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O Encontro

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Beatriz nunca gostou de cerimônias. Nunca gostou do brilho exagerado das luzes que forçavam os olhos a se acostumarem, dos discursos arrastados que pareciam se repetir infinitamente, nem dos aplausos abafados que ecoavam pelo ginásio lotado. Mas ali estava ela, vestindo a beca azul-marinho da escola, sentindo o tecido quente e pesado contra a pele, como se estivesse sendo sufocada. Que desconforto.

O calor da tarde tornava tudo ainda mais incômodo. Os fios cacheados de seus cabelos, sempre rebeldes, escapavam do prendedor improvisado, roçando sua testa e pescoço. Com um suspiro, ela passou os dedos entre os cachos, tentando afastá-los, mas logo desistiu. Seus olhos azuis vagavam pelo palco montado no centro do ginásio, onde os formandos subiam um a um, como peças de um tabuleiro sendo empurradas para a próxima fase do jogo.

Os professores se alinhavam em um canto, cochichando entre si, enquanto os familiares dos alunos murmuravam e se ajeitavam nas cadeiras desconfortáveis. O teto alto era decorado com faixas azuis e brancas, tremulando levemente sempre que uma brisa entrava pelas portas abertas. Mas não era suficiente. O ar ainda parecia pesado, carregado de expectativas que Beatriz não tinha certeza se conseguiria cumprir.

Ela não conseguia se concentrar.

Os dedos tamborilavam contra as pernas, um ritmo inquieto, descompassado. O coração também parecia ter se desajustado, batendo rápido demais para um momento que deveria ser de comemoração. Mas não era o diploma que a deixava assim. O diploma não significava nada. O que vinha depois, sim. O depois era um enorme espaço em branco que a assustava. Para onde iria? O que faria?

Sem perceber, levantou-se. O vestido leve que usava por baixo da beca roçava em suas pernas enquanto ela se esgueirava pelo corredor lateral, desviando dos olhares curiosos. Precisava sair dali. Precisava respirar.
Foi então que esbarrou em alguém.
A colisão foi súbita, fazendo-a dar um passo para trás. O cheiro amadeirado de um perfume masculino a envolveu por um segundo, antes que ela erguesse os olhos e encarasse a pessoa à sua frente.

E ali estava ele.

Beatriz piscou, o coração disparado, o calor da vergonha subindo pelo rosto antes mesmo que pudesse entender o que havia acabado de acontecer.
Foi quando ergueu os olhos e encontrou um rapaz parado à sua frente.

A primeira coisa que notou foi o terno impecável, um preto elegante que parecia recém-saído de uma vitrine cara. Ou melhor, que tinha sido impecável. Agora, uma mancha alaranjada se espalhava pelo tecido, como uma ferida aberta.

A segunda coisa que notou foram os olhos. Um tom de mel cortante, frio e afiado como uma lâmina.

Os cabelos ruivos, alinhados com perfeição, emolduravam um rosto de traços rígidos, expressão fechada. O maxilar travado, os ombros largos tensos sob o tecido do paletó. Ele parecia deslocado ali. Como alguém que não pertencia àquele ambiente, mas que, de alguma forma, ainda dominava cada centímetro dele.
Beatriz sentiu a garganta secar. Como o deserto.

- Meu Deus, eu sinto muito!
Sua voz saiu um pouco mais aguda do que pretendia, soando infantil demais no meio daquele desastre.

Seus dedos se moveram automaticamente, estendendo a mão como se pudesse consertar tudo com um toque. Mas ele não se mexeu. Nem olhou para sua tentativa desajeitada de ajuda. Seu olhar permaneceu fixo na manga do paletó, onde um pequeno rasgo ameaçava se abrir mais.

- Você arruinou meu terno.

A voz dele saiu firme. Sem pressa. Sem traço algum de humor.

Beatriz engoliu em seco.

- Eu... eu não vi você vindo. Eu estava distraída, desculpe.

Um erro. Ela percebeu no mesmo instante.

Dois estranhos !!Histórias para pegar e não largar. Descubra agora