Quando acordei a noite anterior ainda parecia um borrão. Tinha muitos motivos para estar confusa e eu enumerava cada uma delas na minha cabeça, enquanto jogava o verdadeiro motivo num canto escuro da minha mente.
— Ela ia ser uma ótima noiva — Ouvi a voz da minha mãe vindo da cozinha.
Eu tinha dormido no sofá dela depois que todos os convidados foram embora, dizendo baixinho pro meu pai todo tipo de coisa. Alguns lamentavam o que havia acontecido e outros me chamavam de insensível. Foi no momento em que essas palavras atingiram meus ouvidos que fechei os olhos e me forcei a dormir.
Particularmente, odiava ter de fazer isso. Era algo que meu, agora ex-namorado, tinha que lidar todas as noites que passávamos juntos. Não era do meu feitio deitar na cama e dormir, mas preferia passar horas conversando. Mas, agora me forçar a dormir parecia a saída mais prática.
Meus pais compreenderam isso e me deixaram ali mesmo, sujando o cobertor branco da minha mãe com a maquiagem borrada. Ela não estava borrada por ter chorado, o que combinava com o traço que me foi atribuído de insensível.
— Não vamos julgá-la, querida — A voz de meu pai surgiu, com o tom mais carinhoso que já ouvi sair de sua boca — Casamento não é pra todo mundo.
Com a cabeça latejando, peguei meu celular. Ignorei todas as múltiplas mensagens que pipocaram na tela assim que o desbloqueei. Ignorei todas, sentindo um vazio em uma das conversas. O vazio se estendia para meu peito. Agora eu sentia um buraco nele, onde meu quase noivo devia estar.
Ontem cheguei ao fim do relacionamento que me acompanhou nos últimos anos. Achei que, se ele me conhecesse tão bem, as coisas não aconteceriam do mesmo jeito que aconteceram. Mas, agora eu vejo que nem mesmo eu sabia tudo dele.
Tudo estava na minha cara, porém não consegui ver. Começou com uma mensagem. Meu namorado mora relativamente longe da casa dos meus pais, mas mesmo assim mandou uma mensagem dizendo que iria pegar um trem só para comparecer aos rotineiros jantares mensais em família.
Era uma tradição da minha família e da dele jantarmos juntos. Mas, atualmente, eram raras as vezes que ele conseguia comparecer. Eu não achei estranho sua aparição naquela noite, apesar de ser.
Ele estava estranho quando chegou. Estava um pouco ansioso, o líquido dentro da garrafa sacudia com suas mãos trêmulas. Ele trouxe meu champanhe favorito, Dom Pérignon, que só tomávamos em ocasiões especiais. Também havia um volume estranho no bolso de sua jaqueta. Nem ao menos passou pela minha cabeça que ali tinha uma caixinha com o anel de noivado da minha sogra, o que explicaria o sorriso estranho que ela me deu quando entrou em casa.
Agora, eu conseguia lembrar de ter gostado da sensação desta noite. Todos estavam me tratando diferente, o clima parecia mais leve que nunca. Até mesmo meus sobrinhos, que costumavam sair correndo e quebrando tudo, se sentaram quietinhos para jantar.
Meu namorado se levantou enquanto minha cunhada servia minha sobremesa favorita. Acho que naquele momento ele pensou em fazer o pedido, mas por algum motivo desistiu. Acho que as coisas teriam sido muito mais fáceis se ele tivesse o feito naquele momento. Talvez minha resposta fosse diferente já que o vinho ainda não havia me enchido de coragem e uma estupidez absurda. Então ele soltou poucas palavras, inventadas na hora, para esconder a sua verdadeira intenção.
E então fomos dançar, como sempre fazemos quando jantamos com meus pais: umas quatro ou cinco valsas lentas e então começamos uma nova atividade. Quase nem percebi quando a nossa música começou a tocar e suas mãos voltaram a suar. Apoiei minha cabeça em seu peito e só aí a imagem do volume em seu bolso voltou a minha mente.
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Problemas com champanhe
Short StoryÉ assim que acaba. Um simples jantar familiar, uma garrafa de champanhe.
