Ela

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Estar em pé naquele altar, ouvindo o padre fazer seu discurso sobre amor e união não era bem o fim que eu esperava. Eu sabia que bastava uma palavra para que tudo acabasse, mas não estava preparada até ter que encarar a situação. No fundo eu ainda tinha esperança de que ficaríamos juntos, mesmo com o que precisaria enfrentar por ser a outra.

Eu sabia que, no fundo, ele também sentia o mesmo que eu. Dava para ver a cada vez que ele me abraçava, me beijava... A cada vez que me tocava e me amava. Não podia ser algo meramente carnal.

Quando as enormes portas da igreja se abriram e a noivinha começou a entrar jogando as flores pelo tapete vermelho, senti meu coração acelerar. Outra daminha, que caminhava logo atrás da florista, trazia uma pequena almofada com alianças amarradas ao centro com um laço de cetim.

Enquanto elas faziam seu trajeto e o som dos violinos ecoavam alto em meus ouvidos, não pude evitar as memórias de nossa despedida.

🍷

É cruel ele fazer algo tão lindo pra um final. Pensei quando Pedro tirou as grandes mãos dos meus olhos, revelando a fachada do restaurante que eu disse sempre sonhei em ser pedida em casamento.

— Você sabe que pode me escolher — falei com a voz embargada e olhos cheios de lágrimas, enquanto Pedro segurava minha mão sobre a mesa do restaurante sofisticado e romântico que escolheu para nossa despedida.

— Tania, você sabe que preciso. Eu amo minha noiva.

Ele sempre deixou aquilo bem claro. Já não me machucava mais o fato de não ser a única, mas não ser o mínimo para que continuasse comigo também... Aquilo sim me doía.

— A gente construiu tanto até aqui... — deixei escapar.

— E já construí muito com ela também, e tenho muito mais a fazer, você sabia disso quando começamos. Sabia que esse dia chegaria.

— Mas o que vai mudar agora? Você já traiu todo esse tempo... É só continuar em segredo.

— Já devíamos ter parado com isso há muito tempo, Tania.

— E por que continuamos?

Ele hesitou e respirou fundo, tomando um pouco de seu vinho.

— Não importa. Acabaremos com isso hoje e isso não tá em discussão — falou firme, sem fraquejar nada em seu tom.

— E como vai ser depois?

— Eu não sei — balbuciou, numa postura contrária à que teve na resposta anterior.

— A gente pode fingir que nada está acontecendo? Só por hoje? — pedi.

Ele me olhou com aqueles pequenos olhos verdes que contrastavam sua pele escura e brilhante.

— Por favor... — implorei, num sussurro que quase não saiu de minha garganta, dolorida pelo aperto do desespero.

Finalmente ele assentiu com um suspiro que pareceu tirar toda a tensão de seus ombros.

Uma lágrima, carregando a bagunça de tristeza e alívio em mim, escapou descendo por meu rosto maquiado. Pedro, prontamente a enxugou com as costas da mão, colocando um cacho, que estava em meu rosto, atrás da orelha.

— Você tá linda — elogiou, me fazendo sentir a barriga com borboletas.

— Mesmo nessa situação você sabe como me deixar sem graça — falei, com um riso tímido.

Pedro sorriu.

Pra quem eu vou correr e me sentir amada quando tudo acabar? Eu pensava a cada vez que nossos olhares se cruzavam.

Ele me conhecia, sabia o que eu gostava, na cama e fora dela. E quem mais faria aquilo por mim? Quem seria como ele? Eu não conseguia pensar em querer alguém como o queria. Não daquela forma, com aquela paixão, aquele fogo, aquele tanto...

No carro, ouvindo uma música melosa na rádio, pela primeira vez eu precisava por para fora o que sentia. Eu sabia das regras, mas não teria outra chance.

— Eu te amo.

— Eu sei — respondeu.

Olhei para ele, buscando alguma reciprocidade. Um sentimento honesto, assim como era com a noiva, mas não sabia se eu queria mesmo encontrar a resposta. Ou, pelo menos, aceitar. Porque, no fundo, eu sabia que ela estava ali e qual era.

— Espero que tudo isso tenha ensinado algo. Não só pra você, Pedro... Pra nós.

— O que você quer dizer com isso?

— Toda relação nos ensina algo.

Ele me encarou por alguns segundos antes do farol abrir e, por fim, deu de ombros.

— Eu não quero ser chata, nem mega melosa. Acho que só o  estou tentando pedir pra não me esquecer. Eu não espero pra um dia ser perdoada. Nem por ela, nem por ninguém, mas desejo, com tudo o que há em mim, que você encontre uma forma de se lembrar de nós.

Pouco depois, quando estávamos prestes a termos nossa última noite juntos fiz a ele um último pedido:

— Me abraça e segura minha mão dessa vez? Sabe, como amantes fazem... Deixa eu me sentir amada, uma última vez.

O que tínhamos era especial e eu queria uma memória para carregar, uma boa memória que faríamos, de nós. Não teria o nosso amanhã, mas haveria o meu. E para mim, importava como tudo acabaria, porque e se eu nunca mais amasse de novo?

Quando o dia começou a raiar, ele se levantou e foi tomar banho. Eu me vesti sem dizer uma palavra porque, todas que precisavam, já tinham sido ditas antes. E ao sair deixei ali, naquele quarto de motel, meu coração.

🍷

O som dos violinos cessaram e o padre pigarreou.

Pedro estava lindo vestindo seu smoking preto, jurando amor eterno, fidelidade e lealdade à sua noiva, perante Deus e todos os presentes. No momento em que ele disse o "sim", que sempre torci para demorar a chegar, parecia que o chão desmoronaria abaixo dos meus pés.

Ele tirou uma aliança da pequena almofada e colocou no dedo anelar esquerdo de sua noiva. Por último, eternizou o momento com um beijo sob a joia, outro beijo na testa dela e um selinho que arrancou um sorriso apaixonado da boca da minha filha.

Ela | Um miniconto de @ellatecontaOnde histórias criam vida. Descubra agora