Brechas do Invisível

65 4 1
                                        




Já acostumado com a falta de respostas para suas complexas perguntas sobre as realidades possíveis e herméticas, Cauã declara seus inconformes de uma maneira sútil e retórica, como se uma filosofia ávida e quase mística habitasse dentro dele.

Oriundo de uma comunidade ribeirinha no interior do Amazonas, Pardo Rio, Cauã vive com a mãe, Euna, e o irmão Venâncio. Pardo Rio é um lugar com paisagens excêntricas, rodeada por uma vegetação ciliar que transforma os pores e os nasceres do sol em algo singular, árvores de muitas espécies enfeitam o entorno, transformando a ambiência em um verde notável. Quando criança, Cauã costumava se sentar em um barco emborcado que ficava em frente a um penhasco, o barco era quase como um pódio para ele, sua imaginação corria solta nesses momentos de solitude. Do barco era possível observar todas as movimentações sucedendo naquela imensidão de informações que para Cauã, eram pequenos universos acontecendo, a criatividade o levava para dentro de cada experiência nas quais eram possíveis de observar. Enxergava a vastidão do rio que passava por dentro de pequenas ilhas e grandes árvores, era como se o rio abastecesse a vida, conseguia observar através daquilo algum tipo de arte, uma dança, uma comunicação eloquente que prendia a atenção. Sentia-se fisgado.

Seus melhores amigos são Caio e Ruzon, todos tentam compreender com constância esse cataclisma interior de Cauã. Erudito, compreende a Filosofia desenfreada e admira a Física Quântica como mediadora de possibilidades. Absorto com o mundo ao seu redor, compreende o que é fatídico e onírico no seu ser pensante, sabe o que é efêmero, que precisa ser aproveitado ali e aprecia as coisas ininteligíveis, estudando-as como se fosse alcançá-las em alguma fração de momento.

Em Pardo Rio, as lendas sobre a floresta são quase como miméticas de distopia: seres amaldiçoados, seres abençoados, seres abençoadores e seres amaldiçoadores fazem parte do folclore local, lendas essas contadas por anfitriões nas noites de reuniões da comunidade. Nessas noites de contos e lendas que se misturavam com as ideias e decisões de melhoria para a comunidade, as pessoas de Pardo Rio se organizavam em uma grande roda no campo de festividades que há na comunidade, e os anfitriões representantes, em sua maioria homens e mulheres idosos autóctones daquele lugar por gerações, sentavam-se no meio da roda para partilhar da cultura a que foram ensinados, e por muitas vezes, experienciada. Nessas rodas, os pardorienses debatiam sobre suas decisões de melhoria para a comunidade de forma democrática, eles possuíam uma conexão de tal consonância, que as decisões eram tomadas quase sempre por unanimidade. As crenças na harmonia dos elementais regem essa sintonia. Crenças essas que Cauã quase sempre discordava por perceber que a maioria eram seguidas embasada pelo medo dos seres amaldiçoados e amaldiçoadores mimetizados de seres evoluídos. Mas por que "seres evoluídos" precisam ser regidos pelo medo? Por que precisamos tratar essas sensações físicas do mundo invisível como algo suplício? se perguntava ferozmente, sentindo uma mistura de sentimentos como raiva, tristeza, insatisfação e curiosidade, mas nunca medo. Cauã, como sempre, atento às histórias e com um sentimento de euforia no desentendimento sobre as experiências que gostaria de ter com esses seres espirituais, pensa que precisa explorar essa ambiência onde habitam seres não visíveis para sentir-se minimamente experiente.

- O que o Cauã está maquinando naquela cachola quase incompreensível dele? Pergunta Ruzon a Caio, que o observam com atenção de longe do outro lado da roda.

- Sei lá, provavelmente alguma ideia maluca. Dessas que ele tem quando quer largar tudo e sair viajando o mundo para se entender melhor. - Responde Caio, deixando transparecer a curiosidade.

A reunião se encerra por volta da meia noite, todos estão voltando para suas casas, Caio e Ruzon resolvem ir desejar boa noite a Cauã.

- Fala maninho, o que achou da roda de hoje? - Pergunta Caio.

- Como sempre, curiosa. - Responde Cauã.

- A gente percebeu tua cara de perdido lá de onde a gente tava. - Acrescenta Ruzon.

- E quem disse que eu tava perdido? Só tava pensativo, maninho. - Rebate Cauã. Ruzon declara curiosidade com a afeição e o deseja boa noite.

- Como sempre, né? Bom, tamo indo dormir, boa noite! - Diz Caio.

- Boa noite, galera. - Responde Cauã.

Inquieto, Cauã resolve não ir para casa naquele horário e sente um desejo de fumar na beira do Rio Solimões, fluente que banha aquela comunidade. Por mais que Cauã valorizasse a contemplação do momento, ele se mostra disperso em seus pensamentos depois da roda daquela noite, que não se diferia das outras na qual participou durante seus 22 anos de vida. Esse sentimento era curioso, o notava. A sensação era de que as sintonias o chamavam para estar ali, naquele horário (eram 00h33 quando checou no celular) acompanhado apenas de si mesmo, o que já era bastante presença. Cauã rumina nas variações de sua existência, nas realidades possíveis caso tivesse tomado certas decisões, e falou - diaxo, deve ser difícil reger as linhas não lineares das realidades, tudo pode mudar a partir de um passo que damos, essas coisas me deixam doido. - Externou Cauã.

Se deu conta de que não fazia parte da sua índole dar espaço aos pensamentos que o tiravam do presente enquanto poderia aproveitar aquela sensação de estar na beira do rio, voltou perceptivo minucioso para o visível ao seu redor. Agora sentia a brisa suave no rosto, percebendo que as copas das árvores balançavam com o vento que lá em cima poderia estar mais forte, transformando esse fenômeno em um som de folhas se misturando, como se cantassem. Dá atenção ao correr do rio e para ele, todos aqueles acontecimentos são como se fossem uma melopeia. Havia verbo naquilo, mas não conseguia entender.

Quando tomado completamente pelo ao redor, Cauã enxerga do outro lado do rio na margem, uma imagem complexa de ser decifrada, sua mente tenta materializar o ser, tenta entender, mas não consegue. Um turbilhão de pensamentos passava pela mente de Cauã enquanto ele se mantinha atento, alternando as expressões entre surpresa e curiosidade: esbugalhava o olho e os quase fechava para tentar enxergar e encaixar em algo verbal que tipo de imagem ele estava vendo agora, era incognoscível. Se sentiu perdido, confuso, tonto e perplexo, eram muitos sentimentos que curiosamente se tornaram em um tipo de alívio, do incognoscível ele penetrou na bolha do compreensível e a noção de compreensão que Cauã obteve não era mais a que estava acostumado. Depois de lutar internamente entre a crença e a descrença, o ser desaparece, fazendo com que tudo o que estava sob iluminação, escurecesse. Parecia que o elemento estava mostrando a força de sua presença. Uma nuvem que encobria a lua cheia daquela noite, se dissipou como fumaça. A claridade voltou e tudo que a luz tocava, agora era perceptível. Cauã entendeu a importância do invisível naquele momento, sentiu a sensação de uma valorização imensa, ali aconteceu a maior conexão já experienciada por Cauã, totalmente sui generis - algo único.

- Eu quero tanto falar sobre isso com alguém, mas como vou fazer isso se eu não consigo nem decifrar as sensações? não consigo nem montar e materializar o que eu acabei de ver, vão achar que eu tô ficando é doido! Vão se conformar com alguma argumentação de "a você viu algum animal do mato e blá blá blá"- Cauã sabia que por mais que as lendas regessem sua comunidade, na maioria das pessoas, existe um tipo de ceticismo. Não conseguiu terminar o tabaco, jogou-o no lixo e foi para casa, deitou-se em sua cama, maquinou sobre o que acabara de experienciar, aceitou a incompreensão das coisas, sentiu-se feliz por conseguir experienciar tal acontecimento e adormeceu em um sono profundo.

A Alquimia do SerWhere stories live. Discover now