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Em uma casa à beira da mata fechada, é mais do que comum encontrar seres extraordinários em seu quintal, sobretudo se este for daqueles que passam a maior parte do dia às sombras de árvores frondosas e com capim repleto de fungos. No frio, o farfalhar das folhas soa com maior facilidade, o que atrai a chuva, que, quando se estabelece, sente-se agarrada pelos galhos de pouca seiva e cede todas as suas gotas.  

Era assim o quintal desta casa azul, cujo boato que corria era de que todos os cachorros que nele moravam estavam vendo fantasma, pois diziam que uma gambá caçada por eles naquele Inverno, e que terminara mortinha da silva, estava voltando à noite para assombrar-lhes.

Foi com muito pesar que os cães abandonaram o defunto naquela noite — aliás, segundo eles, a vítima mais parecia ter morrido só com o susto, como fazem os coelhos —, já que, como todos bem sabem, predadores só devoram suas presas quando vivas; além do fato de que pegar um animal já morto é um tanto indecoroso para um cachorro.

​Esta é uma matilha comum, de uma só ninhada: a grande matriarca do clã, feroz e – dizem – um pouco louca, teve seus filhotes com o cônjuge, um cão de personalidade mas que costuma ceder a última palavra aos caprichos da esposa. Os filhotes puxaram a mãe: eram animais de grande porte, de aparência amedrontadora e um tanto lelés-da-cuca.

Juntos, farejavam o quintal de ponta a ponta, o dia inteiro. Quando o dono da casa saía para colocar o lixo na calçada e achava que tinha fechado o portão, só percebia que a cachorrada que descia a rua fazendo algazarra era de seus queridíssimos cachorros porque se deparava com o portão escancarado e um rastro de pegadas que aravam o chão batido.
Destas escapadas, não raramente voltavam com alguma presa na boca — o que era um tremendo orgulho quando acontecia. Pode-ser-ia chamá-los por caçadores ocasionais, mas indolentes nessas poucas ocasiões. Em geral, eram eles vívidos, felizes, unidos, um tanto supersticiosos.

O que não é para menos, diga-se. Quando se está na mata, cercado pelo verde interminável e escuro, o real assustador e o fantasioso misturam-se como tinta de pincel usado turva a água do copo: as tonalidades contorcem-se em limbo, e a linha tênue entre objeto e sua sombra apaga-se.

Ora, em toda boa família há bate-boca diante de algum fato polêmico, como o fantasma deste caso, qual a mãe jura de patas juntas que existe e que a família está sendo assombrada pelo tal espectro de gambá; por outro lado, o pai é um tanto cético e, desde o início, não acreditava de jeito nenhum em assombração, pois tinha fantasmas como crendices -- embora desde que ouvira alguns boatos a respeito da vida pregressa da defunta, encontre-se com uma pulga atrás da orelha (talvez literalmente). Os filhotes, por sua vez, estão mais ou menos em escala entre seus pais: de crentes a um pouco céticos.

Diante de tal variedade de opiniões, foi decidido que o melhor a se fazer é transcrever os relatos e deixar que o leitor desvende este mistério para lá de interessante e intrigante. As entrevistas foram feitas no mesmo dia -- num dia encoberto, onde, de tantas núvens, mal se via estrela no firmamento. Aliás, tudo estava com um aspécto frio: o ar era pesado e, nos cantos do quintal, a grama queimara com a excesso de umidade.  O Inverno estava mais do que estabelecido, e o Sol mal tinha forças para se lançar ao céu.

Primeiro relato
Mãe:

A minha crença nestas coisas não foge ao costume da minha geração. Você deve bem saber, nós, adultos, em nossa saudosa infância, acreditávamos em lobisomens, saci, caipora, fantasmas... 
Lido naturalmente com este tipo de situação, pois não vejo diferença entre encarar uma praga qualquer, como uma crise de patos selvagens que sobrevoavam nosso quintal aos berros, ou uma assombração. Talvez um lobisomem me preocupasse mais, porque alguns se identificam conosco -- nos embruxam até --, mas outros nem tanto: é difícil arriscar e é aconselhável carregar um "patado" de sal grosso para tais encontros. Ademais, com toda certeza um caipora me preocuparia muito mais, porque ele embosca os cães na mata -- o danado fica de tocaia encarapitado na árvore e, súbito, pula do galho e fura nossos olhos... Mas isto não é cá nestes cantos, é mais para longe, em matas mais fechadas.
É mister que o senhor entenda que esta é uma vizinhança muito tranquila. Fora os insetos, como cigarras-rubi, aranhas rosadas, percevejos-fedorentos, taturanas e saúvas-limão, que estão por toda parte do quintal, o máximo de intruso que nos deparamos foi de pequeno a médio porte. Recorrentemente aparecem pequenos roedores por aqui, como ratos selvagens e preás. Os últimos não incomodam tanto – são medrosos –, mas é um tal de cui cui cui cui o tempo todo. Todavia, aparecem durante o dia. À noite, o que nos atazana de fato são os ratos selvagens – são xeretas e atrevidos, os traquinas, e vivem de fazer reinações.
Além do mais, são rápidos como demônios e parecem estar por toda parte, o tempo todo -- só nos atentando ao juízo. Agora mesmo, enquanto relato isto, sinto que algum está nos observando... Ademais, não há horário para estes ratos. A despeito de sua natureza noturna, que os de mais selvageria têm a decência de obedecer, eles estão adaptados às casas dos homens, quais aparecem pela manhã ou à tarde. Fuxiqueiros de jardins, galões de lixo e de nossa ração; bandidinhos que invadem casas pelas frestas de porta e janela e fazem o alvoroço.
Evidentemente, são difíceis de pegar, os ratos, mas mais difícil é fugir da nossa família! Quando nós desconfiamos de que eles estão nas plantas, nos atiramos nelas; quando ouvimos barulho vindo do chão e pensamos em todos aqueles ratos em seus estreitos túneis subterrâneos, instintivamente cavamos buracos por todo o quintal; quando correm pelo muro ou telhado, saltamos para pegá-los; se porventura um afortunado consegue escapar e entra para a casa, nós cravamos as unhas nos rodapés -- até que nosso dono apareça à porta, de ceroulas e deitando os cabelos, e manda-nos dormir...

O misterioso caso da GambáStories to obsess over. Discover now