Observei pela janela de minha casa quando nuvens grossas se formaram nos céus, escondendo o sol em um abraço frio.
O vento soprava ruidosamente, acariciando minha face sem muita gentileza, mas há certo costume nisso.
Gotas de chuva entram pela janela, sinto-as em meu corpo antes de sequer vê-las chegando, escorrem por minha pele elegantemente.
Ela vem de mansinho, sinto seu cheiro misterioso me embalando e quando menos espero, se instala em enorme proporção e transborda pelas ruas, transborda por mim.
A água que cai é gélida e há certa tristeza em sua aura, as gotas se assemelham à lindos cristais, no entanto, estes não se parecem com lágrimas?
O barulho da garoa ecoa em minha casa vazia, se instalando nos cômodos como música, tão simples, mas tão profunda que não me deixa espaço para pensar em nada além dela.
Um pingo de egoísmo recaí em minha pele, mas é tarde demais para perceber.
A água esfria meu corpo quente, os pensamentos diluem facilmente e posso sentir-me derreter com o toque preciso dos pequenos diamantes. É como um abraço, sem ter o que abraçar.
Há tanta beleza escondida na tempestade, mas ela caí rápido demais para que se possa ver, há delicadeza em sua alma, que perambula em meio ao vento. Mas é tão difícil encontrar.
Minhas pernas se movem com uma firmeza que não há em meus ossos há muito tempo, posso sentir-me flutuando pela casa, dançando com a cantoria angelical. A decisão foi tomada.
A escolha piscou em minha mente, eu poderia ficar em casa e apenas observar o que há diante de mim, sem tocar, sem me permitir ser tocada. Ou eu poderia ir, livre como vento, sem restrições, posso tocar com meus dedos a própria liberdade.
Paro em frente a porta, as frestas na madeira permitem que o vento passe, zumbindo em meus ouvidos. Parecem sussurros de almas e talvez sejam.
Toquei o metal frio da maçaneta e não era como o frio agradável da chuva, apenas o gelado de algo sem vida, e essa sensação eu reconheço.
No entanto, a vida que falta dentro de casa está lá fora, em algum lugar, em todo lugar.
A porta abriu-se, sem esforço, escancarada pelo vento que veio buscar-me. Meus pés descalços foram agraciados com a grama macia e verde, meu corpo solitário foi abraçado ferozmente pela tempestade.
Há certa liberdade nisso, posso sentí-la retumbando em meu corpo e por um momento, eu perco o fôlego com a visão privilegiada de algo tão lindo. Meu espírito de criança renasce, sem mais fragilidade.
Os olhares sobre mim não importam mais, porque finalmente me permiti aconchegar-me na chuva. E nada mais faz sentido, porque estou dançando e sendo abraçada por algo além da solidão de minha casa.
Não há solidão aqui.
Meus olhos se fecham, as gotas encharcam meu rosto e eu me permito sorrir com a sensação. Felicidade brotando dentro de meu peito, como nunca antes. Todo o peso se foi agora.
Existe apenas a chuva, a liberdade e eu.
