Foi uma longa viagem até chegar finalmente ao seu destino. Ao entrar nos subúrbios da cidade, depois de uma jornada de vários meses, sentiu uma sensação de conquista que conseguia atenuar o cansaço que lhe pesava no corpo. Os pés sentiam cada passo, devido as botas completamente gastas que usava há imenso tempo. As calças de ganga e a camisa tinham vários buracos, marcas deixadas pelos diversos desafios que teve de enfrentar, e estavam visivelmente sujas de poeiras que o vento levantava dia após dia.
Esta cidade era o fim da sua jornada. A Grande Calamidade, como era apelidada por todos, tinha tido início algures naquela cidade e desde então, qualquer sinal de vida tinha desaparecido das ruas da cidade, que em tempos era uma das maiores metrópoles do mundo. Algo terrível aconteceu nesta cidade e ninguém se atreveu a tentar investigar a origem da Grande Calamidade. As poucas pessoas que habitavam por lá e conseguiram fugir, para o conseguir fazer, não tiveram tempo de questionar o que se estava a passar e após os primeiros dias do desastre, se o resto do mundo foi devastado pelos eventos daquele dia, era difícil imaginar qual o estado do local onde tudo tinha começado. Muito se debateu nos primeiros tempos sobre um possível regresso para investigar a cidade, mas nem mesmo grupos organizados e armados se chegaram à frente para o que parecia ser uma missão suicida. A missão acabou por ser abandonada e todos se tentaram focar no que parecia essencial na altura, sobreviver e adaptar-se a uma nova realidade.
Estava agora a caminhar naquela que devia ter sido em tempos uma das zonas mais sossegadas de toda a região. Um bairro cheio de moradias em ruínas, que seriam certamente a casa de algumas das pessoas mais ricas da cidade. Como era de esperar num local abandonado há tanto tempo, a natureza acabou por se apoderar de tudo. As casas eram abraçadas por plantas que subiam até aos telhados e o musgo pintava as paredes e enchia as piscinas dos quintais das casas. Podiam imaginar como seria aquele bairro antes da Grande Calamidade, com aqueles quintais sempre arranjados e gente bem arranjada a passar pelas suas ruas.
Se há alguns anos alguém lhe dissesse que seria a primeira pessoa a regressar aquela cidade e sozinho, carregado com os poucos recursos que a viagem lhe tinha dado, acharia que essa pessoa era louca. Sempre fora uma pessoa corajosa e desenrascada, nunca tinha tido muita dificuldade em se adaptar e conseguir sobreviver a nova realidade do mundo. Mas aceitar aquela que era considerada a missão suicida apenas porque um velho amigo cientista desejava ver resolvido o mistério que causara a Grande Calamidade antes de os seus dias acabarem? Até para ele parecia ousado e algo absurdo.
Percorreu vários bairros da zona residencial durante mais de uma hora. Não tinha encontrado qualquer vestígio do caos ou pânico que tinha desolado aquela cidade. Pensou que provavelmente muitas das pessoas que viviam naquela zona, estariam a trabalhar no centro da cidade quando tudo aconteceu e que as poucas pessoas que estavam nos bairros deviam ter conseguido fugir de forma rápida.
Saiu por fim da zona residencial e o contraste não podia ser maior. O rasto deixado pela aflição e o medo era cada vez maior. Eram vários os carros que se encontravam pelas estradas, grande parte deles ainda com os seus ocupantes no interior, ou com o que tinha restado deles. Quase conseguia imaginar o medo daquelas pessoas que não foram capazes de fugir. Tudo chegou ao fim num instante. Dias antes do desastre, sorriam e viviam o seu dia-a-dia sem pensar no amanhã. Sem ter noção de que seriam as primeiras vítimas da Grande Calamidade.
Era um pedido simples e claro, mas não significava que fosse fácil de realizar. Sair da zona de quarentena onde viveu os últimos trinta anos e viajar milhares de quilómetros até a origem da Grande Calamidade. Ele fez-lhe o pedido como se a sua vida dependesse disso. Sentia que todo o trabalho que realizou só estaria verdadeiramente finalizado quando tivesse a resposta que nunca ninguém conseguira obter. Foi um dos cientistas que, juntamente com outros colegas seus, conseguiu encontrar uma forma de proteger os sobreviventes. Nem pensou duas vezes antes de aceitar, o velho cientista tinha sido muito mais que um cientista para ele. Era jovem quando o mundo mudou de um dia para o outro e o cientista esteve sempre lá como um apoio para a sua família, principalmente depois da morte da sua mãe. Era incapaz de o desapontar. Partiria no dia seguinte.
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A Grande Calamidade
Short StoryTinham passado mais de trinta anos desde que uma catástrofe misteriosa, apelidada de A Grande Calamidade, devastou o mundo por completo. A pedido de um velho amigo cientista, ele saiu da segurança da zona de quarentena, onde viverá desde então, para...
