Conto - Lembranças

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Questionando sobre a vida enquanto caminho rumo ao trabalho, paro para fitar um antigo prédio abandonado. Um dia tal local havia sido morada de dezenas de pessoas, porém nenhuma sabia do ser mais hediondo que a cidade iria conhecer. Ele também residia ali. Hoje? Já não sei mais onde está. Provavelmente aterrorizando outra cidade pequena.

Besteira. – Comento baixinho. Não sei por que ficar lembrando uma tragédia dessas essas horas da manhã. – Mas é mais forte...

As lembranças desagradáveis são as que mais persistem em nossas mentes. São como colas, melequentas e duradouras. Acredito que o pior das lembranças desagradáveis é que também podem ser prazerosas. Sim. Eu sei. É estranho dizer que podem ser prazerosas. Mas, pense comigo: o drama não seria tão apreciado se fosse só felicidade e amor. Com a raiva e a tristeza deve-se tomar muito cuidado para não viciar. São drogas mentais.

Resolvo ir até o prédio sem pensar no atraso e possível advertência que me traria finalmente a justa causa. Percorria por minha pele a vontade de encostar-se àquelas paredes e sentir os tijolos chorando todo o sangue derramado capaz de saciar minha droga mental que tanto anseio tão cedo.

Cada passo é pesado e calculado. Há pouca luz entrando pelas janelas, é tão escuro e abafado. Não hesito de subir a escada até o primeiro andar, segundo, terceiro e já um pouco ofegante e dando tropeções chego ao quarto.

O quarto andar. Minha boca abre de fascinação ao lembrar-me do jogo de luz colorido piscando sem parar, das bexigas brancas penduradas, das crianças correndo de um lado para o outro com suas brincadeiras enquanto os adultos investem nas bebidas. Todos se divertindo tanto. Consigo ver todos, preciso até desviar de alguns. O lugar não é mais abandonado. Agora eu estou aqui e enquanto estiver todos também estarão.

– Isabel! Quanto tempo! – Corro para abraçá-la sorridente, mas seu corpo dissolve-se no ar.

Talvez eu precise ficar quieta e deixá-los divertindo-se. Como é bom revê-los. Danço um pouco procurando não tocar em ninguém, porém conversando e contando piadas dos velhos tempos. Já cansada, encontro um canto com uma almofada rasgada e mofada jogada ao chão observando a festa até cair no sono.

TAN TAN TAN – Acordo assustada com barulhos vindos direto ao quarto andar. Quem poderia ser? Acelero para trás de um móvel aos pedaços, no entanto ainda sou capaz de me esconder.

E eis que vejo. A monstruosidade, e com ela todo o local perde a vida novamente. Entenda quando digo que eles não perderam apenas a vida criada por minha fértil fantasia, e sim também a vida de carne e osso quando realmente existiam.

A triste história de ano novo que tornou todos os outros 364 dias de luto em toda uma cidade. Não há como contar a história de uma maneira suave. Ao pensar no que houve meu corpo treme e minhas pernas ficam bambas. O passado se sustenta aqui com concreto.

Famílias e amigos que viviam neste prédio tornaram uma tradição festejar o começo de um novo ano juntos. A ideia era boa e todos os anos saíam histórias engraçadas, mas nunca, nunca uma de tragédia.

As pessoas economizavam dinheiro sem precisar viajar e gastavam uns meros trocados com bebidas e comidas ao tempo que carregavam a ressaca por dias. Econômico e fácil.

O que não sabiam é que aquela festa teria um final diferente. Um final elaborado por um jovem de 23 anos recém-saído da faculdade, filho de um casal adorável de professores.

Aparentemente o rapaz se aprofundou de cabeça durante seus cinco anos de estudos, realizando experimentos dos mais diversos e até ocultos campos por serem um tanto fora do padrão do que cientistas estavam acostumados.

Aquela noite também foi um experimento para ele. Drogou com uma alta dose de calmante a panela de lentilha sabendo que todos comeriam, menos as crianças. Adultos adoravam lentilha como rito de passagem, tradição. Se drogasse outra comida teria problemas, como carne e vegetarianos, no entanto aquela panela trazia significado.

Para as crianças ele elaborou lembrancinhas especiais enroladas em saquinhos coloridos plásticos, por dentro estavam doces. Eram balas azuis e vermelhas redondinhas. Todas comeram também, algumas menos por achar o gosto não tão açucarado quanto desejavam, mas o suficiente para desestabilizar qualquer humaninho não acostumado com alucinógenos.

O resultado foi uma grande quantidade de adultos jogados ao chão, sofás, mesas ou qualquer coisa que pudesse apoiar e cair no mais profundo sono. Para as crianças, o jovem trouxe-as para bem próximo de si e contou uma história de terror notando como o alucinógeno tornava cada personagem e cada ato de ficção como real em suas cabecinhas. As crianças enxergavam, tocavam, sentiam a história.

Infelizmente a calamidade da noite não termina aí. Querendo saber até onde cada criança acreditava na imaginação criada e distorcida pelo doce, foi distribuído facas, canivetes, lâminas, e utensílios pequenos que pudessem machucar. As crianças foram induzidas a acreditar que aqueles deitados não eram seus pais ou parentes, e sim, impostores que haviam sequestrado seus verdadeiros familiares. O monstro tinha toda uma história improvisada que poderia sair de um livro dos irmãos Grimm. Bom, para libertá-los não é segredo o que cada criança precisava fazer.

Suas mãozinhas delicadas empunhavam as armas com uma força inacreditável para pessoinhas daquele tamanho. O sangue jorrava em suas roupas brancas repletas de desenhos de corações, estrelas, unicórnios e carros. Eles não tinham medo de começar e nem continuar, eles não pensavam, eles só agiam. Alguns davam risadas e iam ajudar o coleguinha e mostrar algo legal de dentro do corpo que havia encontrado. Era como uma descoberta. E de repente ficou nítido que a história não era mais algo significativo para prosseguirem, e sim a diversão.

Sentado em uma poltrona verde musgo com sangue escorrendo em sua calça devido ao corpo morto ao lado, ele estava ali observando e achando fascinante. O criador apreciando seu exército trabalhar. Tudo era tão interessante. A força, a vontade, a alegria. Eles estavam contentes fazendo aquilo e ainda pareciam tão simples.

No fim, ele fugiu por anos... até hoje. Saí de meu esconderijo e me dirigi a ele.

– Você... – Estava boquiaberta com sua aparência suja e suas roupas rasgadas.

– Querida irmã! – Correu para me abraçar com um fedor que me causou enjoo. Fiquei de braços parados sem ser capaz de retribuir até que recuei.

– O que faz aqui!? Sabe como é perigoso voltar. – Indaguei.

– Voltei há alguns meses. Estava perdido sem saber o que fazer e senti falta do lugar. Afinal, aqui é nossa casa, certo? – Sua aparência era diferente apenas pela questão de higiene, pois quando lançou seu sorriso que elevava apenas o lado direito de sua boca notei que não havia mudado.

– Se não tivesse matado as pessoas não estaria aqui escondido como um rato. – Não conseguia discernir se ele merecia o bem ou o mal, ele ainda era meu irmão.

– Oras, eu não matei. Vocês mataram.

Cada golpe era liso e leve como enfiar a faca em uma boneca de pano. A cabeça não estava no controle, apenas o instinto e ele fazia ser tão espontâneo que era impossível parar. Todos éramos animais. Todos somos animais.

LembrançasCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang