— Estresse, é isso o que vem te afetando, Melissa. Você passa 12 horas por dia escrevendo e editando textos na Redação. Com uma equipe tão pequena, sabemos muito bem o quanto isso pode ser estressante.
— Eu entendo, doutor. Mas também sabemos que não são muitas pessoas que estão dispostas a fazer o que eu faço. Minha equipe precisa de mim.
— Eu não disse que não precisam. Apenas disse que você está sobrecarregada e que precisa de um tempo para você. Se desligar um pouco, e, sobretudo, se desconectar. Não acho que medicação é o melhor caminho neste momento. Além disso, aumentar sua dosagem só vai te manter nesse círculo vicioso de trabalho excessivo.
— Ok, ok. E qual a sua sugestão neste caso?
— Parece clichê, mas você já parou para pensar que você precisa de férias? E quando eu digo férias, eu digo não só do trabalho, mas de tudo. Da sua casa, sua família, seus amigos. Uma viagem, quem sabe? Todos os seus amigos são do trabalho! Há quanto tempo você não conhece uma pessoa diferente do seu ambiente profissional?
Neste momento minha cabeça girou. Por alguns segundos busquei nas minhas memórias mais profundas uma resposta para o último questionamento, sem sucesso.
— Honestamente, eu não me lembro.
Há algum tempo eu não sabia o que é ter uma vida social. Sempre fui uma pessoa muito focada nos meus objetivos, e o trabalho tem sido palco da minha vida há anos. Posso dizer que agora, no auge dos meus 30 anos, minha carreira é consideravelmente estável.
Aquela última conversa com o psicólogo me fez refletir sobre tantas coisas. Não sou uma pessoa de muitos amigos, então se hoje eu perdesse meu emprego será que eu teria alguém com quem contar?
Ao chegar na Redação falei diretamente com meu superior imediato.
— Claro, Mel. Não há problema algum em tirar um tempo dessa loucura aqui.
Neste momento eu ri, mas na verdade queria chorar. Confesso que eu tinha um pingo de esperança de que meu pedido fosse negado. O meu apego ao trabalho era algo que beirava à obsessão, mas eu sabia que precisava de me desligar.
— Você tem certeza? Eu poderia muito bem aguardar mais alguns meses. De repente eu...
— De forma alguma! Não há com o que se preocupar. A Lu é praticamente sua discípula. Ela pode muito bem dar continuidade nos seus textos. Tira esse tempinho para você.
Naquele momento senti um friozinho na barriga. Passei o resto do dia elaborando estratégias e mantendo tudo o mais organizado possível para minha substituta. A cada minuto mais próximo do final do dia eu sentia minha ansiedade mais e mais intensa. Um gole de café e uma revisada no material de segunda-feira. E o pensamento: "serão apenas 15 dias, Melissa. 3 semanas. Você pode fazer isso. Você merece isso!"
Sai tarde da Redação, chamei um Taxi e no caminho de casa liguei para mamãe.
— Não, mãe. Eu não acho que viajar neste momento seria o ideal.
— E quando seria? Você não tira férias há um século. Se você quiser, eu cuido da Luna - minha gata - para você. Aqui em casa tem muito espaço para ela, e seria uma ótima companhia por estes 15 dias. A gente cuida uma da outra.
— Mas eu nem planejei nada. Não comprei nenhuma passagem. Viajar assim sozinha? Não sei não...
— Nada que você não possa fazer hoje mesmo. Pesquise em sites de viagens. Tenho certeza que você vai encontrar alguma coisa interessante. E sobre ir sozinha, eu acho que seria uma ótima experiência. Seu aniversário está chegando e quem sabe você não encontra um presente gato e inteligente nessa viagem?
— Esse assunto de novo... Já disse que sou uma pessoa muito bem resolvida, mamãe, e homem é algo completamente dispensável na minha vida. Até amanhã eu decido o que fazer e, se precisar de algo, eu te aviso.
Idade nunca foi uma preocupação para mim. Não tive muitos relacionamentos, e os poucos que tive foram breves. Não era uma necessidade e muitos menos prioridade estar com alguém. Mas minha mãe cobrava bastante.
Falamos por mais alguns minutos até que cheguei em casa.
Já no hall de entrada estava Luna com seu pêlo negro e brilhante esperando que sua "escrava humana" a alimentasse.
— Vamos lá, garota. Hora do jantar.
De repente a ficha caiu e junto com ela veio a empolgação.
— Espera aí! É isso mesmo? Estou de férias?
Um misto de sentimentos tomou conta de mim. Preocupação, alívio, ansiedade, excitação. Peguei uma taça de vinho, um belo pedaço de queijo e dei início a minha primeira aventura de férias: "A busca pela viagem perfeita". Entre um site e outro encontrei algumas opções interessantes. Inicialmente pensei em ir para alguma praia paradisíaca, mas achei que este tipo de viagem seria mais animada com alguma companhia. Depois pensei em locais com uma boa gastronomia local. Por que não? Comer e beber bem sempre foi um dos meus hobbies preferidos. Vi em um site uma promoção de passagens bem interessante para Itália. Minha dupla cidadania me permite entrar no país, então essa seria uma ótima opção. Como não era um pacote com turismo incluso, pensei em ir até o país e me aventurar pelos vilarejos e vinícolas locais.
— Perfeito! Já está decidido! Para uma viagem não planejada e de última hora acho que será ótimo.
A viagem ficou agendada para segunda-feira de manhã, então eu teria todo o fim de semana para me organizar e transportar Luna até a casa de mamãe. Assim fiz. Passei o sábado fazendo malas e organizando a casa, e no domingo levei Luna até seu lar temporário. Aproveitei a oportunidade para passar algum tempo com mamãe, coisa que eu não fazia há tempos. Conversamos bastante e finalmente nos atualizamos sobre a vida uma da outra. Sempre tive uma forte conexão com ela. Provavelmente seja pelo fato de papai ter falecido quando eu ainda era muito pequena. Ela foi e ainda é minha maior referência de família. Somos muito amigas e companheiras acima de tudo.
Ao final do dia fui para minha última noite em casa antes da viagem. Talvez fosse o cansaço, mas naquela noite tive um sonho um tanto quanto intrigante. Sonhei que estava descalça às margens de um lago. Era noite de lua cheia e o reflexo dela podia ser visto sob a água claramente. A brisa da noite soprava suavemente meu rosto num doce perfume de dama-da-noite. Havia uma atmosfera misteriosa e inebriante. Por algum motivo eu me sentia atraída por aquela luz num frenesi incontrolável. Ao passo que eu caminhava em direção à lua, eu submergia no lago. Naquele momento eu não sentia medo, era como se a água transbordasse para dentro de mim e eu me sentia conectada com o universo. Eu e a água éramos uma só, e a lua era a força que nos movia. Ao acordar fiquei refletindo sobre este sonho, mas logo era o momento de partir, então prossegui.
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A Roda do Ano
Mystery / Thriller**Em construção** Cansada do estresse cotidiano, uma escritora viciada em trabalho viaja de férias para o interior da Itália em busca de novas experiências, no entanto, coisas estranhas acontecem e põe em xeque tudo o que, até então, ela acreditava.
