Esta é uma história sobre dois deuses e uma garota. Aconteceu muito tempo atrás, quando a Escócia mal havia ganhado esse nome, em um castelo chamado DunBroch.
A primeira deusa, Cailleach, era muito antiga. Na verdade, às vezes era chamada de a "Velha Senhora da Escócia", embora a maioria dos humanos nunca a tenha visto assumir essa forma. Aqueles dotados de Visão sentiam a presença invisível da deusa em tempestades implacáveis, em quedas d'água caudalosas ou até mesmo na neve derretida que pontilhava os campos recém-arados na primavera. Cailleach era a deusa da criação. Fazia as árvores brotarem. A grama germinar. Os bezerros crescerem dentro das vacas. A fruta amadurecer na videira. Era encarregada da antiga função de criar e renovar.
Ah, mas era uma senhora ardilosa.
A velhota contornava as regras, mudava de forma, pregava peças e distorcia a verdade, sempre disposta a fazer de tudo para conseguir o que queria.
O segundo deus, Feradach, era muito jovem. Não que ele não existisse há tanto tempo quanto Cailleach, pois existia, ainda que à sua maneira. Ao contrário de Cailleach, porém, que assumia a mesma forma física sempre que se tornava visível, Feradach adotava uma aparência distinta para cada pessoa. Por isso estava sempre aprendendo coisas novas, uma atrás da outra, entregue a uma espécie de juventude eterna.
Feradach era o deus da ruína. Era encarregado da antiga função de destruir. A seu comando, incêndios devastavam paisagens, pragas assolavam vilarejos e enchentes aniquilavam civilizações.
Feradach destruía o que havia de obsoleto; Cailleach incitava a renovação.
Juntos, os dois mantinham as coisas em equilíbrio.
Infelizmente, porém, eles nem sempre concordavam sobre o que tal equilíbrio significava. Na verdade, era Cailleach que nem sempre concordava. O jovem Feradach tinha um senso de justiça inabalável, pois é mais fácil ser justo quando ainda não se foi anuviado pela experiência. Cailleach, por outro lado, era velha o bastante para ter desenvolvido gostos próprios. Vieses. Preferências. Isso significava que, às vezes, mesmo quando a ruína era o melhor caminho, ela queria que sua vontade prevalecesse.
E era nessas ocasiões que costumava trapacear. Vinha pregando peças em Feradach havia séculos.
Em determinados anos, conseguia salvar um guerreiro ou uma família ou até mesmo um vilarejo inteiro da ruína de Feradach. Em outros, contudo, não conseguia salvar uma pessoa sequer. Vez ou outra, quando as peças não funcionavam, ela recorria a um milagre, embora não os tivesse de sobra. Cailleach era uma criatura antiga, mas os milagres pertenciam a uma era ainda mais remota, oriundos das profundezas da Escócia que sempre favoreceram a cura e a criação. Anos milagrosos eram uma raridade.
E esta história se passa em um deles.
Tem início em um dia em que DunBroch, encarapitado em cima do lago reluzente, estava particularmente esplêndido. Naquele inverno rigoroso, tudo o que não era verde e vermelho se mostrava em matizes de preto e branco. Águas negras, margens cobertas de areia branca. Estrada escura que desembocava no castelo, samambaias pontilhadas de branco de ambos os lados. Muralhas enegrecidas, ameias revestidas de branco. Uma camada fina de neve polvilhava as reentrâncias do pátio, deixando-as lustrosas como um pãozinho com glacê. Frutinhas vermelhas adornavam os ramos de azevinho e folhas de louro encimavam as soleiras. Velhos estandartes verdes tremulavam com elegância no topo dos torreões.
DunBroch estava tomado pelos preparativos para um casamento natalino. Sim, eles tinham Natal naquela época, e casamentos também, embora não da forma como conhecemos hoje. Não davam muita importância aos aspectos mais relevantes dos casamentos atuais - a noiva e o noivo, a escolha de flores e vestidos, os chás e as despedidas de solteiro, as daminhas de honra e os pajens, o beijo... Em DunBroch, a cerimônia de casamento consistia em uma rápida troca de alianças ou broches diante de um sacerdote e pronto, acabou. Nada de beijo. Nada de romance. Só uma transação meramente formal. Mas a celebração que acontecia em seguida - isso, sim, era digno de nota. Às vezes se estendia por dias a fio. Teatrinhos e mímicas, danças cortesãs, testes de força, joguinhos bobos e, claro, muita comida. Ah, a comida! Aos olhos modernos, pareceria muito mais um banquete do que um casamento.
