O NASCIMENTO

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A noite em que Medeia nasceu foi a mais escura que o reino já viu.

O céu estava pesado, sem estrelas, como se o próprio mundo guardasse o segredo daquela noite. Nos aposentos da rainha Lira, o ar era denso, carregado de dor e expectativa. Gritos de parteiras ecoavam pelos corredores de pedra do castelo enquanto a rainha lutava para dar à luz.

— Ela não vai aguentar! — uma parteira chorava, segurando a mão de Lira, enquanto gotas de suor e sangue escorriam pelo rosto da soberana.

— Por favor, aguente só mais um pouco — implorava o rei Edric, com os olhos marejados, pela primeira vez vulnerável diante da morte iminente da esposa.

Por fim, com um suspiro que parecia levar consigo a própria luz daquele castelo, Lira morreu, entregando seu último fôlego para o bebê que chorava com força.

O silêncio tomou conta da sala, quebrado apenas pelo choro intenso da menina. Os cabelos negros da criança, ainda molhados, brilhavam como uma noite sem lua, e seus olhos violeta, profundos e incomuns, observavam o mundo com uma intensidade que gelava o sangue.

— Uma bruxa... uma maldição — murmurou a sacerdotisa real, dando um passo atrás, enquanto o medo se espalhava pelos rostos ao redor.

Assim, Medeia foi chamada — em homenagem à deusa da noite e da fúria — e com o peso de um destino que ninguém ousava desejar.

Desde muito pequena, Medeia viveu entre sussurros e olhares desconfiados.

O castelo que deveria ser seu lar parecia uma prisão. As portas eram fechadas para ela, e os poucos momentos de liberdade aconteciam entre torres vazias e jardins esquecidos. O povo a evitava, os servos cochichavam ao vê-la passar.

— É a princesa das trevas — diziam uns.
— Traz má sorte — afirmavam outros.

O rei Edric, pai distante, visitava-a raramente. Quando o fazia, era com um olhar vazio, como se já tivesse desistido da filha que considerava amaldiçoada.

A madrasta, rainha Hera, era ainda pior. Sua beleza gelada escondia uma alma cheia de ambição e veneno. Ela sussurrava mentiras no ouvido do filho Caelum, que cresceu acreditando que Medeia era um obstáculo a ser eliminado.

Medeia descobriu cedo seu poder. Aos sete anos, as flores murchavam ao seu toque. Aos nove, as sombras dançavam ao seu comando. Aos doze, ela já havia aprendido a esconder suas lágrimas para não mostrar fraqueza.

Mas, apesar de tudo, seu coração permanecia inocente.

Faltando uma semana para o ritual que definiria quem assumiria o trono, a atmosfera no castelo tornou-se ainda mais pesada.

Medeia percebeu que estava sendo evitada como nunca antes. As pessoas que antes a olhavam com pena ou desconfiança agora fugiam sem sequer responder ao seu olhar. Ela tentava entender, mas as respostas pareciam se afastar cada vez mais.

Numa manhã fria, sob o pretexto de observar os preparativos para o rito, Medeia foi levada ao pátio do palácio. Esperava encontrar sinais de apoio, talvez uma palavra de seu pai ou irmão.

Ao chegar, viu as portas se fechando atrás dela com um estrondo, e os guardas a cercaram.

Caelum estava ali, com um olhar duro e sem emoção. Ao seu lado, Hera, com aquele sorriso frio que cortava mais fundo que qualquer lâmina.

— Medeia — disse Caelum, a voz sem piedade —, o trono nunca foi seu.

Antes que ela pudesse reagir, os guardas a empurraram ao chão. Ela tentou se proteger, não com agressividade, mas com medo e confusão.

Mesmo assim, manteve a esperança de que aquele momento ruim fosse um erro.

Mas não foi.

No silêncio do cativeiro, com o coração partido e a alma em chamas, Medeia prometeu a si mesma que retornaria.

E que, quando voltasse, nenhum dos traidores escaparia.

E que, quando voltasse, nenhum dos rostos que agora a olhavam com desprezo ousaria levantar os olhos diante dela.

Os anos no cativeiro foram uma mistura de escuridão, silêncio e sobrevivência. Medeia aprendeu a silenciar os gritos, a esconder a dor e a moldar o poder que crescia dentro de si como uma fera adormecida. A cada dia, sua alma era esculpida pela perda, pela rejeição e pela fome — não só de comida, mas de justiça.

Não havia luxo, nem alívio. Apenas correntes frias, sombras e ecos de vozes que a chamavam de monstro. Mas foi nesse mesmo inferno que Medeia se refez. A menina rejeitada pelo reino tornou-se mulher — com olhos mais frios, postura mais firme, e o coração queimando com promessas não ditas.

Na solidão das madrugadas, ela invocava as sombras como velhas companheiras. Lia nas paredes antigas da cela palavras esquecidas, encantamentos em línguas proibidas. Com o tempo, os guardas começaram a evitá-la. Objetos quebravam sozinhos, vozes sussurravam sem corpo, e o medo voltou a cercá-la — mas agora, a seu favor.

Medeia não hesitou. Não perguntou. Apenas aceitou. Deixou para trás as correntes, mas levou consigo a promessa que fizera com o sangue do próprio sofrimento.

O castelo que um dia foi sua prisão agora seria palco da sua ascensão.
Dias depois, ela foi vendida como escrava por apenas cinco marcos — um preço ridículo que deixava claro o quanto aqueles que deveriam amá-la a desprezavam.


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