Capítulo Único

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Rufem

Sibilem

A Serpente está aqui

Com os três versos o arauto anunciou a chegada do ser abissal. Entre os juízes da cidade, a ideia de convocar a criatura para um inquérito havia ganhado força quase um ano sem um grandioso julgamento. Tudo retornaria, desde os depoimentos fantásticos até longas respostas do réu. Quase pessoa alguma na cidade se colocou contra. Se alguém o fazia, logo recebia a etiqueta na roupa que taxava LOUCO. Os comuns se reuniram com direitos para decidir quem seriam as testemunhas, os opinadores e os juízes juramentados da vez. Como a cultura de julgamento brilhou como levemente ameaçada no último ano, os antigos participantes iniciaram uma competição que ocorria nas mesas de banquete, entre os quartos e escritórios e nas bocas dos alcoviteiros. Nada escapara à disputa, tudo era campo de batalha. Os vencedores se celebraram em renovados banquetes, ao passo em que alguns perdedores ainda se reconsolavam em casa, pela família que plantava esperanças, ainda que internamente falsa a cada indivíduo doador. O tempo correra para logo desembocar no primeiro dia de julgamento. De arauto contratado, por fim a gama de assinaturas estava completa. O julgamento da serpente se organizava em dimensões físicas, em púlpito e cadeiras. Da ordem de um martelo, o juiz se espreguiçava antes da chegada da ré.

Serpenteando, uma serpente tomou lugar dentre os presentes. Se antes o silêncio se espalhava fingido, entre burburinhos que tentavam manter o respeito pelo magistério, após a presença réptil, o termo sem palavras de fato dominou os lábios daqueles que esperavam entre a turba julgadora. Ninguém ousou dizer das verdades face às presas envenenadas. Temerosos quanto ao possível bote, também guardavam pouco movimento a si. De olhos para todas as fileiras, a Serpente captou o calor. Recostou-se no púlpito próprio, ao lado do juiz, do defensor e do acusador. A primeira trêmula testemunha surgiu do final de uma das filas que formavam inteiras um hemisfério. O rapazote trajava um casaco azulado, antes de sorrisos mínimos, mas no momento se mostrava mais propenso à vermelhidão das lágrimas. Apertava a borda do oratório com as duas mãos. O silêncio não mais se destina à Serpente, mas a ele.

— Esta serpente... Eu a conheci em um pântano. Caçava com o meu pai e uns outros homens. Chovia muito — pontuou de repente. — A chuva embarrelou o caminho inteiro. Eu não sabia como agir. Estávamos armados com algumas bestas, uns arcos menos complexos também para manuseio dos mais novos, que não queriam mira muito longe, não precisariam também. E depois, esta Serpente, apareceu-me — deu espaço aos murmúrios que morreram ao primeiro chacoalhar do ofídio. A respiração quente despejou um pedaço do medo que o calava. Teve de retornar ao relato que abrangia a presença da Serpente. —Via-a depois de me perder. Sim, porque chovia demais. Eu não era muito experiente em dias de caça. O meu pai não poderia me guardar como um garoto naquele tempo, porque eu não eu era mais um garoto. Sim, eu me perdi como um garoto, alguns podem falar, mas foi o meu único erro. Se outro erro houvesse acontecido, a Serpente já haveria me devorado como fez a tantos outros que passaram pela mesma estrada dela. Eu não sou um homem, um rapaz, que deve julgar a Serpente pelos crimes cometidos, porém ainda era um garoto, em crescimento, a desenvolver minhas habilidades de caça. E a Serpente... Ela está lá, como está para outros garotos perdidos em meio ao pântano.

Um som de passos brotou atrás dele, com algo de metálico, um anúncio de sineta. Chegava o inquiridor e um chapéu de três pontas sobre a cabeça.

— Desculpem o atraso — gritou a todos os presentes e tomou lugar ao lado do juiz, na mesma estrutura montada, na cadeira vaga.

