Capitulo único

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O silêncio poderia ser descrito como a falta de som, mas Antony descreveria com uma simples palavra: sua alma.

Seu interior era repleto de amargor por causa de seu passado entristecedor ao lado de uma mãe usuária de drogas e um pai traidor e nojento. Capaz de se aproveitar de alguém inconsciente só pra se satisfazer. As lembranças o faziam sentir nojo de si mesmo por dividir o mesmo sangue do pai.

Quando ainda tinha convivências, ele costumava reclamar de como sua vida era um grande vazio.

No dia 20 de março de 2005, sua mãe morreu ao usar metafetamita. Aquele acontecimento despertou o seu pior lado, o lado que ele tentara esconder e desfarsar por tantos anos. Deixou-se levar pela depressão e a tristeza. Não tinha nem sequer mais uma esperança de sua mãe se curar, não restava mais o que ter fé, não restava mais razões pra fantasiar uma possível melhora.

Aquele seria seu mundo, olhar pro teto até os olhos fecharem e novamente se abrirem, e esse seria o looping.

Aos 25 anos antony viu seu pai ser preso por estupro. sua alma se corroeu de decepção. Semanas depois ele foi avisado que precisaria providenciar um caixão, pois na cadeia haviam tirado a vida de seu pai. Lá os presos não toleram nada que seja tocar em crianças ou em mulheres.

Desolado no meio da velha sala, percebendo que sequer uma lagrima caiu pelo pai. Talvez ele não merecesse.

Aquela casa tinha um cheiro de mofo, misturado com a sensação de vazio. Aquele lugar não era seu lar. Nunca foi.
Vagando pelos corredores do casarão empoeirado pelo abandono, ele vê o grande e velho piano, a única coisa que lhe trazia boas lembranças. Se aproximou daquele velho companheiro de infância, era como ver o passado diante de si.

10 anos de idade

Os pequenos dedos de antony tocavam cada nota do piano com desajeito.
  — calma, não pula, é com esse dedo depois desse. — ensinava sua mãe, quando estava bem. — uau! Parabéns!
  — eu tô conseguindo mais, mamãe! — deu aquela risadinha empolgada de criança.
  — não se destraia! Repete comigo: dó, Re, mi, fá, só, lá, si, dóóó!

Atualmente

Lágrimas desciam sem parar pelo seu rosto, seu coração estava batendo acelerado. Como queria que sua vida tivesse sido perfeita como aquele momento. Raro momento.

Ousou tocar depois de anos aquelas notas, e quando escutou o som atravessar as paredes delicadamente, sentou-se na cadeira suja, e se deixou levar pela liberdade da melodia.
A primeira Música que aprendeu a tocar.

Sua pele se enchia de arrepios, o calafrio das lembranças, da vontade de chorar, do grito que guardou esses anos todos no peito se esvaindo junto com as notas musicais.

Ali, finalmente se sentiu vivo, entretanto não desejava viver.
Tudo que ainda acreditava, se foi. E nada seria tão vivenciador como a música.

Meses iam se passando e antony ia todo dia na velha casa abandonada do seu passado tocar seu piano. O ciclo se repetia toda vez, porém antony não comia mais direito, não banhava mais. Aquele não era mais um ser vivente, estava apenas sobrevivendo a uma vida que lhes concederam.

Posto os dedos naquela madrugada, no meio da escuridão, os dedos guiados pela alma, e a melodia se espalhando não só pela casa como na alma. Antony agarrado a sua única lembrança sonora. Seus dedos agitados aumentaram a frequência da música, o som não parava, mas em um momento teria de parar. O som se propagou intensamente pelo ar do ambiente.

Os dedos de antony diminuíram a velocidade, até que pararam. E nem a respiração dele se era existente. Seu rosto bateu nas teclas fazendo um som agudo.
E o silêncio predominante preencheu o ar.
Lá estava ele, Antony Lacerda, morto em seu piano. O descanso da vida lhe foi concedido finalmente. O único lamento de sua alma seria nunca mais poder tocar as notas do piano.

O Silêncio De Um Coração Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora