A guerra havia acabado.
Para todos os outros, aquilo significava liberdade. Significava poder voltar para casa, reconstruir o que havia sido destruído e finalmente começar a viver sem medo de acordar no dia seguinte com a notícia de mais uma morte. Para Harry, no entanto, o fim da guerra não parecia o começo de nada. Parecia apenas o momento em que, finalmente, ele podia parar de fingir que estava bem.
Desde que havia voltado para casa, Harry praticamente não saía do quarto. As cortinas permaneciam fechadas durante a maior parte do dia, impedindo que a luz entrasse, e o silêncio havia se tornado tão constante que até os ruídos da casa pareciam distantes. Ele não sabia exatamente quando havia sido a última vez que tinha tomado banho. Também não lembrava quando havia trocado de roupa. A camiseta que usava já estava amassada, os cabelos estavam completamente desgrenhados e havia uma barba rala começando a aparecer em seu rosto, algo que normalmente jamais permitiria. Sobre a mesa de cabeceira havia um copo de água pela metade e, ao lado dele, um prato que Monstro havia deixado ali horas antes. A comida permanecia intacta.
Harry estava deitado de qualquer jeito sobre a cama, com parte do corpo coberta pelo lençol e os olhos fixos no teto. Não estava dormindo. Também não estava realmente acordado. Apenas existia.
Depois de tudo o que havia acontecido, ele não conseguia encontrar uma razão para fazer qualquer coisa.
Não queria sair da cama.
Não queria conversar.
Não queria comer.
Não queria tomar banho.
Não queria ouvir ninguém dizer que a guerra havia acabado.
Para ele, a guerra continuava em sua cabeça todas as noites.
Às vezes, fechava os olhos e ainda conseguia ouvir gritos. Sentia o cheiro da fumaça. Via rostos que nunca mais voltariam. Pessoas que conhecia. Pessoas que amava. Pessoas que havia tentado salvar e não conseguiu.
Então preferia não fechar os olhos.
Monstro fazia o possível para cuidar dele.
O velho elfo doméstico aparecia várias vezes ao dia, limpando o quarto, trocando as roupas de cama, recolhendo os pratos intocados e deixando novas refeições ao lado da cama. Algumas vezes, ficava parado durante vários minutos observando Harry, como se estivesse tentando descobrir alguma maneira de fazê-lo voltar a ser o mestre que conhecia. Em outras, simplesmente resmungava sozinho enquanto arrumava a casa.
- Mestre Harry precisa comer. Mestre Harry precisa tomar banho. Mestre Harry precisa levantar da cama. Mestre Harry está fazendo Monstro ficar preocupado...
Harry quase nunca respondia.
Naquela manhã, não foi diferente.
Monstro havia acabado de sair do quarto quando ouviu o som característico de uma lareira sendo ativada.
As chamas verdes iluminaram a sala e, poucos segundos depois, Draco Malfoy surgiu através da rede de Flu. Fred veio logo atrás dele, seguido por George e Luna. Os quatro mal tiveram tempo de se ajeitar antes de Monstro aparecer diante deles com uma expressão claramente irritada.
- Monstro não autorizou visitas.
Draco olhou para o elfo.
- Bom dia para você também.
- Mestre Harry não quer visitas.
Luna se aproximou devagar.
- Nós sabemos.
Monstro estreitou os olhos.
- Então por que vieram?
Fred e George trocaram um olhar antes de George responder.
- Porque somos amigos dele.
Monstro continuou encarando os quatro.
- Mestre Harry não come.
A expressão de Draco mudou imediatamente.
- Há quanto tempo?
O elfo apertou os lábios.
- Muito.
- Quanto é muito?
Monstro hesitou.
- Monstro não sabe dizer.
Fred perdeu o sorriso.
George também.
Luna apenas olhou para Draco.
Não era mais uma visita para fazer companhia a Harry.
Eles precisavam cuidar dele.
Draco respirou fundo e olhou para a escada que levava ao andar superior.
- Ele está no quarto?
Monstro assentiu.
- Mestre Harry não sai de lá.
Draco não respondeu. Apenas começou a subir as escadas, com Fred, George e Luna logo atrás.
Quando abriu a porta do quarto, nenhum deles disse nada.
Harry sequer se mexeu.
Estava exatamente como Monstro havia descrito: deitado de qualquer jeito, imóvel, olhando para o teto como se não houvesse absolutamente nada naquele mundo capaz de fazê-lo voltar a prestar atenção.
Draco ficou parado por alguns segundos.
Ele conhecia Harry.
Conhecia o garoto que fazia piadas nos momentos mais inadequados, que brigava quando alguém tentava mandar nele, que se metia em problemas mesmo sabendo perfeitamente que não deveria. Conhecia o Harry que reclamava, ria, implicava, fazia planos e, principalmente, insistia em continuar mesmo quando tudo parecia perdido.
Aquele garoto não estava ali.
- Harry?
Nenhuma resposta.
Fred se aproximou da cama.
- Ei, cabeça de pudim.
Nada.
George tentou:
- Óculos de quatro olhos?
Nada.
Luna sentou-se na beirada da cama.
- Harry.
Dessa vez, os olhos dele se moveram lentamente em direção a ela.
Foi tudo.
Luna não sorriu.
Não tentou animá-lo.
Apenas segurou sua mão.
Draco olhou para os gêmeos e depois para o quarto novamente. Havia muita coisa para fazer. A cama precisava ser trocada, as roupas precisavam ser lavadas, as janelas precisavam ser abertas e Harry precisava comer, tomar banho e, principalmente, perceber que não estava sozinho.
- Certo - Draco murmurou, tirando o casaco. - Então vamos começar.
Harry franziu levemente a testa.
- Começar o quê?
Draco olhou diretamente para ele.
- A cuidar de você.
- Não precisa.
- Eu sei que você acha que não precisa.
Draco deixou o casaco sobre uma cadeira e arregaçou as mangas.
- Mas nós precisamos.
E, pela primeira vez desde o fim da guerra, Harry percebeu que talvez seus amigos não tivessem vindo ali para perguntar se ele estava bem.
Eles já sabiam que não estava.
Tinham vindo para ficar.
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The Truth Beneath the Blood
FanfictionA guerra acabou. Aos vinte anos, Harry Potter finalmente acredita que sua vida pode seguir um caminho normal. Sem batalhas, sem mortes e sem precisar carregar o peso de um mundo que passou anos esperando que ele fosse o herói. Agora, tudo o que Harr...
