Dentro das ruínas do Monte Ghanon, corvos, num bater de asas tranquilo, sobrevoavam o grande altar de pedra. Como uma dança em sincronia perfeita, num movimento coreografado, seus corpos, de penas enegrecidas e reluzentes, suavemente aterrissavam de maneira estratégica nos pilares de pedra, em volta de uma larga e extensa plataforma sobre o altar, gravado com runas ancestrais nos limites de seu círculo perfeito. A luz da lua pousava tranquila sobre o chão das ruínas, penetrando-se no salão principal do enorme e abandonado monastério através das janelas e dos buracos nas estruturas, criados pela mãe natureza ao longo dos anos.
Entre escombros e tijolos de pedra, ervas daninhas percorriam os corredores, e árvores invadiam o espaço, abraçando as paredes frias do local. O monastério, antes um espaço sagrado, agora era belo e tomado pela flora. No topo, protegendo o interno da fortaleza, seu domo de cobre incrivelmente detalhado, já não apresentava tanto vigor e poder, uma vez que sua coloração brilhosa e dourada abrira espaço para uma nova versão fosca e esverdeada.
Aqueles que avistassem o monastério do Monte Ghanon, em condições tão desertas, jamais imaginariam que antes fora um local tão frequentado pelos líderes religiosos de Lostmus, sendo um território neutro, isento de qualquer rivalidade ou guerra, séculos atrás, quando essa tradição ainda era respeitada.
Por bons minutos os corvos se entreolharam, posicionados em círculo nos pilares médios que rodeavam o altar de pedra, curiosos, reconhecendo uma presença distinta no local, mas que não podiam fisicamente enxergar. Sentindo que algo os levara até ali, eles aguardavam algum sinal. Cansado pela espera, um dos corvos começou a grasnar, como se comunicasse algo ao bando. Os outros corvos torciam suas cabeças de um lado para o outro, tentando compreender. Em pouco tempo, outros corvos começaram a cantar alvoroçados, criando um efeito dominó, até que todos os pássaros dentro do monastério estivessem corvejando num coro angustiado e desorganizado, ecoando pelos cantos da ruína como um berro aterrorizante. Esse grito de guerra continuou até que um último corvo entrasse por uma grande fresta na parede. Com penas desgrenhadas e olhos opacos, voava baixo e com dificuldade, doente e fraco demais para planar com maestria e beleza. Subitamente, todos os outros corvos pararam seu canto desafinado, enquanto seus pequenos pares de olhos escuros seguiam o último companheiro entrando dificultoso no monastério. Sem mais forças para seu bater de asas, o corvo doente custosamente pousou no altar, precisando caminhar com suas pequeninas garras até chegar no centro, usando seu ínfimo pico de energia para realizar tal tarefa. Em seu último suspiro, desfaleceu graciosamente no coração do Monte Ghanon, morto.
A lua, para o bem, rotava devagar, e sua luz caminhava, a proporção que o desmoronamento permitia, em direção ao pequeno corpo finado, pouco a pouco iluminando seu penacho soturno. Os outros corvos arregalavam seus olhares, ansiosos. Discretamente, o peitoral do corvo abatido voltava a se movimentar, sentindo alívio, respirando profundamente ainda caído no chão. Sua terceira pálpebra cartilaginosa piscou devagar, atordoado, enquanto o pássaro levantava sua cabeça, e posteriormente colocava-se em pé, disposto a bater suas asas para voar novamente, e assim o fez, voando em direção ao domo de cobre do monastério, agraciando a visão de seus companheiros de penas negras, exibindo-lhes sua nova vitalidade.
O corvo impulsionou seu vôo habilidoso e cheio de vigor, passando pela abertura que permitira anteriormente que a luz do luar repousasse sobre seu cadáver. Dessa maneira, seguindo seu rastro luminoso, o corvo deixou o monastério, desaparecendo pelo horizonte magnífico do bosque que cercava a ruína. Sua direção não era incerta - aliás, nunca fora -, e o pequeno pássaro negro trilharia uma longa e solitária jornada. Possuindo um novo e definido destino, voou em direção à imensidão celeste, planando acima das nuvens, com uma visão paradisíaca semelhante a um vasto oceano de formações brancas e macias no céu, como grandes, porém calmas, ondas do mar. Sobre a nébula deslumbrante e espessa, o corvo avistava somente a lua, e algumas estrelas, que coadjuvavam a linda paisagem. O pássaro nunca voara tão alto antes. Até detectar um odor forte de fuligem vindo ao leste.
De prontidão, após alguns minutos de paz em sua viagem, o corvo mergulhou de encontro as nuvens, deparando-se com uma visão panorâmica de incontáveis hectares da Floresta Azulada em chamas, hospedando o que parecia ser uma batalha atroz entre dois exércitos inimigos, desesperados pelo massacre uns dos outros. Algumas pilhas de cadáveres de soldados já mortos exalavam um odor pútrido de carne queimada, e suas cotas de malhas, gravadas com brasões de clãs distintos, espadas e outras armas, derretiam devagar no calor do incêndio naquele arvoredo sagrado, protagonizando um cenário horrendo de destruição e brasas. Imerso, o corvo assistia a devastadora crueldade de uma guerra desmedida e pavorosa que teria se dado início, quebrando a profecia da calma.
