Por cinquenta anos, Elyna governou a Corte Noturna em lugar de Rhysand, seu amor e Grão-Senhor, aprisionado pela cruel rainha Amarantha Sob a Montanha. Durante todo esse tempo, ela manteve a Corte unida com mãos firmes, enquanto seu coração sangrava...
Havia crescente angústia dentro do coração de Elyna durante aquela noite, a sensação de que algo estava fora de ordem e que iria irromper a qualquer momento de distração. O aperto em seu peito intensificou ao ver Rhysand pronto para partir, o terno preto abraçando seu corpo, a blusa branca por baixo levemente aberta, revelando seu peitoral marcado por tatuagens antigas. Antes que pudesse se conter, pediu em tom suplicante.
- Não vá. Por favor.
Hesitação percorreu o corpo do Grão Senhor, que se encolheu levemente com o pedido de sua amiga mais antiga. E amante. Não havia dúvidas que confiava sua vida a ela, e certamente confiava em suas emoções, no entanto naquele momento não poderia se dar ao luxo de ficar em casa e fugir de suas obrigações.
- Não se preocupe estrelinha, eu estarei de volta em algumas horas. Eu prometo.
A voz suave encontrou Elyna em seu momento de pânico, Rhys lhe acariciou o rosto com a ponta dos dedos calejados e calorosos, antes de desaparecer em uma mistura de fumaça e escuridão, indo até Sob a Montanha. Apertando as mãos contra o tecido do vestido macio, a fêmea sussurrou para o vazio.
- Estarei esperando por você.
A memória era vívida em suas lembranças, ainda que tivessem se passado cinquenta anos desde sua promessa, Rhysand não retornou. Após a última mensagem que ele enviou em sua mente, informando que tudo não passava de uma armadilha e agora todos estavam presos sob a ira de uma rainha recém coroada, ela fora encarregada de substituí-lo. Comandou Corte Noturna com esplendor, embora seu coração apaixonado implorasse para que ela abandonasse seus amigos, irmãos e até mesmo sua Corte para salvá-lo. Gostaria de ser inconsequente e lutar por ele, mesmo que significasse morrer nas mãos da rainha vadia. No entanto, os riscos eram iminentes. A fêmea sabia o que aconteceria, trairia a confiança depositada nela para proteger a Corte de Rhysand, falharia com seus amigos que contavam com ela todos os dias e talvez acabasse morta. De que forma isso seria benéfico? Apenas entregaria tudo nas mãos de Amarantha.
Porém, naquele momento, seus passos pesados ecoando no piso antigo de madeira, a esperança de que ele estava de volta, e que finalmente poderia abraçá-lo e protegê-lo ardia dentro de si mesma. A medida que se aproximava, a ansiedade se instalava em seu peito, o coração partido que necessitava ser remendado, e apenas um macho poderia fazer isso por ela. Sabia, no entanto, que ele estava quebrado de maneiras inimagináveis, assolado pelo constante sofrimento causado por Amarantha. E que ele, mais que ela, precisava ser cuidado. E estava disposta a isso, pois era o que mais tinha desejado durante todos aqueles anos presa na Corte, sendo obrigada a liderar e ter o peso de milhares de vidas inocentes em seus ombros.
Finalmente, ela o viu. Estava mais pálido, os olhos violetas carregando uma tristeza que a partia por dentro. O cheiro cítrico e familiar que sempre o envolvia agora era carregado de melancolia profunda.
- Rhysand.
Murmurou ela, sua voz falhando. Ele estava dentro dos braços de Morrigan, a fêmea o consolando enquanto lágrimas em estado bruto irrompiam de seus olhos violeta antes tão brilhantes.
Ele ergueu os olhos, encontrando os dela. Por um instante, o tempo pareceu parar. Aquele olhar, que antes a fazia sentir segura e amada, agora estava distante, cheio de uma dor que a consumia.
- Elyna...
Começou ele, a voz rouca, como se estivesse falando através de uma garganta seca.
Elyna se aproximou dele, os passos pesados se arrastando um após o outro no piso de madeira. A medida que se aproximava, desejava cada vez mais o contato entre ambos, queria sentir o calor de seus braços e o amor que emanava dele a cada vez que estavam juntos. A cada passo a dor em seu peito se intensificava. Quando finalmente chegou perto, estendeu os braços, esperando um abraço que a acalmasse. Mas Rhysand permaneceu imóvel, os braços agora caídos ao lado do corpo após se desvencilhar de Mor.
- Estive esperando por você.
Sussurrou ela, a voz embargada pela emoção. Rhysand ergueu os olhos, encontrando os dela. Por um breve momento, um brilho de reconhecimento passou por seus olhos repletos de lágrimas e sofrimento, mas logo se apagou, substituído por uma expressão ao mesmo tempo vazia e chorosa, carregada de tristeza.
- Elyna... - Começou ele, a voz rouca. - Você não sabe o que passei.
As palavras de Rhysand foram como um golpe no estômago de Elyna. Ela sabia que ele havia sofrido, mas não imaginava a extensão de seu sofrimento. A proximidade dele, o cheiro familiar, a lembrança de tudo o que tinham vivido juntos a inundaram de emoções contraditórias. Amor, raiva, tristeza... tudo se misturava em um turbilhão dentro dela.
"Eu sei", respondeu ela, tentando manter a voz firme. "Mas eu estive aqui, esperando por você. Sempre."
Rhysand se aproximou um passo, mas parou antes de tocá-la. Seus olhos varreram o rosto dela, como se estivesse tentando decifrar seus pensamentos. E então seus braços se lançaram sobre ela em um abraço caloroso e necessitado. Ambos caíram em seus joelhos, ainda unidos. O choro cheio de dor era ouvido no corredor, antes que ele lhe confessasse algo.
- Eu... eu tenho uma parceira. - disse ele, a voz baixa e rouca.
As palavras ecoaram na mente de Elyna, como um sino funesto. A dor que já sentia se intensificou, tornando-se insuportável. Ela sentiu o chão se afastando, como se estivesse prestes a desabar.
- Uma parceira? - repetiu ela, a voz falha.
Rhysand assentiu, os olhos cheios de remorso. "Ela me salvou. Ela é a razão pela qual eu estou vivo."
Elyna sentiu uma lágrima rolar pelo seu rosto. A imagem de Rhysand com sua parceira, a felicidade que devia sentir ao tê-la encontrado a dilacerava por dentro. Era como se um pedaço dela estivesse sendo arrancado. Ela sentiu o coração se partir em mil pedaços mais uma vez. Rhysand, o homem que ela amara por tantos anos, tinha uma parceira. Uma imagem vívida surgiu em sua mente: ela e Rhys juntos, construindo um futuro. Agora esse futuro parecia um castelo de areia, desmoronando diante de seus olhos. A dor era física como se uma mão invisível apertasse seu peito.
Talvez notando a crescente dor dentro de sua amiga, Morrigan os interrompeu com voz suave.
- Rhys, Azriel está aqui agora.
Com um último olhar direcionado a ela, o Grão Senhor se ergueu e lhe ofereceu a mão, a qual ela aceitou com um olhar perdido, vazio. Ele se afastou, indo de encontro a seu irmão.
- Você está bem?
Perguntou Mor, sabendo a resposta. A fêmea apenas a encarou com os olhos cheios de lágrimas e se obrigou a estender um sorriso nos lábios secos. Escondendo aquela dor em seu íntimo, como se pudesse fazê-la desaparecer.
- Estou bem.
Mentiu.
Morrigan pôs a mão em seu ombro e sussurrou.
- Sinto muito.
Foi o bastante para que lágrimas caíssem de seus olhos e ela invocasse suas sombras para carregá-la para sua casa, seu quarto, onde poderia chorar e lamentar sem que fosse interrompida. Era o suficiente, ninguém deveria lidar com seus sentimentos a não ser ela própria, muito menos Rhysand que havia retornado ainda mais quebrado do que ela, precisava naquele momento de paz e não problemas a mais.
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