EU, ELA... E ELE

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''Que minha solidão me sirva de companhia

Que eu tenha a coragem de me enfrentar

Que eu saiba ficar como nada

E mesmo assim me sentir

Como se estivesse plena de tudo.''

- Clarice Lispector



Meu nome é Luna. Eu sei, não parece um bom jeito de começar uma história, mas Deus, se é que Ele existe, não me deu um dom de fato para ser uma boa contadora, mas farei meu melhor. Eu acho.

Eu moro em uma cidade bem pequena e simples, onde é sempre muito quente e ensolarado. As cidades ao redor do país a chamam de "Vale do Arco Íris", e por mais brega que isso pareça, é porque aqui é uma região tão quente que até nos dias de chuva tem sol, consequentemente formando vários arco íris com o passar das estações do ano.

Meus pais me adotaram quando eu era um bebê, minha irmã tinha mais ou menos dois anos de idade e segundo ela e meus pais, ficou muito feliz de ter uma irmã. Engraçado que ninguém nunca me perguntou se eu gostei de ter uma irmã, afinal, faço parte dessa equação, mas vou te dizer: é complicado. Lydia é uma pessoa muito comunicativa. Comunicativa demais. Ela fala tudo o que está pensando, o tempo todo e se você se queixa, bom, aí é problema seu. Ela também adora chamar atenção. Seja entre nossos pais, na escola ou literalmente em qualquer outro âmbito da nossa vida. Uma vez numa aula de teatro, ela foi fazer uma audição vestida de um tecido rosa cheio de lantejoulas e o cabelo coberto de glitter. O único papel disponível era de uma árvore. Mas não me entenda mal, não odeio a minha irmã.

Sei que ela tem um bom coração e admiro a coragem dela, até porque tem que ter coragem para algumas coisas já que aparentemente, noção não estava na receita na hora de fazê-la. Sei que o tom que uso parece inveja, e na maioria das vezes é mesmo. Não me considero uma pessoa tímida, mas talvez introvertida seja a palavra.

Realmente não sinto a necessidade genética e hiperbólica de estar no centro das atenções, aliás, mal sei como estar nele, mas bem, se você é ou já foi adolescente, provavelmente já sentiu ou ao menos ouviu falar daquele sentimento castigante que sai de dentro das suas entranhas. Querendo a todo custo que as pessoas olhem para você. Olhem para você com desejo, com interesse. Mas sinto lhe informar, que se você tem esse sentimento, é aí que prova que você não vai suceder. Pessoas confiantes chamam atenção, mas elas não entram no recinto rezando para que sejam notadas. Elas sabem que serão.

Lydia era assim. Nós íamos para as festas de amigos em comum e ela chegava, com saltos grandes demais, saias curtas demais, maquiagem colorida demais, e a recepção era calorosa tal qual faltava uma salva de palmas. E eu, bom, tinha meus amigos, e estava tão satisfeita com isso que não sei como fomos parar onde paramos.

- Vamos Lu, mais um! - disse Bella, uma garota muito alta, magra, de pele vampiresca e de aparência... interessante, digamos assim. Com bagunçados cachos laranjas presos em um penteado completamente despretensioso, grandes óculos de armação preta e um conjunto de roupas que eu apostava que brilhavam no escuro.

Ela estava animadíssima depois de três shots de tequila e queria que eu a acompanhasse, mas após o primeiro senti uma queimação na garganta tão forte que senti que logo logo meu almoço voltaria com tudo. Destilados de fato não eram o meu forte.

- Você vai matá-la desse jeito. - disse Leo, um garoto de pele negra, com o cabelo parcialmente raspado e um sorriso tão radiante e encantador que toda a vez que ele me provocava de tal maneira, e depois ria de minha reação nervosa, me fazia querer derreter como um sorvete debaixo do sol carioca.

Eu lhe joguei um olhar flamejante e então virei o shot puro, ignorando completamente o pulso de Bella com sal. Ambos arregalaram os olhos e começaram a rir e gritar comigo. De fato estávamos fora de nossos próprios eixos. Eu comecei rindo também, juro. Até que se transformou numa tosse tão ardida que achei que fosse uma espécie de crise de asma.

- Você não tem asma. - me lembrou Bella.