Não muito distante de seu vôo majestoso, entre os corpos carburados pelo fogo que consumia a floresta, duas figuras não encaixavam-se meio à batalha. O corvo seguiu o rastro de morte que se alastrava sobre o solo fértil da Floresta Azulada, e finalmente um alvoroço incomum refletiu em sua íris apática, assistindo aos responsáveis pelo derramamento de sangue.
Um homem forte, carregando um olhar feroz e com o rosto ensanguentado, usava seu fôlego treinado para brandir a espada contra as lâminas dos demais soldados. Seu cabelo de fios dourados era ofuscado pela fuligem, e seu ombro esquerdo estava ferido por um corte que se extendia sobre a pele, fazendo-o sangrar. Brutal como um animal selvagem, e consumido pela adrenalina de morrer ou matar, o homem bloqueava e devolvia os ataques que eram lançados contra si, vindo de soldados despreparados e contaminados pelo terror, assim que cruzavam com o olhar alucinado e impiedoso do guerreiro sem brasão.
Com os nervos a flor da pele, transpirando diante do calor extremo, e com os vasos dilatados percorrendo seus músculos inchados, o mercenário irritadiço, carregava a expressão de um verdadeiro bárbaro, e massacraria qualquer um que se aproximasse. Exceto seu único parceiro, que se dispunha também ferido e de costas para o mesmo, de forma que ambos protegiam a retaguarda um do outro. Este, de cabelos negros, compridos e desarrumados devido a incessante batalha, mantinha um certo otimismo em seu semblante, por mais que as condições fossem horrorosas naquele momento, e um corte em sua barriga o incomodassem ferrenhamente. Não estava gostando de matar tantos homens, na verdade preferia, naquele exato instante, estar bebendo rum, rodeado de mulheres voluptuosas, em qualquer bordel no fim do mundo, contudo sabia que não havia nada, além de sua própria valentia, que pudesse o salvar daquela situação. E, com certeza, num futuro muito distante cantaria louvores e contaria histórias heróicas para seus filhos e netos sobre aquela batalha infame de dois homens contra dois exércitos inteiros. Sabia que jamais acreditariam nele.
Livres das amarras de qualquer comandante aristocrata ordenando-os o que fazer, a dupla de mercenários, protegidos com couraças reforçadas e pouco metal, tinha vantagem sobre os demais guerreiros, que ferviam no interior de suas armaduras de ferro, dentro de um cenário excepcionalmente infernal. Suas espadas brandiam contra as armas dos inimigos, produzindo sons cintilantes e agudos, típicos da guerra.
Dentre esquivos rápidos e bloqueios de ataques premeditados, suas pernas eram úteis com chutes poderosos. Quando fosse preciso desequilibrar o inimigo ou deixá-lo de joelhos, usavam essa habilidade sem relutância. Durante os incontáveis duelos que enfrentavam naquela hora, a dupla habilidosa de mercenários esperava sempre uma brecha ou descuido dos adversários, e, em qualquer oportunidade de desmembra-los com um corte rápido, ou de atravessar-lhes os quadris com suas longas e afiadas lâminas, o faziam, acumulando um amontoado de corpos desalmados aos seus pés, até que não houvesse mais espaço, e ambos fossem obrigados a se mover para facilitar sua movimentação na luta, construindo então um caminho de defuntos, qual o corvo notara previamente.
- O quê fizemos para merecer esse inferno? - Indagou o mercenário irritadiço, enfurecido, apertando o punho encouraçado de sua espada, segurando uma tosse inafável pela queimada incessante das árvores. E por mais que seus pulmões dissessem o contrário, a adrenalina que corria por sua carne o ajudava a manter-se disposto para receber os próximos oponentes com a mais animalesca agressividade.
O aliado soltou um riso cansado, no entanto carismático, ao ouvir a fala do amigo. Um tanto quanto estóico, arfava enquanto alongava suas costas, ajeitando sua postura, num ligeiro momento de alívio, uma vez que o destino os proporcionava um instante de paz, antes que a próxima horda insana de soldados obtusos os atacassem novamente.
- "O quê fizemos"? - Riu novamente. - Aceitamos a merda de um trabalho.
O corvo, em sua estranha e arrogante inteligência perguntava-se como dois mercenários fajutos teriam sido capazes de derrotar tantos homens, talvez já sabendo a resposta.
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INDOMÁVEL
AdventureAcostumando com a vida mercenária; saquear carrocerias, planejar grandes furtos, vinho, rum, mulheres, brigas e ouro, eram o suficiente para que Magnus e Sven vivessem distante dos assuntos da guerra em Lostmus. No entanto, uma natureza obscura e so...
