"[...] no entanto, é impossível se diferenciar daquilo que não conhece." - C. G. Jung.
Ainda não encontrei minhas próprias palavras para o que testemunhei. Sei que os boatos descreveram um tabu abominável mas importa como um homem racional que sempre negou misticismos, importa que eu diga com clareza que o fenômeno merece outros termos. Muito embora meus leitores já tenham conhecimento de que nos artigos anteriores as farsas das pseudociências muito desprezei, consciente estou de que o pânico satânico deste caso trouxe-me em inquérito novos leitores da doxa; para ambos realizo um pedido: peço que fiquem e leiam sem ceticismo ou moralismo, me é dever pessoal falar toda a verdade do caso.
A reputação da minha atividade intelectual é cercada de polêmicas desde o nascimento porque quis toda minha vida o meu pai que eu colaborasse na Demonologia Sexual e é crível que desde adolescência celibatário me tornei. O que aconteceu é que com o tempo, cansado de afastá-la mas não resistindo a curiosidade juvenil, tornei um de seus casos meu objeto da crítica.
Éramos os dois numa manhã de segunda fumando em frente ao laboratório de laringoscopia quando meu pai - já um místico idoso - entendendo que estava prestes a ser refutado pela razão me fez uma proposta garantindo que 11 noites sem dormir baixaria minhas defesas psíquicas e assim iria estar no famoso Bar do Inferno. Ele ainda diria mais porém o interrompi e plácido apontei que a técnica indutiva onde a cobaia sabe estar sendo manipulada não funciona, então fomos avisados de que o relato ou motivo de ali estarmos ficou disponível.
- Oscar filho?
Como demandante do exame, me deram o envelope carta em que o diagnóstico estava assim descrito.
"Clínica [...]
Requerimento de imagiologia
Consta lesão no núcleo ambíguo da via neural da laringe."
- Sendo assim é crível a paralisia da fala...
- Com risco de edema pulmonar.
A possível derrota do meu cientificismo moldou no místico idoso um sorriso nos lábios, encarei meu adversário como plácido enxadrista que ao perder uma peça importante, demonstra mais enfático impassividade no jogo.
- Traga-me o paciente.
Depois de apresentá-lo aparelhagem, retirei da maleta uma pequena lousa branca e um canetão, postulando ao adolescente que escrevesse com calma sobre meus questionamentos.
- Primeiro, escreva seu nome.
"P.H"
- Quantos anos tem?
"Dezesseis"
- Tem histórico familiar da perversão sexual? - senti-me observado pelo velho místico.
"Não"
- Faz parte de alguma religião?
"Cristão"
- Fez uso de alucinógeno?
"Não"
O adolescente demonstrou desregulação respiratória e linhas expressivas de aumento da frequência cardíaca diante do polígrafo.
- Certo. Então é verdade que você testemunhou algo que o fez gritar até perder as cordas vocais ?
"Sim"
- Conte-me como foi.
"Eu... estava com uma mulher e então... eu vi os chifres..."
Voltou-se a um rabiscar frenético na lousa e finalizou mostrando desenho: a silhueta da mulher com chifres e vestido escarlate abraçando suas curvas. Antes de dizer já deduzi a resposta.
