Ka’iulani odiava a nova cidade. Nasceu e cresceu em Honolulu, capital do Havaí, então se mudar para Hāna, uma pequena cidade na ilha de Maui, foi um choque imenso pra garota de cidade grande. "Bem-vindo ao coração do velho Havaí", dizia a placa na entrada da cidadela. "E como!", pensou Ka’iulani. Não havia nenhuma vida noturna, nada de shoppings e a população local não se comunicava em inglês. Esse último fato foi o que mais incomodou Ka’iulani, já que ela havia crescido em Honolulu sem precisar aprender havaiano. Todo o conhecimento que ela tinha do idioma era algumas frases simples que ela lembrava das aulas na escola. Olhando o mar pela janela de seu novo quarto, na sua nova casa enquanto a brisa suave entrava, Ka’iulani imaginava como seria essa nova aventura. Foi quando uma voz familiar ecoou pelas suas costas.
— Você tá querendo se atrasar, só pode. Você nem tomou banho ainda!
Ka’iulani virou a cabeça e viu sua mãe parada na entrada do cômodo.
— Eu realmente tenho que ir pra escola hoje? O primeiro dia de aula nem tem nada importante mesmo.
— Vai ser bom você ir pra escola hoje. Pra já ir se acostumando — ela replicou. — Vai logo tomar banho, Ka.
— Mãe. Deixa eu faltar? — ela insistiu.
Sua mãe a lançou um olhar autoritário.
— A’ole — ela negou, por fim.
Ka estava andando pela Kauki Street até o ponto de ônibus. Ela estava usando uma calça preta, uma camiseta branca básica e, nos pés, um tênis branco. Como terceira peça, ela usava uma camisa xadrez aberta. A roupa de Ka'iulani pouco combinava com a cidade ao seu redor. A rua era acolhedora e simpática. As calçadas tinham faixas de grama e algumas árvores como pinheiros e palmeiras erguiam-se no campo de visão de Ka. Casas de madeira lindamente pintadas estavam posicionadas em gramados e, olhando pra esquerda, Ka conseguia ver no horizonte um mar azul. "Essa cidadezinha é até bonita", pensou.
Hāna era uma cidade pequena. Não chegava a ter dois mil habitantes. Havia apenas uma escola nos limites da cidade, que era, na verdade uma escola regional, que recebia alunos não só de Hāna como também de cidades vizinhas. Essa escola era a Hāna Regional School, que se traduz para "Escola Regional de Hāna". A escola era relativamente perto de onde Ka'iulani morava, mas alguns alunos, de outras cidades, faziam viagens de até uma hora pra chegar lá.
No caminho para o ponto, Ka viu uns turistas tirando foto na rua. Segundos depois, um senhor desconhecido veio em sua direção e a abordou. Ele aparentava ter uns 40 anos e usava uma camisa de botões meio aberta. Ele tinha uma pele escura e cabelos pretos. Ele certamente era um nativo, não um turista.
— Aloha, e kaikamahine — ele disse para Ka.
— Aloha — ela respondeu, sem graça.
Então, o senhor começou a falar algo em havaiano que Ka'iulani não entendeu. Ele talvez estivesse perguntando por direções. Ou por horários de ônibus. Ka só conseguiu identificar algumas palavras soltas como "hele" e "analui". Mas ao todo, não saberia dizer o assunto da conversa.
— E kala mai — ela se desculpou. Depois, perguntou, em inglês, para o senhor: — Você fala inglês?
O homem olhou pra ela com uma expressão de estranhamento e depois saiu sem dizer mais nada. Ka'iulani se perguntou se tinha feito algo de errado.
Ela andou até o ponto de ônibus pensando no ocorrido. Quando ela chegou, viu o ponto cheio de crianças e adolescentes. "Todos indo pra escola", presumiu Ka. Eles pareciam bem enturmados uns com os outros. Em uma cidade tão pequena, era provável que todo mundo ali se conhecesse. Eles riam, brincavam, conversavam... sempre em havaiano. Ka'iulani não interagiu, nem mesmo entendeu totalmente o que eles falavam. Ela, novamente, só identificava algumas palavras soltas. "Kumu", "kāua", "ʻōlelo"...
