Entre as entranhas dos dedos de uma pobre criatura que orava -ou ao menos parecia, em frente ao altar de uma velha catedral, uma flor estava posicionada. Bela como porcelana, e tão delicada quanto.
Histórias contavam que aquela criatura, que aparecia ali com tanta frequência, era uma aparição divina. Um anjo. No entanto, ao que se difere do pensamento popular, aquela criatura não passava de um morto-vivo, um vampiro que frequentemente ia meditar em frente ao altar da catedral.
A flor em sua mão era banhada de sangue. Uma pista delicada de um crime pavoroso.
O ar gélido das ruínas do ambiente sagrado era suave ao tocar na pele daquela criatura. As pinturas no telhado e nas paredes eram a mais bela arte, ainda que realmente desgastadas pelo tempo.
Naquela noite de lua cheia, uma segunda criatura apareceu na catedral. Desta vez, era realmente um anjo. Tão majestoso e angelical que deixaria o maior e mais arrogante dos mortais cheio de paz e afeto.
A figura angelical caminhou com calma até o morto-vivo e o olhou com certo ar de superioridade. —Venha comigo, criatura de sombras.
Disse ele e o vampiro riu suavemente.
Aquela criatura cuja flor ensanguentada entregava, da forma mais eufemista de dizer, motivos de desconfiança, levantou-se e curvou-se ao anjo.
Ajoelhou-se e estendeu a flor à figura angelical —Entregar-lhe-ei esta flor como sinônimo de minha trégua.
Disse o vampiro.
O anjo pareceu enojado e certamente surpreso. Com um golpe, ele fez o morto-vivo pular para longe com um sorriso.
No clima mais que gótico que a catedral emitia, uma luta fora travada, fazendo dos papéis e cortinas frágeis que existiam ali, verdadeiros guerreiros por continuarem inteiros, apesar do tempo e daquela luta tão súbita.
Objetivos? O anjo queria levar tal criatura assombrosa ao inferno, onde ele pertencia. Já o morto-vivo... Ele parecia fazer aquilo apenas por querer, sem muitos objetivos explícitos. Na verdade, era mais como se estivesse apenas se divertindo; nítido que a presença divina à sua frente certamente o alegrara.
Passaram longas e mais longas horas disputando pela própria vitória, já que ambos jamais aceitariam perder.
E quando a lua, no alto do céu noturno, iluminou as delicadas peças de ouro e brilhantes pedras preciosas, eles pararam por alguns minutos.
Ofegantes, seus peitos subiam e desciam de forma ritmada.
Ainda assim, mesmo que cansados o suficiente para mal conseguirem se mover, o morto-vivo pulou sobre o corpo do anjo.
Os olhos vermelhos do morto-vivo fitaram os olhos azul-prateados do anjo com certa diversão. —Mate-me se é o que deseja, mas lhe garanto que não ficará por isso mesmo.
—Matá-lo? Como poderia?
—És tão belo quanto a lua vermelha no céu. Quanto ao pranto de uma alma quebrada. Quanto a luz em meio a escuridão. Como poderia matá-lo quando tudo que quero é tê-lo?
O anjo sentiu seu corpo doer com aquelas palavras tão cheias dos maiores sentimentos que ele sequer podia entender. ——Como você, mesmo após a mais dolorosa das mortes, pôde manter sentimentos humanos ligados a sua alma?
O morto-vivo riu suavemente, alinhando com sutileza o cabelo bagunçado do anjo. —Não gosto de parecer superior a você, estar sobre sua silhueta, meu anjo... Ainda assim, você não me deixou escolher.
O morto-vivo apertou os pulsos do anjo e aproximou seu rosto do outro, perto o suficiente para confundirem as próprias respirações. Tão quentes quanto o que nutria o ódio dos mortos vivos pelos anjos.
—Vá embora, vampiro. Deixe-me em paz.
—Receio que não seja capaz, meu anjo.
—Mesmo que eu o despreze e o desgoste?
—Mesmo que mova o mundo contra mim, as ondas, os céus, os sentidos... Nada me faria deixá-lo.
—Por quê?
Um sútil selar de lábios fez o anjo sentir seu corpo levar um grande choque, o que não demorou muito, já que logo o vampiro se afastou, como se buscasse saber se de fato era o que o anjo queria.
