Enquanto olhava para o pôr do sol, ele aproveitava a própria companhia. Seu momento estava prestes a chegar, ele não tinha muito tempo.
— Ah, se eu pudesse voltar ao passado. Eu teria feito algo diferente? Não, não acho que faria isso. Sou quem eu sou. E ninguém pode mudar isso... quem eu fui, hoje eu não sou mais.
Enquanto pensamentos diferentes vinham à mente, alguém senta ao seu lado.
— Como pode ter tanta certeza disso? — Questiona a figura ao lado.
— Quando você aceita as coisas do jeito que são, tudo passa a fazer mais sentido. Você até mesmo passa a sentir que está onde deve estar. Tudo bem chorar abraçado a si mesmo. Não temos controle sobre os acontecimentos, sejam eles bons ou ruins. Quando aceitamos onde estamos, ao invés de simplesmente desejar estar em outro lugar, as coisas podem acabar melhorando.
A mulher em sua companhia olha silenciosamente para a pessoa à sua frente.
— Você não vai dizer nada? — O homem pergunta curioso.
— Nada me vem à mente. A maioria das pessoas passa a vida se queixando das coisas que não dão certo, sendo que elas deveriam ao menos uma vez na vida culpar a si mesmas.
— É importante saber se culpar, digo. Devemos ser capazes de reconhecer nossos erros, certo? Assim podemos saber onde melhorar.
— Você fala bastante para alguém de poucas palavras. — Diz entre risos.
— É curioso. Alguns acabam ficando mais ativos antes do fim... Eu diria que esconder seus sentimentos já não faz mais sentido. Se vamos partir, ao menos devemos partir com dignidade... Talvez devamos pensar de forma mais verdadeira, afinal, é libertador aceitar a morte. Tudo tem seu início, e todo início tem seu fim. A vida é efêmera, ao estarmos mais próximos da morte, temos a capacidade de entender tanto a vida quanto a própria morte. A liberdade é o que acontece quando tiramos nossas máscaras de prisioneiros, e, bem, acho que quando a morte bate em nossas portas, esse pode ser um dos vários momentos para fazer isso.
— De fato, é um pensamento louvável. Ter esperança nem sempre é algo bom. Ela pode muitas vezes acabar por te torturar... — Ela diz em tom pensativo.
— Mudamos conforme crescemos. Em um dia, somos crianças, em outro, adotamos as responsabilidades que não queremos. — Antes que possa continuar, ele sente um leve desconforto.
— Tudo bem? — Pergunta a figura.
Sem poder responder, ele se vê em um baile de máscaras. Ainda está sentado, mas desta vez, observa duas belas figuras esbeltas. Seus passos são sincronizados como uma perfeita sintonia. A sinfonia harmoniosa do piano parece ter sido criada exatamente para aquele momento. Maravilhado com aquela dança, ele nota que as parceiras que antes dançavam agora estão se separando. "Por que?", ele pensa. O que ele não imagina é que uma das figuras está vindo até ele.
— Poderia me considerar esta última dança? — Pergunta com um sorriso amigável.
Tendo entendido do que se trata, ele logo se levanta e estende sua mão.
— Esperei a vida toda! Mas já aviso logo, eu não faço a mínima ideia de como se dança... — Diz em tom brincalhão.
Enquanto caminha ao lado de sua última parceira de dança, ele olha para a bela dama de branco que outrora dançava com a mesma. Ela lança a ele um sorriso gentil junto a um aceno, e ele, por sua vez, corresponde da mesma maneira.
— Apenas tenha certeza de que não irá pisar em meus pés. — Responde a figura que uma vez sentou ao seu lado.
— Não garanto nada...
E então, o piano é tocado. Desta vez, é uma nota familiar, algo que ele conhece e ama. Ah, esse é o momento dele. O momento que ele sempre esperou, ele finalmente está dançando neste baile de máscaras chamado "harmonia". Em meio à dança desajeitada, ele tenta o seu melhor, passos desajeitados aqui e ali, mas foram com essas pernas que ele um dia engatinhou, curioso, não? Agora, essas mesmas pernas estão tentando acompanhar a mulher à sua frente. Ele tenta aproveitar esse momento da melhor forma que pode. Mas infelizmente, tudo tem um fim... ele percebe que o piano fica mais fraco a cada nota, e quando finalmente percebe que não há muitas notas para acabar, ele faz o que sempre quis fazer.
— Posso te dar um abraço? — Pergunta com uma voz fraca.
— Claro! Não são muitos que fazem isso.
Ele a abraça da melhor forma que pode, é o primeiro abraço confortável que já deu. Lágrimas contidas por uma vida inteira começam a jorrar, ele finalmente está chorando.
— Obrigado por tudo...
Então, em meio a um abraço apertado, ele está com o sorriso mais sincero do mundo estampado em seu rosto, a última coisa que ele pode ouvir é o último badalar de seu coração.
YOU ARE READING
Harmonia
Short Story"Se existe apenas uma coisa que você pode fazer, não perca tempo questionando como viver a vida. Em vez disso, concentre-se em aproveitar ao máximo essa oportunidade e seguir em frente com determinação."
