Falta

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Eu a vi de longe, tinha cabelos castanhos, pele parda, olhos negros, e um semblante cansado, sentada a beira de um precipício em uma madrugada de quinta feira. Olha as estrelas como se sonhasse em se unir a elas.

Ela estava brincando comigo, um leve sopro e sua mera vida humana não seria mais nada se não, minha.

Mas pelo primeira vez em alguns séculos decidi me aproximar, e não entendi ao certo porque, de cada passo em direção aquela frágil humana, tantos que eu já vi em sua mesma situação. Frágeis humanos, que são tão bipolares quanto a natureza, uma hora me desejavam com tanto ardor, e em outra eu não passo de sua maior inimiga.

Quando em fim me sentei ao lado da mulher de quarenta anos, de características simples e fisionomia exausta, ela me encarou nos olhos, não tinha medo, não tinha temor, era apenas ressentimento. Aqueles olhos eu conhecia tão bem quanto a palma de minha mão

- Por algumas vezes eu acho que você nunca está satisfeita. - Ouvi sua voz carregada, cansada, um cadáver que se arrastava pela terra. - Você me tirou meus filhos, três, sabe o que é perder um filho? Imagine três, três crianças que você carregou, criou, ensinou.

Não digo nada, um de seus filhos o caçula foi o primeiro que levei, quando tinha dez anos estava em estado terminal de câncer, o levei sem mais dor. O mais velho foi logo em seguida, esse morreu as 18 anos vítima de suas proprias drogas, o do meio foi o que mais viveu alcançou a incrível marca dos 23 e morreu no meio das ferragens do carro.

- Você também tentou me levar - ela ri amarga. - Primeiro foi o câncer, eu venci, depois as drogas, eu me recuperei. Depois o acidente, e depois a tentativa de suicídio. Você tentou e nunca conseguiu.

A encarei, enquanto ela me não tirava os olhos de mim.

- Por isso agora brinca comigo deste modo? - Aponto pro fim do abismo, que se dava a rochedos.

- Você deveria ter me levado. Deixado meus bebês. Eles mereciam essa vida. Não eu.

- E mesmo assim lutou por ela quatro vezes, de formas que a faz desconfiar dos meus poderes.

Ela acha uma pedra e a joga para baixo, onde segundos depois ouço o barulho dela se espatifando.

- Queria ter a oportunidade de te chamar de maldita, egoísta. Quer tudo pra si, todos os bens mais preciosos. Você tirou a minha alma, morte, tirou minhas três vidas de mim, e quer enterrar meu corpo? Não vai sua desgraçada. Toda vez que eu ver você em algum lugar em que eu estiver preste a sucumbir a escuridão. Eu vou voltar.

- Não sou sua inimiga. - digo simplista

Essa é verdade, não sou a maior inimiga da humanidade, como cada um dos seres vivos tentam me pintar, "a morte é má, ela leva tudo"

A mulher me olha com escárnio enquanto uma risada resignada é solta

- Você me tirou tudo, e acha que não é minha inimiga ?

Encaro o precipício.

- Esse era o destino deles. Acha que como acontece ? Olho aleatoriamente pessoas na rua e as levo comigo?

- Claro, destino, história, seja lá o que os crentes dizem pra justificar a morte. - eu vejo a dor imprimida em cada órgão daquele corpo humano

- Você passou pela dor de cada um de seus filhos antes de serem levados por mim. - me levanto enquanto falo. - O câncer, as drogas e o acidente. Cada dor, você passou e passou pelos seus próprios problemas. Abriu uma ONG e ajuda centenas de milhares de pessoas, por que você é rica. Eu livrei seu filho mais novo da dor pois ele implorava por mim, e você era egoísta pedindo pra que ele ficasse.

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⏰ Last updated: Jun 27 ⏰

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