A figura angelical nada falou, então o vampiro entendeu como uma afirmação e o levantou, colando seus corpos e lábios.
Sob a lua e a brisa suave da noite, o vampiro pôs o anjo sobre a mesa do altar, afastando tudo o que havia em volta, tomados por uma forte luxúria inebriante.
As mãos de ambos percorriam pelos corpos alheios, buscando formas de mantê-los perto o maior tempo que pudessem.
As línguas dançantes, o suor que colava seus corpos e toda a paixão que transbordava suas almas eram sensações enlouquecedouras, tão fortes quanto as unhas que cravaram loucamente a madeira antiga daquela mesa.
Uma fina lágrima se formou nos olhos do anjo ao sentir o vampiro tomá-lo de uma forma levemente brusca, ainda que tentasse ser o mais delicado que conseguia.
—Busquei-o nas mais diversas coisas, meu anjo.
Disse o vampiro.
—Busquei-o nos mais diversos rostos, nas mais diversas vozes, nas diversas formas de arte que pude encontrar e ainda assim, quando notava que não eram como você... Os destruí. Os matei pois não eram dignos de ter algo que lembrasse você...
Por que nunca esteve em nenhum desses lugares?
—Este é seu maior crime, vampiro; vossa obsessão pelo meu amor.
Disse o anjo com os olhos fundos e vazios. Uma dor os tomava mesmo com o momento sensual. Com o tempo, o ato que estavam a praticar parou de ser algo prazeroso para se tornar doloroso. Uma lembrança amarga de que nunca poderiam pertencer um ao outro.
—Tu, uma vez disseste que sou indigno dos céus pelos meus crimes, mesmo que os tenha feito por você... Realmente acha-me tão pouco sob a faixa ilusória do poder celestial que o cega?
Perguntou o vampiro encostando seu rosto na curva entre o pescoço e o rosto do anjo.
O anjo suspirou pesadamente tocando suavemente no cabelo do morto-vivo.
—Não faça assim... Também dói em minh'alma, mas nada posso fazer pois tenho de servir aos céus... Não posso buscar você. Seria uma traição para além de todas as regras celestiais.
—Portanto, deixe-me possui-lo apenas por esta noite, apenas por este momento... Sem lembrar, de forma trágica, o quão impertinente é o sentimento que tenho no mais profundo de meu ser.
Disse o vampiro segundos antes de tomar os lábios do anjo novamente.
...
Ambos trocaram carícias por algum tempo e logo deitaram um ao lado do outro. —Não posso dar a você o sentimento que deseja.
Disse o anjo.
—Por quê?
—Porque há regras. Porque os rastros das sombras que sua espécie deixou neste mundo vão muito mais além dos rastros de qualquer chacina. Porque não posso abandonar tudo o que tenho por você.
Os olhos vermelhos do vampiro brilharam com tais palavras, olhos esses que fitaram o telhado velho da catedral com certa confusão e frustração. —Anjo, por que tanto se permite ser esmagado pela voz acima da sua? Por que não se permite amar? Se te faz mal, traia-os. Por que se ferir tanto?
O anjo virou para o outro lado, evitando olhar para o vampiro.
—Realmente não pode, ou apenas... Não quer?
Perguntou o vampiro.
O cabelo bagunçado e esbranquiçado do anjo fazia-o parecer brilhar em meio a luz da lua. Ele nada falou.
Quando finalmente o vampiro pareceu dormir -se é que era possível, o anjo novamente virou para ele com os olhos marejados.
—Pois tua lealdade é tão linda quanto o mais puro celestial, mas infelizmente, estão cravadas em minha mente, as raízes de uma crença covarde, que acoa sem trégua. Mesmo que não possa trair os meus diretamente, os traio ao deixá-lo ir. Ao deixá-lo livre. Quando acordar, veja-se livre para fugir e fuja. Corra para longe. Busque outros ares, outros amores, pois eu já não estarei aqui.
Fim.
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Sacré Et Profane, Cathédrale.
General FictionA lua, do céu, ilumina as delicadas esculturas no ouro de uma antiga catedral e presencia a história do amor infeliz de duas almas quebradas, destinadas à separação de forma pungente, ainda que cativante, como as donzelas de Jan Vermeer e os angusti...
