Capítulo 1.

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Austrália - Camberra
2017.

— Senhor, você precisa pagar por isso.

— Como? Por que preciso pagar? — o mais velho perguntou à atendente, que o olhou com mais paciência do que devia.

— Porque o senhor vai comprar, então obrigatoriamente também precisa pagar, certo?

— Errado! Não vou pagar. Veja como está despedaçado por dentro. — falou, mostrando para ela como as bolachas dentro do pacote estavam, de fato, despedaçadas.

— Então, por favor, pegue um em melhores condições e pague pelo produto.

— Essa garota! O que está fazendo, não vai deixar nem passar essa?

— Eu não posso, senhor.

— Você deveria, garota tola. Tome o dinheiro! — gritou jogando o dinheiro na mais nova, que respirou fundo e tentou se controlar enquanto pegava o dinheiro do chão e via o cliente sair da loja.

— Ser legal com os clientes é uma coisa. Agora aturar essas tolices é outra, Sofie.

A garota se virou e viu Benjamin vindo em sua direção.

— Ele é um cliente, se eu tratá-lo mal perco meu emprego. — disse, levando o dinheiro ao caixa e o colocando lá.

— Mesmo assim, do mesmo jeito que você o trata bem, ele deve fazer o mesmo. Se não pode expulsá-lo daqui!

— Eu não posso expulsar ninguém daqui, Ben.

— Claro que pode.

— E perder meu emprego? Não, obrigada.

— E daí se perder? — ele perguntou, automaticamente fazendo a mais nova se virar para ele, arqueando uma sobrancelha.

— E daí que pra você esse emprego é só um passatempo, tem dinheiro de sobra. Mas pra mim não, Ben, eu preciso dele. — falou, virando-se e indo para os fundos da loja.

— Aí, eu tava brincando. — Benjamin gritou, indo atrás da amiga.

— Eu sei que estava, mas sabe que só tenho esse emprego para sobreviver.

— Já falei para aceitar minha oferta.

— Não vou trabalhar para o seu pai.

— E por que não?

— Porque ele me dá calafrios. — tremeu, lembrando-se da sensação que o homem em questão passava.

— Ótimo motivo! Mas pensa que ele ia te pagar muito bem, So.

— Prefiro ficar em um lugar onde pagam mal, mas me sinto confortável.

Um novo cliente fez o soninho da porta tocar.

Um jovem de cabelos pretos e olhos ainda mais escuros. Rosto sério, com roupas pretas, um boné e uma máscara no rosto. Apenas seus olhos eram visíveis.

Do fundo da loja, os dois ouviram a chegada do cliente e Sofie rapidamente saiu para atendê-lo.

— Boa noite, posso ajudá-lo? — a mesma sorriu, tentando soar o mais normal possível.

O homem era um tanto suspeito. Misterioso. Estranho.

— Estou procurando uma peça de automóvel. Poderia me ajudar a encontrar? — ele perguntou, olhando atentamente para a garota de cima a baixo.

Enquanto Sofie o ajudava a encontrar a peça que queria, Benjamin saiu dos fundos da loja e caminhou em direção a eles.

— O que ele está procurando? — perguntou para a amiga, que se voltou para ele.

— Ele quer uma peça específica de carro, mas acho que não temos.

— Oh, sim, por favor, venha comigo ao balcão, vou ver se temos no depósito. — o cliente acenou com a cabeça e seguiu Benjamin até o balcão.

Sofie, que estava agachada no chão até o momento, levantou-se e foi até uma das prateleiras bagunçadas para começar a arrumá-la.

Estava quase dando seu horário, e não havia deixado nada organizado.

Minutos depois, Benjamin achou a peça de carro que o homem queria, pegou o dinheiro e o viu indo embora.

— O cara parece um serial killer…

Sofie riu, concordando. Quem se vestia daquele jeito com a estação quente que estavam passando?

— So?

Sofie despertou de seus pensamentos.

— O que?

— Eu disse que você já pode ir, deu seu horário.

— Ah, tudo bem. Então, até amanhã. — falou a garota indo até o balcão e pegando sua bolsa, tirando o crachá e colocando lá dentro.

— Até. Se cuida!

Sofie saiu da loja e, só então, percebeu como estava escuro. E talvez não tão quente quanto havia imaginado.

Estava andando até o ponto de ônibus quando, com força bruta, foi puxada para dentro de um beco, pressionada contra a parede e calada por uma mão grande.

Quando abriu os olhos, Sofie reconheceu os dele. Mesmo que ainda estivesse usando uma máscara e estivesse escuro, ainda podia ver seus olhos.

Era impossível não reconhecê-los.

Ele tirou as duas mãos de onde estavam e as colocou em volta do pescoço dela, pressionando-o.

— A-ah.. por favor.

A garota tentou se desvencilhar de seu aperto. Falhou.

— Se ficar quieta vai ser mais rápido.

Como se ela pudesse gritar. Naquele momento, cada palavra que saía de sua boca era arrastada e em um curto sussurro.

— Por favor…

Sofie sentia suas forças indo embora. Suas mãos geladas e formigando, seu rosto quente e, provavelmente, vermelho. Naqueles poucos segundos, todos os momentos de sua vida que lhe custaram anos de saúde mental, voltaram como um raio.

As lágrimas não paravam de cair, e já não tinha mais forças para lutar contra aquilo.

Era seu fim.

Estava quase sem consciência quando um som fez com que o homem parasse.

Um toque.

Uma ligação.

Sofie foi solta tão rapidamente, que caiu no chão, sem forças para se erguer. Como se nada mais importasse, o homem a deixou ali, jogada.

Sem explicações ou conversas.

Sem morte.

Sofie estava viva, e nunca se sentiu tão grata por isso.

Quando conseguiu parar de tossir e olhar para cima, ele já não estava mais lá.

E por mais estranho que parecesse, a única coisa que Sofie viu a sua frente, jogada no chão, foi uma borboleta azul.

Morta.

Aquilo sim, fez com que ela preferisse ter morrido.

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⏰ Last updated: Aug 15, 2023 ⏰

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