Antes mesmo de o mundo conhecer reis e impérios, os deuses moldavam o destino da humanidade. Eram imortais, poderosos e temidos, mas carregavam as mesmas virtudes e os mesmos pecados dos homens.
Atena, a deusa da sabedoria, da estratégia e da razão...
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Era manhã de uma quinta-feira de maio. Eu estava jogada na cama de um hotel qualquer de três estrelas em Munique, na Alemanha. Para ser bem sincera, eu já estava acordada há um tempo, só não tinha coragem de abrir os olhos. Queria prolongar aquela ilusão de segurança por mais alguns segundos.
Até que o silêncio do quarto foi quebrado pelo bip estridente da secretaria eletrônica. Em seguida, aquela voz rouca ecoou, preenchendo cada centímetro do ambiente e congelando o sangue nas minhas veias.
— Bom dia, amor — ele dizia, com sua calma habitual. — Dormiu bem? Fico triste por você ter escolhido um hotel tão simples para descansar... Pedi para que levassem seu café da manhã, com bastante frutas, do jeitinho que você tanto gosta.
Ele falava devagar, saboreando cada palavra, enquanto o meu coração batia tão forte contra o peito que eu tinha certeza de que ele conseguiria ouvir pelo aparelho. Eu continuava estática, sem um pingo de coragem de abrir os olhos, como se isso pudesse me tornar invisível.
— Tome um banho e se arrume, logo passo para te buscar — a voz dele continuou, mansa, implacável. — Espero que tenha se divertido em suas viagens. Não aguento mais de saudades suas, minha deusa.
Não precisei de mais nenhuma fala, nenhum estalo de realidade. O pânico puro me eletrizou e eu levantei em um pulo só.
Foda-se o café da manhã. Foda-se as minhas coisas.
Corri até a janela, escancarei o vidro e pulei sem pensar duas vezes, alcançando os degraus de metal da escada de emergência do hotel. Minhas mãos escorregavam no ferro frio, mas eu não parei. Quando meus pés tocaram o chão do topo do primeiro prédio, comecei a correr por cima do telhado das casas e dos comércios vizinhos.
Na esquina, avistei outra escada de emergência na lateral de uma loja. Desci os degraus o mais rápido que pude até finalmente pisar no nível da rua.
Meus pés descalços queimavam no chão quente. Vez ou outra, eu pisava em pedras pontiagudas que rasgavam a minha pele, mas a dor não significava nada perto do terror que me empurrava para frente. Continuei correndo na maior velocidade que o meu corpo conseguia aguentar. Minha respiração estava totalmente acelerada, o ar vinha rasgando a minha garganta e eu estava absurdamente em pânico, exausta antes mesmo de começar.
Abri caminho entre a multidão de pessoas que caminhava calmamente pelo centro de Munique. Eu empurrava quem estivesse na frente para poder passar mais rápido, sem tempo para um simples "desculpa" ou um olhar de cortesia. Todos me olhavam da maneira mais estranha e chocada possível. E quem poderia culpá-los? Imaginem a cena: uma garota vestindo apenas um pijama desalinhado, descalça, com o cabelo todo desarrumado e um olhar de puro terror, correndo desesperadamente pela cidade.
Alguns minutos que pareceram horas correndo por aquela longa avenida, decidi virar em uma rua residencial qualquer. Não sei por que, naquele segundo de desespero, minha mente estúpida achou que eu conseguiria me esconder dele ali.