— Continue o relato, meu rapaz — ordenou o juiz após uma breve tosse nervosa.

— Sim. Eu posso continuar agora — moveu os olhos para longe da Serpente. Pensou em olhar para o céu, mas de lá cairia a chuva e revelaria a verdade redentora dos répteis. O julgamento sempre deveria continuar. — A Serpente eu encontrei depois de passar um longo tempo a procurar pelo meu pai e os outros do nosso grupo de caça. Eu tentei chamar, gritar pelos nomes, mas ninguém me respondeu. A única coisa que realmente me respondeu foi o chocalho dela. Sim, sim, senhores. Eu ouvi o chocalho dele sozinho. Eu tremia como um garoto, como algo menor que a Serpente que estava muito próxima de me devorar. Poderia eu fazer coisa muito diferente? Um menino poderia fazer algo muito diferente, senhores? Não.

O rapaz interrompeu o conto em novo movimento da Serpente. Engolia a própria voz.

— Continue — disse o juiz pela ordem ainda igual.

— Sim, sim. Eu tive medo de morrer naquele primeiro momento, pois o chocalho da Serpente se aproximava de mim. Eu tive medo, porque me lembrei de que todos os outros não estavam ali para me responder. Como saberia eu se a Serpente não havia devorado cada uma e agora os digeria em sua imensa barriga? Simplesmente não poderia saber. E eu pensei muito sobre como fazer algo para viver, para sobreviver. Eram piscos tão rápidos de tempo. Como areia caiam da minha mão. Eu tive o temor que os homens encontram perto da morte. E a Serpente era a Morte. A Serpente representava naquele momento a minha morte. Eu temi como um homem prestes a morrer. Os senhores podem compreender este sentimento meu? E ela ainda se aproximava de mim com aquele barulho tirado das piores entranhas dos seres que por estas terras se arrastam. Não posso descrever todo o meu temor, quanto tempo pingava de mim, da Serpente. O tempo não passava. Eu esperava uma morte súbita, de repente. E nada acontecia. Eu tracei mil planos, e nada acontecia. Eu pensei que ela estivesse próxima de desistir de atacar. Estava enganado. O tempo que tive foi a providência dos deuses para a minha vida, para eu continuar vivo. Notei uma espada em meio ao pântano, aos lagos. E com a arma que a água rasa me deu, fincada, eu pude ferir a Serpente com coragem que não sei de onde tirei. Quando a vi reluzente, a Serpente, embora a espada que a derrotou também reluzisse, vi que estava gorda e já alimentada. Talvez sofresse de uma gula desandada. Eu não posso afirmar nada, pois não conheço muito da vida da Serpente, mas tenho tenho certeza de que ela matou muitos outros. Se queria comer até um franzino como eu, com certeza adoraria um outro, maior.

O juiz enfileirou testemunhas de igual feitio. Homens, mulheres, crianças, duendes e até uma pequena serpe, prima daquela serpente gigante surgiram para depor. Entre todos os presentes a sentença estava dada, pois uma sentença deveria ser dada.

— Declaro a Serpente culpada por seus crimes.

A cobra um tanto avantajada mostrou as presas a todos. Flecha ou outra voou, porém não penetraram o interior do animal, na verdade os objetos projetados tiveram as pontas amassadas. A Serpente, um tanto irritada com o tempo que havia passado por ali, decidiu enfim conhecer um pântano. Não havia cela de tamanho suficiente ou pena que abrangesse seu poder. O desejo de justiça e humilhação pública da população local estava em parte saciado. A gula por mais remiria a esperança em um novo julgamento, provavelmente de uma nova serpente que se tornaria a única de sua espécie, a Serpente causadora de todos os devoramentos. Por ora, a população lidava com o conceito de esperar, agora que algo havia sido feito.


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O Julgamento da SerpenteStories to obsess over. Discover now