O canto dos grilos pulando na noite se intensifica nos campos rodeando a velha casa da madeira aonde eu vivo desde que nasci. No meu espírito desorientado, suponho que faz pelo menos três horas que a lua está no céu e me dou conta que alguém me chama, ao longe, alguém está soprando meu nome.
- Mel. Mel.
Me contorço ligeiramente, tentando recuperar o sono profundo que está fugindo de mim. Eu não quero me levantar, não agora...
- Melinoé estou te chamando.
Uma voz masculina entra no meu ouvido, o que é suficiente para que eu abra os olhos e levante a cabeça. Não é preciso muito tempo para eu saber a quem pertence essa voz masculina, eu a reconheceria entre mil. Ela é grave, séria, como se toda palavra que é pronunciada fosse uma ordem.
Meu pai me olha enquanto tento lamentavelmente despertar.
- Estou aqui.- Respondo, a voz rouca pelo o sono e me coçando os olhos afim de caça-lo-. Estou aqui.
- Temos uma nova chegada inútil. Você sabe o que tem que fazer.
Ele estava ao lado do meu colchão estufado de palha, a postura direita como um I. Meu pai era sempre assim: ele nunca explicava demais as coisas e quando o trabalho devia ser feito, ele devia ser feito, mesmo se agora é provavelmente duas ou três horas da manhã.
- Eu não gosto disso e você sabe.-O olho, o rosto inchado de sono-.
A decisão dele não parece mudar. Viro a cabeça afim de observa-lo, mas não vejo a sua expressão facial. Realmente está de noite. Uma noite obscura. Os grilos não estão prontos para se calarem.
- Eu sei, mas é o seu trabalho. Se você pensa que você não é obrigada de fazer tudo, você nunca saberá como ser a melhor em qualquer situação. Ainda mais, estarei levantado toda a noite sem dormir, você tem que fazer isso por mim.
-De qualquer forma eu sei que não sou a melhor para as chegadas inúteis.
Me levanto lentamente enquanto meu pai ri baixo em resposta do que eu disse.
- Vamos, irei contigo se você quiser. Hoje estarei acordado toda a noite.
Um sorriso se desenha nos meus lábios, e mesmo se através do escuro eu não o vejo, imagino que ele também está sorrindo.
- Vamos.
Enquanto ele sai de casa, tiro minha camisa de noite desgastada pelo o tempo e me visto, ainda um pouco dormente. Não ponho mais nada que uma camisa à quadrados vermelha e uma calças, pondo em seguida umas botas de couro marrom.
Essa é minha vestimenta todos os dias. Eu sorrio, lembrando que minhas duas irmãs mais velhas também usaram a mesma roupa todos os dias durante anos com a mesma idade que eu. É desse jeito no Distrito 10: não temos nem tempo nem dinheiro de comprar nova roupas, passá-lo aos seus irmãos mais novos é 1 solução que muitas famílias encontram, a minha incluída.
Olho ao meu redor. Em suas camas respectivas, Thanatus et Eyal dormem profundamente. Eu não sinto injustiça do estado deles: daqui três horas eles vão trabalhar tão duro quanto eu, principalmente Thanatus.
Não ter nada a fazer no Distrito 10 é pura mentira, pura imaginação, isso apenas pode acontecer em sonho.
Saio de casa de um passo decidido.
Ao abrir a porta, cheiro o ar fresco da noite de Panem e olho para o céu pintado de estrelas. Confirmo então minha teoria ao olhar a inclinação da lua: realmente é três horas da manhã, hoje irei então começar a trabalhar às três horas da manhã.
Isso acontece às vezes, ainda mais nos dias que tem chegadas inúteis.
- Melinoé !
Eu viro a cabeça no momento que meu pai me chama e o olho ao longe, o capim está engulindo as pernas dele até a meio delas e ele tem uma lâmpada na mão.
YOU ARE READING
Via Crudelis [Português]
RomanceDepois de ser selecionada para representar o distrito 10 na 53º edição dos Jogos Vorazes, Melinoé Calavera se encontra diante de um dilema cruel: conservar sua sensibilidade natural ou chegar considerar os outros tributos como o rebanho que Melinoé...
![Via Crudelis [Português]](https://img.wattpad.com/cover/357560152-64-k340009.jpg)