O Natal de DunBroch, por sua vez, era mais parecido com seu equivalente dos dias atuais. Era mais provável que houvesse javali ou cisne, em vez do tradicional peru natalino, e os jogos de tabuleiro disputados diante da lareira já foram extintos há séculos, mas os enfeites sazonais eram os mesmos. Guirlandas de azevinho e galhos de hera, viscos travessos e canções alegres, doze dias curtos de inverno regados a presentes, doze noites longas regadas a iguarias e vinho aromático. Era o complemento ideal para a folia do banquete de casamento.
Quem se casaria naquele Natal era Leezie. A tola, jovem e adorável Leezie, que trabalhava no castelo havia tanto tempo que era quase parte da família. A garota adorava rituais e religiões. Os cristãos, os druidas, os judeus, as bruxas, os cistercienses, os rapazes de Cernuno, as moças de Morrigan, os tironensianos, os cluníacos - ela já tinha experimentado de tudo. Pouco antes, tornara-se devota de Minerva, a deusa romana da sabedoria e das artes, e passara semanas tecendo e compondo canções sobre corujas. Foi um período complicado. Por sorte, logo teve a atenção arrebatada pela astrologia e, depois, pelo casamento. Leezie sempre quis um casamento natalino - a combinação perfeita de ritual e religião - e enfim tinha encontrado um rapaz com quem compartilhar aquele dia. As pessoas de DunBroch o chamavam de Repolho.
E embora repolho não seja algo muito empolgante, ao menos é nutritivo. O rapaz daria para o gasto.
Esta história, contudo, não é sobre Leezie. É sobre outra garota de DunBroch.
Ora, existem três DunBrochs: o castelo DunBroch, que se ergue vigilante sobre as encostas arborizadas. O reino DunBroch, com seus lagos e riachos, suas planícies verdejantes e terras altas pontilhadas de abrigos, seu conglomerado de montanhas grisalhas debruadas por um filete de mar negro. E o clã DunBroch: rei Fergus, rainha Elinor, princesa Merida e os príncipes trigêmeos, Hubert, Harris e Hamish.
Esta história diz respeito à princesa Merida.
Merida não era a princesinha educada que você pode estar imaginando; estava mais para um fósforo em chamas, embora fósforos ainda não existissem àquela altura. Cabelos ruivos, olhos argutos, mente ágil. Feita para começar incêndios, mas não para apagá-los. Era especialista no arco e flecha. Por mais de uma década, antes da chegada dos trigêmeos diabólicos, havia sido filha única. Enquanto outras crianças tinham amigos, Merida tinha seu arco. Dedicava-se à arquearia de forma sôfrega, quase automática, sempre que arranjava um tempo livre entre as aulas de bordado, música e leitura agendadas pela mãe. O arco proporcionava uma quietude que ela não conseguia encontrar em nenhum outro lugar. Sempre que se via diante de um problema sem solução, saía para atirar. Sempre que era tomada por um sentimento que não entendia, saía para atirar. Hora após hora, colecionava calos nas pontas dos dedos e hematomas nos antebraços. À noite, quando se punha a sonhar, ainda mirava por entre as árvores e ajustava a flecha aos ventos implacáveis das terras altas.
Nos meses que antecederam o casamento, Merida pegou seu arco e percorreu o reino. Na primavera, acompanhou os aldeões e seus rebanhos até os abrigos temporários nas terras altas. No fim do verão, foi ter aulas de escrita e geografia com as freiras em Morventon. No outono, viajou com um punhado dos homens de confiança do pai, que haviam jurado mapear as variações no terreno de DunBroch. No inverno, retornou para o casamento de Leezie. Guardou o arco. Encontrou o castelo seguro e inalterado depois de meses e meses de perambulação.
Merida não sabia que Feradach se aproximava, trazendo o desastre a reboque.
Mas Cailleach sabia. Aquela velha deusa astuta.
Ela também sabia que DunBroch tinha feito por merecer a ruína de Feradach. Mas a deusa era velha, enviesada e nutria um certo interesse pelo clã DunBroch.
Então ela trapaceou. Essa é a história.
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Valente: Um sopro de magia
AdventureO que aconteceria se você tivesse apenas um ano para salvar tudo o que ama? Anos após o desfecho do filme Valente, a princesa Merida de DunBroch precisa de uma mudança. Por mais que ame sua família - o brincalhão rei Fergus, a respeitável rainha Eli...
