O Jardim
O jardim aromático que enfeitava a varanda da casa estava realmente bem agitado por causa da primavera. A varanda, no entanto, não compartilhava de mesma euforia. O senhor Whitewood balançava em sua cadeira enquanto observava as borboletas, de maneira errante, sobrevoarem as flores.
A torneira do poço estava aberta, e a água percorria as plantas até a vegetação mais densa, ao canto mais extenso da propriedade — onde também ficavam os cercados e uma pequena lagoa —. O som da pressão da água vazando ecoava junto do canto dos pássaros. Um cata-vento enferrujado grunhia a cada volta, mesmo com a suave brisa.
Uma criança brincava na terra junto as flores e plantas daquele jardim, ao fundo mais escondido. O pequeno Gerel cheirava as flores, e então cortava seus caules, apenas para arranjar seu pequeno jardim particular colorido e perfumado
Lentamente, a porta frontal da varanda se abria, seguida da porta mosquiteiro. O pequeno cãozinho da família Pingu observava de relance e, demonstrando certo incômodo, se afastava para longe. Sons de passos arrastados cruzavam pelo silencioso Tobias Whitewood, que não demonstrava nenhuma reação, senão manter um olhar distante... e vazio.
O garoto era surpreendido pelo seu vira-lata caramelo que se aproximava de língua para fora, provavelmente devido ao calor daquela tarde. Ele colocava as mãos em seu rosto enquanto abria um sorriso de olhos brilhantes e igualmente caramelados.
Um vento mais forte que o normal castigava os arbustos e amontoados de plantas, fazendo-os balançarem por completo. Muitos dente-de-leão soltavam suas sementes, e pétalas sortidas rasgavam a visão. No entanto, o frágil jardim do jovem Gerel, também, acaba por ir ao chão.
— Ah, não! - recolhia as plantas com as mãos, enquanto as ajuntava de volta, desesperado em perdê-las para o vento.
Um som arrastado de terra sutilmente se incorporava. Pingu levantava suas orelhas enquanto olhava ao redor, visivelmente incomodado.
— Agora eu vou ter... – cavava um buraco – que cavar mais fundo que da última vez. Você vai me ajudar? – olhava para o cãozinho.
Pingu se virava e se afastava dali se embrenhando pelas plantas.
— Hm... Acho que não – e voltava a cavar.
O som arrastado parava; e o vento, cessava. Um momentâneo silêncio tomava conta do jardim. Era possível perceber que a torneira havia sido fechada. O cata vento parava de ranger. E a cadeira, de balançar.
Uma brisa silenciosa, e os cabelos da testa balançavam. Tranquilidade. Serenidade.
Ou não?
Lucas parava por um momento para discernir se a torneira realmente estava aberta, imóvel. Mas ele não ouvia nada.
– Essa não!
Uma libélula pousava em seu lírio branco diante de si, tirando sua atenção por um momento. Seus olhos se enchiam de brilho, e naquele momento nada mais importava. Ele entrava em um transe que o levava a outros momentos.
ESTÁS LEYENDO
Riverside
RomanceRiverside conta a história de Lucas Gerel e seu passado traumático que o leva a residir na cidade de mesmo nome. Ao se estabelecer, tenta desvendar e consertar seu passado. No entanto quanto mais ele tenta se curar, mais feridas são abertas. Ele des...
