Guilherme colocava Bruno com carinho no berço, aconchegando-o em dois cobertores com estampas de animais. Após ajeitar a cabeça do pequeno no travesseiro, curvou-se e deu um beijo na testa do bebê. Pelo menos era assim que ele se lembrava dos pais que colocavam os filhos para dormir nos filmes.
Guilherme nunca teve experiência em cuidar de crianças, além das poucas vezes que teve que lidar com os berros e gritos dos filhos das visitas que vinham à casa de sua mãe quando era adolescente. Ele se lembra de ir para o quarto e trancar bem a porta, para não ser incomodado enquanto jogava videogame. Ficava extremamente irritado quando sua mãe pedia para ele cuidar de alguma criança que ela decidiu tomar conta, enquanto ela ia cuidar de algum afazer doméstico.
Olhar o bebê ali no berço trazia uma espécie de conforto para Guilherme. Seja lá quem decidiu como seria a aparência de um bebê, acertou em cheio. Uma vez que você se apega, é difícil não querer sempre mantê-los por perto. Mas Guilherme precisava olhar com atenção o restante da casa e garantir que estivessem seguros.Ele desceu até o andar de baixo e começou a vasculhar os cômodos. Além de visitar as salas, Guilherme também buscava algo que pudesse ser útil durante a estadia e quando decidissem partir. Mas não encontrou nada que parecesse ser útil além de velharias.Era uma casa bem velha, dava para ver fortes marcas de infiltração em alguns cômodos, os móveis estavam surrados pelo tempo, pareciam feitos por volta dos anos 80, quando móveis ainda eram criados para durar.
Quando Guilherme finalmente chegou à cozinha, deu uma bufada de frustração ao olhar a pia. Viu saindo dela um líquido preto, o mesmo que agora cobria as casas da cidade, com exceção daquela que estava, de alguma forma, resistindo à invasão do líquido. Mesmo sendo apenas na pia, só de ver aquele líquido espesso e grudento era suficiente para deixá-lo perturbado.Deu mais uma bufada e ignorou, virou-se e começou a vasculhar os armários. Se na casa havia um berço, havia a possibilidade de encontrar comida para bebês e em bom estado, graças ao milagre da casa estar limpa do lodo. Não precisou buscar muito para encontrar o que precisava, e não só isso, ele também encontrou algumas latas de feijoada, o que fez abrir um belo sorriso.Se apressou e foi logo tentar encontrar um abridor de lata, parecia estar com sorte. Assim que abriu a primeira gaveta do guarda-louças, encontrou um abridor. Sem hesitar, pegou a ferramenta e abriu com pressa a lata. Pegou uma panela e foi até o fogão, com esperanças de que conseguiria ligá-lo. Mas sua sorte havia terminado, ele tentou ligar, mas nada aconteceu.Foi até uma gaveta e pegou uma colher, nem passou pela sua cabeça tentar lavá-la, apenas limpou com um lenço que carregava no bolso e começou a degustar aquela maravilhosa feijoada, que mesmo fria, era melhor do que passar mais uma noite com fome. Comeu direto da panela que tinha despejado, nem se preocupou com pratos. Após a deliciosa refeição, Guilherme sentia o peso dos olhos e um cansaço que começava a dominar seu corpo. Ele foi até um dos quartos e pegou um colchão pequeno de uma das camas que encontrou, posicionando-o ao lado de Bruno. Ele puxou um cobertor de sua mochila, que estava posicionada ao pé do berço, cobriu-se e foi dormir.
Guilherme acordou não muito tempo depois que adormecera, ouvindo alguns barulhos no andar de baixo. Ele tentava identificar a origem enquanto despertava. Após um pouco de esforço, conseguiu se concentrar e escutou o som de pancadas, como se alguém estivesse forçando a porta, seguido por algumas vozes distantes e incompreensíveis. Com o surgimento repentino de uma possível ameaça, ele se levantou o mais rápido que pôde, ficando à frente do berço. Precisava pegar Bruno sem que ele acordasse. A última coisa que ele queria agora era que a criança acordasse e começasse a chorar. Ele não sabia se as pessoas que tentavam entrar na casa eram amigáveis, nem mesmo se pensariam duas vezes antes de matá-lo só por ter uma criança nos braços. Ele percebeu sua mão tremendo antes de passar por trás da cabeça do bebê para pegá-lo. Estava com medo e ansioso, temendo pelo pior. Enquanto envolvia o bebê nos braços, pensou por um segundo como morreria nas mãos daqueles homens, mas logo afastou esse pensamento. Olhou em volta, em busca de um lugar para se esconder, mas a única coisa que havia ali era um armário de roupas, que continha apenas gavetas. Talvez desse para esconder o bebê dentro de uma delas, pensou por um momento, mas sem chance de deixar a criança sozinha. Percebeu o quão absurda aquela ideia era. Ouviu um grande estrondo vindo do andar inferior. Haviam conseguido arrombar a porta e entrar na sala. Agora, ouvia as vozes mais claramente. "Vasculhem a casa! Se virem qualquer coisa se mexendo, atirem!" Guilherme congelou, sentindo um frio na espinha percorrer seu corpo. Ele entrou em desespero. Agora tinha certeza de que além de não serem boas pessoas, estavam armados. Suas chances contra armas eram nulas. Ele estava em choque, o medo tomou conta de seu corpo. Ele não conseguia mexer um músculo sequer, preso pelo desespero.
