A estrada da feira

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Andava lentamente, no acostamento de uma rodovia, uma velha mulher. De feição séria, tinha a concentração de quem carregava consigo uma ideia emergente. Seus cabelos longos e grisalhos estavam soltos, como achava que mereciam estar nesse vislumbre de liberdade. Usava seu vestido favorito, antes branco e vivo, agora um pouco desbotado e cinzento pelo uso. Seus braços flácidos brotavam das mangas do vestido florido e folgado, movimentavam-se como se ela tivesse ensaiado uma marcha, para trás e para frente, acompanhando cada passo obstinado que dava. 

Era um sábado ensolarado, dia de feira nas cidades de interior da Paraíba, mas ela não queria pensar onde estava ou onde precisava estar. Apenas caminhava em direção à feira, como fizera dezenas de vezes todos esses anos, desde sua infância. 

Seus cabelos esvoaçavam livres como as folhas e os galhos de jurema que brotavam perto da estrada asfaltada. Sentia o ar inflar seus pulmões e levar consigo o cansaço que permeava seu corpo. Deparou-se com os pontos de ônibus e os futuros passageiros que aguardavam para ir ao trabalho, para cumprir suas rotinas e talvez ter a chance de realizar seus sonhos, mas queria deixá-los para trás com suas urgências e anseios. Ela preferia se concentrar nos pequenos detalhes, banais e inusitados, que capturavam seu olhar enquanto atravessava a estrada que cortava as fazendas, a cidade e as montanhas antigas. 

 Observava as pequenas casas das fazendas nas planícies sertanejas. Uma mulher de meia-idade amolava o facão de cozinha na escadaria de pedra que dava acesso à porta de sua casa. Homens andavam entre as plantações de batata-doce tirando ervas daninhas e olhando as mangueiras de irrigação. Crianças brincavam, subindo em árvores para roubar as frutas das mangueiras dos vizinhos. Essa era a época das mangas, elas apareciam numerosas entre as folhas das mangueiras e sobre o chão abaixo delas, eram grandes, pegajosas e com um cheiro doce e impregnado de memórias. 

 Notou, por fim, os bois, brancos com corcundas, certamente caros, repousando em campos meio secos. Estavam sozinhos, deitados e relaxando, no limite onde a fazenda se findava e a mata se iniciava. A caatinga cobria planalto acima, entre rochas antigas, repletas de sulcos esculpidos pela chuva e pelos ventos, com seus galhos retorcidos e folhas escassas. Encarou a mata com certo pesar, ela parecia estar presa entre as grades de arame farpado e madeira que não podia ultrapassar. Ali, subindo as montanhas que rodeavam a cidade, naquelas matas tímidas e quentes, talvez morasse algum tipo de liberdade há muito esquecida entre as cercas dos donos de terra. 

 Chegou à feira um tanto tranquila e abafada. Estava cheia de gente, e ela tinha que desviar vez ou outra de feirantes e suas carroças de mão repletas de vagens de feijão-verde e fava, cará, inhame, macaxeira e tantas outras coisas. Escondia que estava ofegante e não queria chamar a mesma atenção de sempre para seu cansaço. Não queria aqueles olhares penosos ao seu redor, que pareciam se lamentar dos limites da velhice para ela. Não queria depender da velha gentileza dos outros, não hoje. 

— Dona Catirina! — disse o velho peixeiro. —Tá andando um bocado, hein?! Sua filha não veio te deixar? 

— Opa — respondeu ela. — Não tô tão mal das pernas ainda, seu Jô. 

— Claro, claro, tô vendo — Catirina riu secamente em resposta e continuou seu caminho tão rápido quanto pôde, sem olhar de relance. 

Adentrou o caminho das barracas cheias de todo tipo de coisa. Os inúmeros cheiros das carnes de peixes e frutas se misturavam gerando uma fragrância mista e enjoada. Catirina passou lentamente por entre as tendas de frutas e verduras, examinando por hábito os pimentões, tomates, coentro e algumas cebolas penduradas em cordas, mas dessa vez sem se preocupar com o que compraria para preparar em futuros almoços. Adiante avistou vasos de barro, de todos os tamanhos e formas. Imaginava que em alguns era possível plantar, em outros, guardar água ou um bom melado de cana. 

O lugar ainda cheirava à carne de peixe que seu Jô e outros feirantes vendiam, peixes como tilápia, vindos de lagos e da cada vez mais famosa piscicultura de que tanto falavam. Mas, à medida que ela se aproximava das barracas de ervas, o cheiro das plantas de chá tranquilizou seu nariz. Tinha alecrim, erva-cidreira e hortelã. Eram esses os cheiros que sempre recebiam suas dores. Desde os chás contra mal-estar, quando era criança, aos chás que acolhiam suas angústias quando era mulher feita. A bebida quente lhe aquecia o corpo. Ela a preparava com o cuidado e a concentração de um ritual. Fazer chá para tomar em fim de tarde foi, por anos, algo só dela, em meio às estações cheias de deveres como esposa e mãe, em rotina com seus filhos e tensões com seu marido. 

Continuou a caminhar pela feira movimentada, cumprimentando os feirantes e conhecidos, mas ainda contida e apressada. Não queria papo, só queria observar. 

Avistou chapéus de palha pendurados na entrada de uma barraca e outros empilhados em seu interior, redondos e largos, usados para proteger os fazendeiros do sol poderoso do cariri paraibano. Na tenda seguinte havia queijos e dezenas de garrafas de vidro cheias de aguardente, mel ou manteiga da terra, além de potes e remédios; na outra, observou os cordéis, que relatavam, em rima, histórias das mais diversas e criativas, pendurados em barbante e que ela tanto gostava de ler. Em seguida, viu ferramentas surgirem aos seus olhos, feitas de madeira ou ferro. Havia facões, foices de capinar, pás, todo tipo de instrumento para plantar e cozinhar, mas deteve seu olhar sobre os pilões. 

Lembrava-se do esforço para triturar o milho para fazer farinha num grande pilão, o movimento constante e pesado, cima e baixo, tal como sua mãe e a mãe dela fizeram antes. O trabalho se intensificava todo São João, quando as mulheres da casa de sua infância reuniam-se para ralar e triturar inúmeras espigas de milho para fazer pamonha, faziam tantas que persistiam na mesa da janta por semanas. Lembrava-se também do riso de seus filhos no terraço enquanto realizava seu trabalho em seus anos de casamento. Um sorriso de saudades brotou em sua face enrugada, mas não arriscava lembrar mais do que isso. 

Parou enfim em frente a uma barraca de frutas. Observava cuidadosamente as cestas repletas de melancias, melões, jerimuns, laranjas, limões, bananas, cajus, umbus, procurando, vasculhando os cheiros e cores. Mais a direita, às escondidas, entre laranjas e limões, estava seu prêmio tão ansiado.



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⏰ Última atualização: Aug 04, 2024 ⏰

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