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De enlouquecer

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A fila da escola para a merenda estava novamente com fita. Sinceramente, não sei porque eles a colocam se ela dura no máximo dois dias. Depois já a tiram para colocar de novo só uns dois meses depois.
É estranho dizer isso, me sinto bem um colegial mesmo, mas enfim, a garota que eu gosto e ao mesmo tempo minha amiga estava na minha frente.
-- Pelo visto vamos ficar aqui até amanhã esperando a comida - Letícia diz.
-- Sabe, na próxima você poderia não enrolar falando com o professor. Cinquenta minutos com ele já não são suficientes? - rebato.
Ela revira os olhos com um sorriso no rosto.
-- Diz o garoto que demora um século para guardar o material todo santo dia, quando finalmente podemos ir embora. Acho que se fosse por você, poderíamos acampar aqui na fila. Você não parece ter o menor interesse em sair da escola, só em ser o primeiro a pegar um prato de comida.
-- Uma fofa, você. O tempo do intervalo é limitado, e ninguém no mundo realmente gosta de filas.
-- Talvez você esteja certo. - sorri - Ou não - completa piscando.
Meus amigos também estão na fila, mas bem mais para frente. Fiquei esperando a Lê, o que já era tradição no intervalo.
Geralmente, desciamos as escadas conversando. Mas parece que ela sempre tem algo muito importante para falar com os professores, no mínimo umas três vezes na semana. Só não sabia que não poderia cortar a fila com meus amigos.
Diria que eu e a Letícia somos "amigos". Eu gosto dela, e tenho quase certeza de que ela gosta de mim. Infelizmente, nada nunca acontece. Flertamos brincando mais de uma vez, mas nunca passamos disso. E eu sou idiota o suficiente para não conseguir tomar uma iniciativa. Fiquei numa zona confortável de mais com ela, acho que tenho um certo medo de tentar algo e dar errado. E eu gosto de verdade dela, cada vez mais. Ela é perfeita. Incrível, divertida, inteligente, doce, sarcástica, linda e muitas outras coisas.
-- Se perdeu Luan? Dessa vez no mundo da lua ou da maionese? - ela pergunta passando a mão em frente ao meu rosto.
-- Há, há, há. Muito engraçada. Você sabe muito bem que foi no mundo da lua.
Sou recompensado com um sorriso da parte dela. Ela sorri muito, e seu sorriso é irresistível. Ela está linda também, como sempre. Parece que a cada dia ela está ainda mais linda que no outro. Assim fica difícil não ficar toda hora visivelmente derretido por ela. Fico em silêncio olhando para ela pela segunda vez em pouco tempo.
-- Você tá bem? - ela franze a testa - Tá quieto demais para o meu gosto.
-- Você está muito bonita hoje.
A cor se espalha em um instante pelo seu rosto. Corada ela é ainda mais encantadora.
-- Obrigada. -- diz olhando para baixo e deixando o cabelo tampar o rosto.
No mesmo instante a fila anda e ela praticamente corre para frente. Dessa vez, não mais inclinada em minha direção.
É isso o que acontece toda vez que tento dar um passo para sair da Friendzone. Mas, infelizmente, nunca dá certo, e nunca sei o que fazer em seguida. Normalmente finjo que nada aconteceu. Já me perguntei várias vezes se estou viajando (como ela vive dizendo para mim) ao achar que ela gosta de mim. Talvez ela só se afaste para não ter que me rejeitar. Ou não. Talvez eu só seja um bobo apaixonado que não sabe falar direito com a menina que ele gosta e demonstrar seus sentimentos.
-- Chama ela para sair.
Tomo um susto ao ouvir essas palavras sussurradas no pé do meu ouvido. Me viro e encontro o idiota do Vinícius bem atrás de mim.
-- Se assustou foi? - ele diz.
-- Você não estava lá na frente com os outros?
-- Estava sim, mas vi um amigo precisando de ajuda.
-- Sei, e isso não tem nada a ver com hoje ser peixe, né?
