Sophia
Estava sentada no banco velho do jardim municipal, enquanto observava as folha douradas que eram levadas pelo vento, para longe.
O sol já tinha desaparecido à algumas horas, assim como a maioria das pessoas que passaram por ali.
Olhei para o meu uniforme branco, todo amarrotado e desgastado, assim como o meu estado de espírito. O dia realmente não correu como planeado. Que belo aniversário...
Uma nova brisa de ar passa por mim, e eu fecho os meus olhos, deixando a minha mente vaguear. Pensei que algumas horas sozinha pudessem ajudar-me a clarear a minha mente, mas só consigo pensar no que aconteceu no hospital.
Flashback
Tinha acabado de entrar ao serviço. Peguei nas fichas dos pacientes, para começar as rondas, quando fui interrompida por Angela, a chefe do departamento de enfermagem.
Ela entrou na sala com um olhar severo e a sua expressão carregava uma gravidade incomum.
-Sophia, preciso de falar contigo. Agora!- a sua voz era firme, não deixando qualquer espaço para discussão.
Mesmo não entendendo o que o assunto podia ser, senti no meu peito que algo não estava certo. Assim que me aproximei do seu escritório, senti um arrepio na espinha. Assim que entrei, deparei-me com o Dr. Mark, diretor do hospital, sentado com uma expressão sombria. Na sua frente, pousado na mesa, estavam algumas caixas. Reconheci-as de imediato, eram comprimidos do armazém do hospital, só não compreendia porque estariam ali.
Percebi que Angela entrou na sala, e fechou a porta atrás de si.
-Sophia, encontramos isto no teu cacifo.- ela foi a primeira a quebrar o silêncio.- Queres tentar explicar porque raio comprimidos do hospital, que estão em falta, acabaram na tua posse?
-Não posso explicar, porque não fui eu que os coloquei lá...- só então entendi o motivo de me terem chamado lá.- Vocês acham que eu... Isso é impossível, eu nunca...- fui interrompida por Mark.
-Eles estavam lá Sophia. Só tu tens acesso ao teu cacifo, e foi o teu código que foi usado para retirar estas caixas. Não há como negar.- a voz do Dr. Mark era calma, mas implacável.- Não podemos tolerar este tipo de comportamento no hospital.- o tempo parecia ter parado naquele momento.
-Não, eu preciso que vocês acreditem em mim! Eu não fiz isso. Eu já mais colocaria o meu emprego em risco!- a minha voz passou de controlada para desesperada. Tentava a todo o custo encontrar algum resquício de compreensão nos olhos do diretor, mas sem sucesso.
-Para de mentir Sophia. As evidências são claras!- todo o meu corpo tremia de raiva. Sempre soube que ela não gostava de mim, para ela, eu ser despedida devia ser a concretização do seu maior sonho.
-Tendo em consideração o teu trabalho, que sempre foi excelente, decidi não apresentar queixa.- por uns segundos, respirei de alívio.- Mas infelizmente não poderei manter-te no hospital. Estás despedida, efetivamente imediatamente.- fiquei sem qualquer reação.
As minhas pernas quase cederam quando me levantei da cadeira e saí do escritório. A minha cabeça estava cheia de perguntas, para as quais eu não tinha respostas. Isto era um completo pesadelo...
Fim do Flashback
Sou chamada de volta à realidade, com o barulho alto de uma buzina.
Respiro fundo, tentando manter a postura e levanto-me, indo em direção ao metro.
Por sorte consegui um lugar, longe de muitas pessoas, onde pude continuar nos meus pensamentos. Quando coloquei as mãos dentro do meu casaco, senti algo. Era um cartão de aniversário, que os meus pacientes tinham feito. Senti os meus olhos a encherem-se de lágrimas. O que mais me custava nisto tudo, foi nem sequer ter a oportunidade de me despedir deles. Dos meus velhinhos.
Depois de sair na minha paragem, observei o longo caminho que ainda teria de percorrer até casa. Se noutros dias aquilo fosse um grande tormento para mim, hoje só desejava que fosse mais longo. Não queria ter de chegar a casa e anunciar à minha família que tinha sido despedida.