É mesmo. Apenas enfiei a cabeça embaixo da torneira da pia para beber um pouco d'água enquanto eles riam de mim.

- Será que dava pra você ser mais fraca, Luna? - disse Leo com deboche.

Eu o olhei de cima para baixo. Ele era bem mais alto que nós.

- Quer apostar? - eu disse, fugaz.

- O que? Seu fígado? - ele respondeu. Sorrindo, óbvio. Ah, o sorriso.

Bella deu uma gargalhada alta.

- Vou ficar com a cerveja, obrigada. - eu disse por fim. Aquela brincadeira podia continuar, mas eu com certeza iria perder.

Algumas horas se passaram e minha vista estava completamente turva. Os garotos jogavam pôquer e as apostas eram cada vez mais horripilantes. Um dos mauricinhos, garotos ingênuos que moravam na parte mais rica da cidade e que se metiam por nossas bandas de vez em quando, apostou seu carro, e foi nessa hora que eu olhei para Leo e sem uma palavra concordamos que ele estava completamente, totalmente fodido. O que eles tinham de dinheiro, faltava em astúcia. Eu precisava desesperadamente ir ao banheiro, então apenas saí do recinto, dando de cara com Lydia, que parecia mil vezes mais no lugar que eu.

Ela me olhou irritada e disse:

- Consegue formar uma frase pelo menos?

Eu ri.

- Claro que consigo. Estou bêbada, não burra.

- Tem certeza? - ela levantou a sobrancelha.

- Haha. - eu respondi, ironicamente.

- De qualquer jeito, nós precisamos ir embora em menos de uma hora, então se eu tiver que carregar você até em casa, vou te deixar aqui.

- Sim, senhora. - disse eu, fazendo sinal de continência.

Ela apenas revirou os olhos para mim e foi em direção a sala de onde eu tinha saído.

O resto da casa estava vazio. Muitas pessoas tinham ido embora pois a madrugada se atrevia adentro. Meio cambaleando me direcionei para o corredor macabríssimo, onde o banheiro ficava em uma das entradas à direita. Então, sem perceber, de uma das portas restantes saiu esse garoto: alto, pálido, de cabelos castanhos quase loiros e olhos irritantemente azuis. Ele usava uma blusa verde musgo e uma gargantilha de couro, que combinava com alguns braceletes.

Nossos ombros se chocaram com força, pois nenhum dos dois estava de fato prestando atenção em onde estávamos indo ou se tinha outra pessoa no recinto.

E então houve esse momento. Nossos olhos se encontraram e eu senti o olhar dele penetrando minha mente de maneira forte. Forte demais. Não era um sentimento bom de modo algum. Havia magnetismo no ar, como se, apesar de ser um encontro absolutamente irrelevante, ele precisava acontecer por algum motivo. O tempo havia parado completamente, não sei se mencionei. O ar zunia no meu ouvido, em câmera lenta, enquanto a aura dele penetrava na minha, e vice versa. Eu o conhecia.

Menos de meses atrás, quando cheguei em casa numa manhã de domingo, com o presente de aniversário de Lydia: o cd de uma banda chamada Backstreet Boys, que ele amava mas eu não achava que seria grande coisa. Ela de pijama e cara amassada, se sentindo abençoadíssima por ter uma irmã tão legal como eu, colocou no pequeno rádio que ficava ao lado da cama, qual nós economizamos por meses para comprar, o cd, e enquanto tocava a faixa 'We've Got It Goin' On', ela me mostrou umas colagens de revistas que havia feito com fotos do DiCaprio, Brad Pitt e Johnny Depp, e na última folha, havia fotos e mais fotos deste mesmo garoto, Deus sabe-se de onde ela as conseguiu, mas os olhos dela brilhavam daquela maneira patética.

Misterioso e underground, ela o definiu.

- Vou chamar ele pra sair ainda esse ano. - ela disse olhando nos meus olhos, com a maior excitação possível.

Eu apenas concordei. Achava o máximo ela se interessar de fato por algum cara que não fosse querer comer ela para se gabar para os amigos mais tarde.

Mas aquela sensação, naquele momento, me trouxe uma negatividade enorme.

O tempo descongelou. Ele franziu a testa e me disse de modo ríspido:

- Olhe por onde anda da próxima vez.

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