Sentiu algo se mexer em seus braços, por um momento esqueceu que carregava um bebê neles. Isso foi suficiente para trazê-lo de volta. Ele precisava se esconder, urgentemente. Percorreu em sua mente os quartos que havia visitado mais cedo, lembrando dos móveis que havia em cada um. Lembrou que no quarto ao lado havia um guarda-roupa grande o suficiente para entrar dentro, deveria servir, tinha que servir. Caminhava em direção ao quarto cautelosamente, o medo o revisitava a cada passo. Não acreditava em Deus, mas a ideia de pedir ajuda a alguma divindade não parecia loucura naquele momento. Ao passar pelo corredor, torcia para que nenhuma figura apontasse na escada. Por sorte, ele conseguiu passar e chegar ao guarda-roupa. Abriu o mínimo possível, apenas o necessário para passar com a criança. Cada centímetro movendo a porta poderia gerar um rangido. Entrou no guarda-roupa e fechou a porta. Guilherme ouviu os passos de alguém subindo as escadas e, depois, se aproximando lentamente do guarda-roupa. O silêncio no ambiente era tanto que ele conseguia ouvir a respiração do homem, que estava de pé em frente à porta do móvel. A incerteza do que o homem faria a seguir trazia um mal-estar a Guilherme. Parecia que as paredes do guarda-roupa começaram a espremê-lo ali dentro e o ar foi roubado de seus pulmões. Sentiu sua respiração aumentar e tampou a boca para evitar que o homem o escutasse. Ali dentro, Guilherme não era nada. Sentia-se como uma presa e seu filhote. Ambos sabiam que não podiam fazer nada além de torcer para que o predador fosse embora e os deixasse em paz. Ele não podia contar com a empatia do homem, isso não existia mais neste mundo, um mundo consumido por lodo e sangue. Guilherme viu quatro dedos passarem pela porta. Desta vez, ela rangiu enquanto abria lentamente. Seu coração apertou, o ar que segurava quase escapou por entre os dedos. Antes que a porta abrisse o suficiente para o homem encontrá-los ali dentro, a luz do quarto se acendeu e a mão rapidamente soltou a porta. Antes do evento, a luz voltar era um ótimo sinal. Indicava que a companhia elétrica havia restabelecido a energia. Porém, não existem mais companhias elétricas e muitos dos fios romperam. A hidrelétrica estava coberta por lodo. A luz ter acendido é um mau presságio do que vai acontecer em seguida. A luz não permanece acesa por mais de três segundos. Então, ela começa a piscar. É possível ouvir o som de estática e o curto das lâmpadas ligando e desligando, em uma sequência digna de filmes de terror. Os homens no andar de baixo gritam: "Fiquem atentos, não baixem a guarda." Uma última piscada é dada antes de todas as lâmpadas estourarem. A escuridão novamente toma conta, e um rugido alto e macabro pode ser escutado. Guilherme sabe o que está acontecendo, ele já presenciou isso antes. Ele lentamente coloca a mão nos ouvidos de Bruno, tomando cuidado para não o acordar. Gritos começam a ser escutados do andar de baixo, seguidos de tiros, um coral de dor e desespero, sons altos de corpos sendo jogados, carne sendo rasgada, lamentos e orações a Deus por misericórdia. Tudo dura pouco mais de trinta segundos, e então o silêncio volta a tomar seu lugar na escuridão.
BẠN ĐANG ĐỌC
Composto - Lodo e Sangue
Khoa học viễn tưởngEm um mundo pós-apocalíptico devastado pelo caos, Guilherme encontra-se responsável por proteger e cuidar de Bruno, um bebê inocente, em meio a um cenário sombrio e desolado. A sociedade que um dia existiu foi engolida por uma mistura macabra de lod...
