Capítulo 1 - O Agora

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Dizem que a vida é feita de escolhas, mas ninguém avisa que elas vêm acompanhadas de um medo sufocante.

A tela do meu computador ainda estava aberta na vaga que eu sonhei desde que entrei na faculdade: "Gerente de Projetos – Inscrições até hoje, 23h59". Bastava clicar em "candidatar-se" e anexar meu currículo. Simples, certo? Mas o meu velho inimigo estava aqui outra vez, sussurrando no fundo da minha mente: e se?

E se eu não for boa o suficiente?
E se rirem da minha cara na entrevista?
E se eu conseguir... e estragar tudo depois?

Suspirei, afastando o laptop e deixando-me afundar na cadeira. Engraçado como tudo sempre volta para o mesmo lugar. Desde criança eu convivo com essa sensação sufocante de que o menor erro pode acabar comigo. Lembro perfeitamente de quando tinha oito anos: eu estava num kart, no estacionamento do shopping, dando voltas pela pista com meu irmão. Eu já tinha passado por ali duas vezes sem problemas, sabia que era fácil... mas, do nada, o "e se?" apareceu. E em questão de segundos, bati na parede de pneus. Até hoje consigo sentir o impacto seco e a mistura de borracha queimada e vergonha.

Meu celular vibrou na mesa, me arrancando do transe. Uma mensagem da Júlia:
Vai se inscrever ou vai deixar essa passar também, Liz?

Sorri de canto. Júlia me conhecia bem demais. Desde que nos conhecemos, ainda no ministério infantil da igreja, ela sempre foi a destemida da dupla. Onde eu via risco, ela via oportunidade. Onde eu hesitava, ela já tinha pulado de cabeça.

Ainda tô pensando... — digitei.

A resposta veio em segundos:
Não pensa. Só vai.

A ironia é que não era só a vida profissional que me travava. No grupo de louvor da igreja, onde eu canto desde os 14 anos, o "e se?" também me acompanha. E se minha voz falhar? E se eu cantar errado e todo mundo perceber? Já perdi a conta de quantas vezes fiquei em segundo plano, cantando baixinho, quando podia muito bem estar liderando a adoração. Mas a vergonha sempre fala mais alto.

Olhei para o relógio do notebook: 23h41. Tempo acabando.

Levantei-me, caminhando pelo quarto como se o movimento fosse afastar os pensamentos. Encostei na janela e vi o reflexo da rua vazia. Em algum lugar, pessoas estavam fazendo escolhas sem deixar que o medo as paralisasse. Por que eu não conseguia?

Peguei o celular e enviei outra mensagem para Júlia:
Acho que vou desistir... não sei se tô pronta pra isso.

Ela demorou alguns segundos para responder desta vez:
Liza, você nunca vai se sentir pronta. Mas e se dessa vez der certo?

Sorri sem querer. O "e se?" dela era o oposto do meu.

Voltei ao computador. Eram 23h53. Minhas mãos tremiam quando cliquei no botão "candidatar-se". Preenchi o formulário, anexei meu currículo, revisei tudo. Faltando dois minutos, apertei "enviar".

Um aviso apareceu na tela: "Candidatura enviada com sucesso."

Esperei o mundo desabar. Nada aconteceu.

Apenas silêncio... e uma estranha sensação de alívio. Talvez a pista ainda fosse a mesma, mas eu não era mais a criança que parou no meio do caminho.
Dessa vez, cruzei a linha de chegada.

Num Piscar De OlhosWhere stories live. Discover now