem, é que eu... Eu...

Violet era muito impaciente e revirou os olhos.

- Ai, você o quê, garoto?

- Eu sou virgem...

A garota entendeu exatamente o que Suzana queria, e arregalou os olhos.

- Olha aqui, eu sou uma Arconte no reino do inferno! Eu não vou fazer isso, não!

- Tá legal... - respondeu Suzana, quase como se as palavras "arconte", "reino" e "inferno" não significassem absolutamente nada para ele - Então eu não vou.

Violet ponderou e entendeu que, de todos os pactos que foram feitos com ela durante todos os milênios, este seria um, quem sabe o único que, talvez, ela fosse *realmente* capaz de cumprir. E não era grandes coisas. "Considerando o que a Madre Teresa pediu..." ponderou.

- OK, mas você vem comigo. Amanhã. Depois da aula. Para o inferno.

Suzana concordou, acenando com a cabeça.

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