Estava sentado em uma cadeira de balanço enquanto encarava a tinta branca e ressecada da parede à sua frente. Conforme o movimento de balanço da cadeira o impulsionava levemente para trás, sentia, de tempos em tempos, um vento que vinha da porta da frente entrar por um furo em suas calças, que se encontrava na altura do tornozelo. Eram seis e meia da tarde de um dia de inverno; estava frio.
Qualquer pessoa razoável, pensava ele, evitaria deixar a casa aberta para além das cinco, não apenas por causa do frio, mas também pelos mosquitos que acabariam por sair de seus focos de sombra assim que o sol baixasse o suficiente - algo que acontecia bem mais cedo nessa época do ano.
O outro - de quem nunca ouvira falar até pouco mais de quatro meses atrás -, no entanto, não parecia se importar muito com essas questões. Pretendia jogar um daqueles jatos de veneno pela casa depois que escurecesse e, até que esse momento chegasse, teria de suportar as picadas.
Ele era um jovem na casa de seus vinte anos e estava conversando com algum desconhecido na porta de casa. Não era a primeira vez que o via fazendo isso e nunca era com a mesma pessoa. Jamais chegou a perguntar quem eram.
Sua tarde tinha sido enfadonha; não tinha feito nada, mas mesmo assim sentia-se cansado. Morava naquela mesma casa desde muito tempo, uma herança de família que ganhara por volta dos quarenta e nove. Era o único de seus irmãos ainda vivo e o mais isolado entre eles. Não casara, não teve muitos amigos, evitava contato com o resto da família; não deixou filhos. Apreciava profundamente sua própria companhia e independência, algo que via como indispensável.
O jovem se despediu do homem parado à porta com um abraço um pouco demorado demais. O jeito como ele se portava... Não sabia exatamente o quê, mas sempre notara algo de estranho no rapaz. A própria história do porquê de ter vindo morar em sua casa era um pouco esquisita: de repente, o filho de um de seus irmãos já falecidos - esse que tinha se mudado para a Argentina faziam anos - aparece com o guri, dizendo que ele precisava de algum lugar para ficar na cidade durante algum tipo de curso que estava fazendo. Como já andava precisando de alguém para ajudar com a limpeza, preferiu não recusar.
Seu sobrinho-neto fecha a porta e acende uma luz no meio da sala. A corrente de ar cessa, e Valdemir sente-se um pouco aliviado, apesar de as picadas ainda arderem em sua pele.
-Como que foi teu dia? - pergunta enquanto o jovem passa à sua frente para fechar a janela que dava para a rua. Podia ver o desconhecido se afastando de sua casa enquanto fechava o zíper de seu casaco. Conseguia ver, mesmo que de longe, o que parecia ser algum tipo de mancha branca nele.
-Legal. Foi bem interessante, fui lá visitar o Museu de Artes e tal... - Terminou de fechar a janela e virou-se para o outro lado.
-Se alevanta que eu já tinha deixado o almoço pronto antes de sair, só precisa esquentar um pouco agora. - Sem sequer esperar por uma resposta, o rapaz andou até a mesa da cozinha e preparou um prato fundo. O velho precisou de algum esforço para conseguir se alevantar da cadeira, mas em poucos instantes estava parado em frente à panela do fogão.
-O quê isso significa, Luiz? Já tinha te falado que eu não como coisa com alho, tchê! - Tossiu ao sentir o cheiro da sopa. Luiz pegou a panela e colocou-a na mesa.
-Coma antes que esfrie. - Serviu algumas conchas em seu prato. Tinha uma expressão indiferente no rosto.
Valdemir se senta em sua cadeira a contragosto, sentindo-se profundamente enojado e ofendido a cada colherada que dava. Enquanto ele comia, Luiz, sentado num banco qualquer, mantinha os olhos vidrados em seu celular.
O tempo que estava estipulado para o guri continuar morando lá já tinha se esgotado há uns bons meses. A conveniência de ter alguém para varrer o chão em seu lugar mostrou-se sedutora, ao mesmo tempo que o princípio de uma dificuldade de locomoção - essa que já estava mais do que na hora de aparecer - finalmente marcou sua presença. Não apenas isso, mas também tinha sido diagnosticado com pressão alta aproximadamente um mês atrás.
Parecia que estava tudo certo no começo, mas, sabe-se lá porquê, as coisas desandaram. O rapaz parece que foi virando outra pessoa, e Valdemir não conseguia explicar direito o motivo. Saia de casa aos finais de semana e não dava horário para voltar, começou a substituir a comida por miojo sempre que possível, parecia que nem se importava mais com o que ele iria dizer. Talvez, afinal, tivesse percebido que isso era o máximo que ele seria capaz de fazer: reclamar.
Pouco mais de um minuto de silêncio se passa. O velho sente o frio da noite invadir o ambiente numa mesma proporção em que ainda sente-se orgulhoso demais para pedir que ele lhe trouxesse uma manta - e o ajudasse a vesti-la.
-Quem era aquele homem de antes? - perguntou.
-Um amigo. - Luiz respondeu.
-Todo final de semana tu me aparece com um amigo diferente na porta de casa. - O rapaz tirou os olhos do telefone por um instante.
-Nós precisamos ter uma conversa sobre essas tuas histórias, meu. Eu não tô gostando nem um pouco do jeito que tu anda me tratando. Sai pra essas tuas farras, não quer me falar de nada e tu ainda acha que pode vir aqui e me desrespeitar! - Valdemir bateu com a mão na mesa, Luiz virou a cabeça em choque.
-Tu andou ficando meio esquisito desde os últimos meses que eu sei, dando esses beijos de despedida na bochecha desses teus amigos. Ainda que foi semana passada que tu tentou entrar em casa com aquela jaqueta rosa. Tu ainda tem aquela porquera contigo por acaso? Por que se eu desco... - Um acesso te tosse interrompeu sua fala. O jovem se alevantou correndo para ajudá-lo.
-Espera um pouco que eu já volto com o remédio, tá?
-Eu não preciso de ajuda! - Pôs-se em pé de repente.
Quando, devido ao susto, o guri tropeçou na perna da mesa e caiu para trás, Valdemir foi tomado por uma repentina ânsia de vômito. Jogou-se para longe, caiu de costas no chão e sentiu algo estalar: estava ardendo. Caído no chão próximo a Luiz, a tela do celular exibia o símbolo de uma máscara amarela contrastando com um fundo cinza.