A nossa vida não era fácil, nunca foi, mas depois do meu pai falecer, as coisas pioraram.
Sem outro ordenado, o dinheiro começou a ficar escasso, fazendo-nos mudar de casa. E agora, que finalmente as coisas estavam a entrar novamente nos eixos, alguém que tramou.
Chegando em casa, encontro meu irmão, Evan, sentando no sofá, enquanto ajudava a minha mãe mas tarefas de casa. Ele para o que estava a fazer quando percebe a minha presença.
-Soph... O que estás aqui a fazer?- ele verifica o relógio de pulso, que um dia foi do meu pai.- Devias estar no trabalho, o que houve?- ele levanta-se com uma expressão preocupada. O seu olhar passa por todo o meu corpo, à procura de algum ferimento.
-Fui despedida Evan...- a minha voz saiu um pouco mais fraca do que pretendia.- Acusaram-me de roubar medicamentos.
-O que?!- a sua expressão mudou.- Mas isso é um absurdo mana!- ele estava incrédulo.- Tu nunca farias isso... Eu vou lá, vou falar com eles, eles não podem fazer-te isto!- agarrei o seu braço quando ele tentou passar por mim, em direção da porta.
Com todo o burburinho, a minha mãe veio até nós, ver o que estava a acontecer.
-Não vale a pena Evan. Eles disseram que tive sorte de não irem fazer queixa à polícia. Que raio vou fazer agora?- deixei-me cair no sofá, passando as mãos no cabelo. Pude finalmente deixar algumas lágrimas caírem.
-Vamos arranjar uma solução minha querida. Nós sempre arranjamos...- a minha mãe tinha uma expressão de preocupação estampada no rosto, enquanto me observava com a mão no peito.
-Isso mesmo...- o meu irmão sentou-se do meu lado, afagando as minhas costas. Ele nunca foi um homem de muitas palavras, quando o assunto era consolar alguém. E eu agradecia neste momento ter apenas alguém que apenas ficasse do meu lado.
Ajudei Evan e depois a minha mãe, que estava a acabar o jantar.
-Eu vou andando para a cama. Foi um longo dia.- despedi-me dos dois, que estavam no sofá a ver uma novela qualquer e subi até o meu quarto.
A preocupação ainda ocupava a minha mente, que não parou desde que cheguei a casa, na tentativa de arranjar soluções.
Fui tirada dos meus pensamentos quando o meu telefone toca.
-Sophie, como estás?- sorri quando ouvi a voz de Julia. Somos amigas desde crianças e por mais que o tempo passe, a nossa amizade fica cada vez mais forte.- Soube do que aconteceu no hospital...- respiro fundo, na tentativa de que a minha voz saia firme.
-Sim. Ainda não acredito que este pesadelo é real, mas como eles mesmos disseram, tive sorte de não terem apresentado queixa. Ainda posso encontrar outro emprego na minha área. Até lá, não faço ideia do que vou fazer, mas sei que tenho de encontrar algo rapidamente.
-O que eles fizeram foi ridículo!- a sua indignação é perceptível.- Talvez te possa ajudar na caça de um novo emprego. Quando estava a caminho de casa, ouvi algumas pessoas a comentarem sobre a casa do ricalhaço. Aquela perto do lago.- assim que me situei, ela continuou.- Ele está à procura de alguém para cuidar do filho dele. É uma situação delicada amiga, mas acredito que serás a pessoa indicada para isso. Vou passar-te o resto da informação.- nem acreditava que uma nova oportunidade podia estar aqui à porta.
Talvez as pessoas tenham razão quando dizem que quando uma porta se fecha, uma janela se abre. Neste caso, um portão, de uma grande mansão...
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A Proposta
RomanceSophia: Enfermeira dedicada e compassiva, Sophia perdeu tudo após ser injustamente acusada de roubo. Determinada a reconstruir a sua vida, ela aceita um emprego na mansão da família Green. Lá, ela enfrenta a hostilidade de Nicholas, o magnata dono d...
