Sobre a realidade No filme O show de Truman, o personagem principal vive numa cidade cenográfica em que todos à sua volta, exceto ele, estão atuando. Tudo começa a mudar quando Truman desconfia que sua realidade não é tão verdadeira quanto ele imaginava. Tal qual este personagem todos nós acreditamos que a nossa visão de mundo é verdadeira, e que os demais compartilham das mesmas impressões. Porém, esse pensamento só é aceitável para uma criança. A verdade ontológica e a realidade são diferentes em grande medida; não há conciliação, no máximo, o que a pessoa pode fazer é aprender a lidar com o mundo como ele é, e sua ideia particular de como as coisas parecem ser. Platão sugere na sua alegoria da caverna que não devemos acreditar em nossos sentidos, devemos deixar a escuridão, onde não há conhecimento, e sairmos da caverna para o mundo real onde há pleno conhecimento. É verdade que o filósofo acreditava que a realidade está na imaginação; o mundo externo é uma imitação da realidade que está em nossa cabeça. Descartes disse que o pensamento é a prova da existência ao afirmar “penso, logo existo”. Pensar é o que nos faz diferentes dos animais. Ter consciência de quem somos e do mundo à nossa volta é, antes de tudo, o desafio que leva ou não uma vida inteira para se obter algum sucesso. No mundo moderno repleto de informações a um clique, fica mais difícil olhar para dentro de si em busca de tal verdade do ser. Talvez o excesso de informações seja o objetivo para a perda da consciência do que está acontecendo bem diante dos nossos olhos. No filme O mágico de Oz, Dorothy tenta encontrar o tal mágico para que ele possa lhe mandar de volta para casa. Ela quer voltar para o que era sua realidade, o mundo de Oz era somente uma fantasia infantil. A garota se dá conta que além do arco-íris não há mágico capaz de levá-la para casa; há apenas um falsário fazendo-se passar por alguém que não existe de fato. Dura realidade. Só seria possível voltar para o seu mundo real a partir de seus próprios esforços. Cada um está, como Truman, em busca da verdade, do que é real. E semelhante a Truman que vivia numa sociedade teatral, ele também tinha seu papel no show, nós também interpretamos um papel; somos filhos, cônjuges, funcionários, religiosos etc. Truman tem em suas mãos a decisão de sair de um mundo de encenação para realidade concreta, enfrentando as consequências por isso. Dorothy almeja sair da fantástica Oz voltando para sua casa de verdade. Demora para garota descobrir que não há Oz nenhuma, tudo é coisa da sua cabeça. Truman ao sair da cidade cenográfica descobriria que no mundo real as pessoas também estão encarnando um papel o tempo inteiro. Seja num mundo fictício, seja no mundo concreto as máscaras são inevitáveis. O conselho é “conhece-te a ti mesmo” dos gregos há milênios. É o autoconhecimento que poderá nos dá forças para suportar a dura realidade. A realidade muda o tempo todo. Conscientes disso podemos buscar equilíbrio, resignação, esperança para enlouquecer.
Mateus de Jesus
