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Acho que a pior e melhor fase da nossa vida é a adolescência. Bom, não sei. Ainda não cheguei nas outras.

Quando somos crianças pensamos em crescer como algo extremamente bom, mas isso porquê ninguém nos avisa o que nos espera no futuro. Para mim, uma das piores partes da minha adolescência é a ansiedade. Simplesmente não controlo. Vem do nada. Forte, sufocante, agonizante.

Eu nunca peço ajuda durante as crises. Até porque da última vez que eu pedi para a minha antiga melhor amiga, no sétimo ano, ela riu e espalhou para a turma toda. Foi a primeira e última vez que deixei alguém presenciar uma crise de ansiedade minha. Um monte de gente me chamou de bipolar e por um breve momento até considerei que realmente fosse.

Isso. Esse também é um grande problema da adolescência e também do nosso corpo social. As pessoas acreditam muito facilmente nas outras de uma maneira extremamente negativa.

Eu não consigo levar a sério quando recebo um elogio mas sempre acredito fielmente em alguém que me possa vir ofender. Porque é mais fácil acreditar que somos ruins e não bons? Que somos feios e não bonitos? Que somos irritantes ao invés de legais? A resposta é que na maioria das vezes deixamos as pessoas dos comentários negativos nos moldarem e com o tempo, é, realmente, eu sou exatamente como aquela pessoa que nem conheço me disse que sou.

Intimidade. Intimidade é interessante para mim. Muitas pessoas acham que a intimidade tem a ver com sexo, mas para mim vai muito além. Eu tenho uma experiência de intimidade que nunca vou esquecer.

Novamente voltando para o sétimo ano, eu tinha uma colega que estudava comigo desde o quinto ano. Nós nunca fomos próximas e eu julgava muito o seu jeito baseado na maneira como ela se vestia e pelas poucas palavras que trocamos durante esses anos. Então para mim, Luna Moreira era uma pessoa insensível e chata, mas que eu queria me aproximar.

Nunca havia entendido o porquê.

Eu queria conhecer mais ela, queria descobrir tudo ao seu respeito.

Um dia, estávamos nas duas horas livres pois não tínhamos professor de matemática ainda. Normalmente a turma ficava toda junta na sala porque era época do COVID-19, não podíamos sair com tanta frequência de lá.

Mas algumas pessoas saíram e nós saímos. Eu e ela. Quando eu me deitei em seu colo, ela acariciou os meus cabelos e eu não me importei. Eu odeio que mexam no meu cabelo. Eu lembro que quando ela afastou a mão, pedi que ela continuasse e o que veio a seguir me chocou muito. Ela disse: "Você não gosta que mexam no seu cabelo", e aquela afirmação me surpreendeu.

Ok, em algum momento eu poderia ter comentado com alguém ou até mesmo com ela. Mas o que me pegou de surpresa foi o facto de ela ter se lembrado daquilo. Ela sabia um pequeno detalhe sobre mim. Ela fez questão de se interessar, anotar mentalmente e dizer em voz alta para mim naquele dia. Eu lembro de ter respondido com um pequeno sorriso nos lábios que ela não conseguia ver: "Mas, se for você, eu deixo".

Aquele momento foi o mais intimo que já tivera com alguém. Nossas mãos se tocavam e eu conseguia sentir seu cheiro vindo da sua roupa. Meu coração estava batendo tão forte que temia que ela conseguisse ouvir também. E somente ali que descobri que realmente gosto de meninas. Eu estava completamente apaixonada por ela.

A partir daquele dia, fiquei ainda mais fascinada por aquela garota. Eu precisava dela, precisava chamar sua atenção de alguma forma. Certo, eu reconheço que jogar uma bola de vôlei na cara da pessoa que você gosta e partir seus óculos não é a melhor maneira. Não me julguem, eu tinha 12 anos.

Funcionou. Ela me xingou muito, obviamente, mas começamos a conversar todos os dias.

Quando ela saiu do antigo relacionamento dela, eu comemorei pra caralho. Desculpe o palavrão mas é que eu realmente fiquei muito feliz.

Sabe, mesmo namorando com ela (eu tive finalmente coragem de pedir depois de um tempo) eu tinha muitas duvidas sobre quem eu era ou minha orientação sexual.

Para mim foi difícil aceitar o termo bissexual.

Por mais que eu soubesse o meu lugar na comunidade, fazer parte dela era demasiado complicado.

Durante um ano inteiro foi assim. Parecia que tinha algo de errado comigo. Porque as outras pessoas conseguiam dizer em voz alta e sentiam orgulho? Era suposto eu ser assim também. Mas depois de muito tempo eu percebi que a culpa não era minha e que cada um tem seu tempo.

Uns já sabem desde sempre o que são e o que gostam, outros se descobrem na pré-adolescência como eu, outros depois de adultos ou até mesmo na terceira idade.

Não é só se descobrir, o que já é um processo extremamente complexo, mas também é sobre se assumir.

Aqueles olhares como se fosse coisa de outro mundo. Como se fosse errado.

Eu nunca pensei no discurso que faria para os meus pais. Precisava de um? Nunca pensei na reação deles. Seria ela boa ou ruim? Nunca pensei se deveria pedir desculpas. Tinha eu culpa? Sim ou não?

Me descobri em 2019.
Comecei a namorar com ela em 2021.
Me assumi para mim mesma em 2022.
Em 2024, eles ainda não sabem.

Antes me sentia extremamente culpada por esconder deles mas hoje vejo como uma proteção.  Meus pais vivem em uma bolha, aceitar essa realidade "completamente diferente" séria impossível para eles. Já ouvi diversos discursos de ódio vindo deles, pessoas que eu jamais imaginaria falando tamanha blasfémia. Mas eu também não quero decepcionar. Não posso decepcionar.

Acho que de todos os possíveis conflitos na adolescência como ansiedade; comparação; personalidade; aceitação; identidade de gênero; sexualidade; relacionamento; amizade e entre outras questões, para mim sempre foi mais difícil a necessidade de aprovação.

Afinal, eu fui uma criança reprimida. Aceitava tudo sem questionar, obedecia os pais, não tinha opinião própria porquê acreditava que tudo que os meus pais diziam era o certo, gostava de agradar e nunca tirava nota baixa na escola.

Quando comecei a não ser como queriam que eu fosse, a não ser moldada ou manipulada pelas ideologias que eles me passavam, comecei a ser a filha ruim que nunca deu valor a nada. O desgosto.

É muito difícil decepcionar as primeiras pessoas que acreditaram na gente. Mas é mais difícil ainda viver uma verdade que não é a sua.

Isa.

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⏰ Last updated: Mar 05, 2024 ⏰

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