-- Talvez tenha um pouco - ele sorri - Entretanto... Estou falando sério, você devia mesmo chamar ela para sair logo.
Olho para a frente em busca da Letícia, para ter certeza que ela não está ouvindo isso, mas a fila já andou faz tempo e nós estamos parados. Ótimo, hoje vou ficar sem comer.
-- Não é tão fácil assim - digo.
-- Vocês já estão nessa a um bom tempo, até para quem está assistindo é cansativo. Toma uma atitude de verdade, garoto.
-- Você viu o que acabou de acontecer - digo me referindo aos últimos instantes com Letícia.
-- Claro, você parece que vai pular em cima dela a qualquer instante. Eu também fugiria se fosse ela.
-- Ela não fugiu.
-- Fugiu sim e você sabe disso. Você não demonstra porcaria nenhuma por um tempão e depois do nada parece que quer ataca-lá. Seus sinais são confusos, criança.
-- Criança? Sério? E também, o que você espera que eu faça? Ela é minha amiga, só isso.
-- E vai continuar assim para sempre se você não for mais... Decisivo.
-- O que isso significa?
-- Bem, você devia ser mais coerente, não precisa agir de uma vez, mas não pode retroceder e perder o ritmo.
-- Do nada virou um especialista?
-- Eu namoro, você não.
Engraçado ele dizer isso, já que ele e a Sophia vivem indo e voltando.
-- Tudo bem, eu vou tentar -digo para acabar com a discussão e ver se ainda tem alguma coisa na cozinha.
-- Eu vou cobrar.
Ignoro Vinícius e pego um prato com as cozinheiras. Ele está menos caprichado, mas tem mais coisa do que eu esperava. Muita gente não gosta de peixe, sorte a minha.
Apesar de não querer admitir, o Vini está certo. E é por isso que vou me sentar ao lado de Letícia, mesmo que quase nunca faço isso. Só fico com ela no intervalo quando todos os meus amigos faltam. O que não é tão frequente assim.
-- Não entendo porque tanta gente não gosta de peixe - digo como saudação, chutando que esse seja o motivo das amigas dela não estarem por perto.
Ela levanta o rosto e sorri para mim.
-- Eu também não, para piorar a Marta só falta vomitar com o cheiro - ela diz se referindo a uma das amigas.
-- Ela e a Ju desceram então?
A escola em que estudamos tem 5 andares. As salas de aula ficam no 3° ao 5°. O refeitório no segundo, que também é o térreo. E o 1° tem uma área livre, as mesas de jogos e a quadra no fundo. Você deve estar pensando, se o segundo é o térreo, o primeiro, na verdade, não deveria ser o sub-sulo? Já pensei nisso, mas essa escola é meio que uma bagunça, então a gente releva.
-- Sim, me abandoram aqui, umas traíras.
-- Isso foi alguma tentativa de piada com peixes? - pergunto levantando uma sombrancelha, confuso.
-- Não sei do que você está falando - ela sorri animada e volta a comer.
-- Sei - rio fraco e acompanho ela e também volto minha atenção a comida.
Tomo coragem para pronunciar as próximas palavras, torcendo para que ela não entenda a onde quero chegar.
-- Você ainda faz todas aquelas aulas extracurriculares?
-- Como assim? - ergue as sombrancelhas.
-- Sabe, aula de inglês, balé, contemporânea e ainda estudava algum instrumento. Qual era ele mesmo?
-- Era o violino. E sim, eu ainda faço parte dessas coisas. Por que?
-- Você sempre fui uma menina muito ocupada. Sempre tinha algo importante para fazer todos os dias. Isso sem contar a igreja, que você era bem ativa.
-- Olha, eu ainda posso dizer que sou ativa, agora ainda faço parte oficial do ministério de dança. - ela sorri - Agora quanto as outras coisas... Eu terminei o curso de inglês, parei o balé e continuei só o contemporâneo e também troquei o violino pelo teclado, depois de ter aprendido a tocar o básico nele.

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