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SOM DE TROMBETA

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Meu relógio marcava 00:15, as ruas estavam completamente vazias, maldita hora que fui conversar com o Rafael, isso me fez perder o último ônibus, aquele filho da mãe do motorista sempre fazia a última corrida em alta velocidade, e era por isso que sempre apertava meu passo para chegar rápido no ponto, Rafael, maldito Rafael que me fez experimentar os piores momentos da minha vida, momentos que jamais vou esquecer. Já sem esperança com a passagem de algum ônibus que estivesse indo para garagem, e assim poder me dar uma carona, fui caminhando e xingando ao mesmo tempo, a miséria de salário que ganhava como caixa de supermercado não me permitia tanta emoção, tanto medo, tanto apuro

Fazia frio, muito frio, as ruas estavam molhadas, tinha chovido mais cedo, a primeira das estranhezas daquele dia foi logo ao virar a rua da auto escola, um cachorro, sim, um cachorro. Ficou parado me olhando no fundo dos meus olhos, parecia querer me dizer algo, ou até disse, com seus latidos, parecia saber que não era aquele o melhor caminho, veio me acompanhando, cruzava na minha frente deixando claro que não era para eu seguir por ali, mas vendo que eu não estava me importando com ele, então parou, balançou o rabo e voltou

Desistiu, sim, desistiu de tentar ajudar um idiota que claramente não queria ser ajudado, era um sinal, claro que era, mas nunca fui de perceber sinais, nunca fui de nada, minha mediocridade é tão grande que me assusta ainda hoje. Lembro bem, ainda estava impactado com o olhar do cachorro, mas podia ver algumas pessoas ao longe, aquela rua sempre foi iluminada, mas naquele maldito dia estava escura, estava incrivelmente vazia para uma quinta feira

Foi nos meus primeiros passos na rua Alberto Alves que veio o primeiro som de trombeta que fez tudo mudar, um som ensurdecedor, medonho, e eu só me perguntava de onde vinha aquele som, que de tão forte me fez tapar os ouvidos e fechar os olhos, mas ao abri-los me apavorei. Uma escuridão que jamais tinha visto, aquilo não poderia estar acontecendo, todas as lâmpadas dos postes da rua desligaram como que se ouvissem um comando, mas não só, a lua, não se era possível ver a luz da lua, a luz de nada, uma escuridão que quase não dava para ver nada, e um silêncio que era profundo, não se ouvia nada

Não tive escolha, tinha que seguir em frente, voltar seria pior, fui caminhando devagar sabendo que demoraria muito, mas muito para chegar em casa, minha vida corria perigo naquele momento, me abaixei e peguei uma pedra, se alguém viesse me roubar já tinha com o que me defender. Fiquei andando vagarosamente por alguns minutos naquele breu, já estava me achando no caminho e acelerando meus passos, mas de repente comecei a ouvir passos me seguindo, naquele imenso silêncio de outrora, agora tinham passos que pareciam estar acelerando em minha direção

Fui andando cada vez mais rápido, e os passos continuavam me seguindo, comecei a correr e os passos também, avistei uma árvore e parei atrás dela, os passos pararam simultaneamente, só ali, atrás da árvore notei que não, não era bandido, era o que eu mais temia, algo sobrenatural, se fosse ladrão já teria me atacado, tinha que ter me atacado. Meu coração gelou, sabia que duas quadras a frente teria o canal da avenida Prestes Ribeiro, lá era mais aberto, não ficaria tão vulnerável, uma tremenda idiotice em se falando de sobrenatural, como se ali ou em outro lugar eu estaria seguro

Tomei coragem e voltei a andar em direção da avenida, e por alguns segundos, apenas alguns segundos achei que estava livre daquele pavor, não, não estava, os passos voltaram a me seguir, e o que ainda poderia ser dúvida acabou com uma voz medonha bem no meu ouvido

"O que você faz aqui? Seu estúpido, saia daqui, se permanecer aqui pode nunca mais voltar" "Pelo amor de Deus quem está falando comigo? Eu não vejo ninguém, eu só quero ir embora, quero acabar com tudo isso" "Então saia, vá embora, volte para o seu lugar, não é bem vindo aqui, se eles sentirem o seu cheiro você já era" "Eles quem meu Deus?" "Deus não pode lhe ajudar aqui estúpido"

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