Sophie

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Ela está de pé no corredor superior, parada no escuro, nua. Sua mão pálida toca a parede gélida procurando arrimo, há muito suas forças a abandonaram, como todos aqueles que eram seus amigos, todos que diziam lhe amar, todos. Sua respiração está lenta, tanto quanto seus passos que vão lamuriosamente até a escada.

O frio espalha uma sensação de lentidão no ar, um gosto seco na boca, um eco tristonho que percorre o escuro. É uma atmosfera azulada que nenhum olho jamais viu, e que apenas uma tez sentiu. Seus pés descalços estão vermelhos, eles descem a escada devagar. A mão da moça desliza sobre o corrimão enregelado.

A sala também está escura e fria, mas é diferente. Na sala há alguma coisa, algo escondido entre os cantos. Um sentimento de medo percorre as veias, deixa o corpo inquieto, uma vontade de correr, de gritar, gritar, GRITAR. Porém, ela só fica ali, parada no pé da escada na sala soturna. Escutando.

É um zumbido, alguma coisa familiar, agoniante, faz a cabeça doer, faz pensar. Mas ela não quer pensar, dói demais. De repente seus pés começam a se mover em direção ao banheiro, percorrendo o chão frio que machuca, fugindo lentamente do escuro, de seja lá o que nele estiver escondido.

A luz fraca do banheiro cria uma penumbra sombria no fim da sala, o frio caminha entre os azulejos esbranquiçados, a pele treme, o zumbido vocifera. Seus olhos ardem diante da luz, então se fecham; suas mãos abrem a torneira da banheira, a água fria cai silenciosamente.

Alguma coisa se aproxima.

Quando a moça entra na banheira seu corpo inteiro se contorce devagar, ele quer sair, mas não é autorizado. Suas mãos seguram a borda da banheira enquanto deita-se em tal véu trepidante. Um sentimento azul penetra em seu peito, o zumbido grita, e ela chora. Suas lágrimas escorrem até a água gélida, seu corpo afunda na água numa calma medonha. Há algo ali. O frio penetra em seus pulmões, preenche cada camada de seu corpo, arranca seus sentimentos, suas lembranças, resta somente a dor, somente o zumbido.

E então seu último sussurro:

— Catherine. 

EffaçantWhere stories live. Discover now