*a imagem de capa foi reproduzida a partir do aplicativo de ilustrações dream*
Do alto de um muro corrompido pelas marcas do tempo e da ignorância, um menino observa a cidade abaixo.
Suas pernas balançam para frente e para trás, com um rítmico som de engrenagens enferrujadas - algo cotidiano para alguém com membros mecânicos vivendo numa cidade à beira mar - e, fosse aquele um dia comum, ele poderia ter se irritado com o som que ecoava pobreza e vergonha. Mas não hoje. Hoje, isso lhe passa despercebido, da mesma maneira que as pedrinhas do muro grudando na palma de sua mão lhe passam despercebidas enquanto se inclina para trás.
Ali, tão do alto, o menino consegue ver o Prédio da Oficina, onde pequenos pontinhos vestidos de azul e vermelho costumam vagar em passos calmos, precisos e arrogantes. Agora eles se parecem com manchas enquanto correm de um lado para o outro procurando por algum tipo de salvação que não virá.
Não muito distante ficam os Condos, onde o menino tem certeza que inúmeras famílias acordaram naquela manhã, suas mesas cheias de comida, os corações cheios de amor. Agora não tinham nem um, nem outro.
E no centro de tudo está a melhor parte: a grande estátua dourada, sua forma de anjo apontando uma espada para os céus, como se convocasse o poder dos deuses. Apesar dos olhos tristonhos esculpidos em ouro, o que mais chama atenção é o fato de uma de suas asas ser levemente torta, e a outra ser mecânica, representada com engrenagens, parafusos e poesia.
Um anjo do passado. Uma promessa do futuro. O símbolo da cidade que prometia trazer um melhor amanhã.
O menino sempre soube ser uma promessa vazia - uma história feita para atrair a obsessão dos cegos e o poder dos ricos. Mas que havia atraído apenas ruínas.
Acima, os raios do sol vermelho lhe aquecem a pele já queimada. Ele fecha os olhos e respira fundo enquanto nasce um leve sorriso infantil em seu rosto - um sorriso cheio de trapaça e sonhos, que não se encaixa muito no cenário, mas que o menino não consegue evitar.
Enquanto a brisa do oceano balança as ondas loiras que escorrem por seu rosto, ele sente uma pressão inexplicável, algo como uma energia que lhe faz pensar na união daquele perfeito céu cerúleo e o belo mar esmeralda à distância, prestes a criarem a mais bela canção já ouvida no Continente.
Se precisasse apostar, seria numa canção de amor e liberdade - afinal todas as melhores histórias falam sobre um, sobre o outro ou sobre os dois. Não que aquele menino entenda o que é amor de verdade, quanto mais um amor livre.
Ah não, tudo o que conhece sobre amor vem de livros, tudo o que conhece de liberdade vem do agora. Mas ele sempre soube brincar de imaginar.
E quando ele volta a abrir seus olhos - um azul, o outro dourado como a estátua do anjo -, ele admira tudo à sua volta. Sente o ar pesado que vem de baixo, quase insuportavelmente quente, abrindo caminho pelas casas de madeira e ferro, as lojas de pedra e cobre, desfazendo-se em cinzas. E ele percebe que, ainda que aquilo seja tudo o que já conheceu, ainda que seja sombrio, atroz e imoral, ele não quer brincar mais de imaginar, porque ele simplesmente. Não. Se. Importa.
Não se importa com os gritos que acompanham aquele vapor ardente, nem mesmo quando eles imploram por ajuda. Não se importa com o cheiro de sangue e podridão que vem com a fumaça e a maresia. Não se importa com a dor e a perda do físico, e nem mesmo a do espírito, pois apesar de sempre ter vivido ali, aquela nunca foi sua casa.
Não.
Ao invés de se importar, ele admira a vista da cidade. Do que ela era. Do que ela viria a ser. E do que ela jamais seria outra vez.
E, ainda que naquele momento ele não se sinta amado, uma coisa é certa: é a primeira vez que não precisa brincar de imaginar se sentir livre.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Menino no Topo do Mundo
FantasiaO reflexo da liberdade de um menino refletido nas chamas de sua cidade. Uma short story num universo steampunk.
