O silêncio era quase absoluto em meu quarto, naquela noite nem mesmo as cigarras podiam ser ouvidas, se não fosse pela minha própria respiração eu facilmente acreditaria ter perdido a audição. Meu olhar fixo no teto, contornando calmamente a sombra que a fraca luz da rua causava na árvore que ficava a poucos metros de distância da janela. Soltei um longo suspiro e me virei novamente sobre a cama, voltando minha atenção ao relógio em forma de sapo sobre o criado mudo, haviam se passado apenas longas e inacabáveis duas horas desde que me deitara. Um nó começava a se instalar no fundo de minha garganta, as emoções eram um misto de ansiedade pelo dia seguinte, saudades de ter os braços aconchegantes de minha mãe para correr para eles nessas situações, e o medo de que tudo desse errado. Eu tinha consciência de que em meus pensamentos, a mudança de cenário parecia muito mais assustadora do que era de fato, e do que uma pessoa normal iria considerar.
Nossa nova casa era bem simples, do lado de fora, as paredes eram de um tom terracota, porém estavam envelhecidas. Havia uma varanda pequena, com cercas brancas e pilastras da mesma cor, essas que sustentavam o final da escada, janelas também brancas e dois andares, ao olhar de frente, a casa parecia um quadrado com um triângulo sobre ele, se não fosse pela chaminé da lareira e pela queda d'água cobrindo a varanda, a estrutura seria totalmente sem graça. Mas daquela forma, e com os arbustos e jardim bem cuidado, ela acabava se tornando charmosa. No térreo, ficavam a cozinha, com armários de cor azul clara, uma pequena copa com a mesa de madeira crua e ao lado um aparador que continha uma bandeja onde deixávamos as correspondências e o telefone, uma sala de TV, com o sofá cinza e várias almofadas azuis sobre ele, e por fim a lavanderia, esta que continha apenas uma secadora e uma lavadora. No andar de cima, três quartos, sendo um do meu pai, um meu, com paredes de cor lilás, uma cama de casal no centro, uma mesinha azul clara ao lado da cama, minhas roupas guardadas em uma cômoda marrom clara encostada na parede do outro lado da cama, e o último quarto utilizado atualmente como escritório, já que meu genitor sempre trazia trabalho para a casa e por fim, um banheiro simples.
Os toques levemente severos na porta de meu quarto me acordaram num susto, me sentei na cama rapidamente por reflexo.
— Filha? Já está pronta? — A voz grave de meu pai parecia mais preocupada do que o normal.
— E-eu vou descer num minuto! — Respondi esfregando o rosto com as palmas das mãos.
— Já preparei o café, se apresse se quiser carona. — Completou já se afastando da porta.
Na mesa da cozinha que era grande demais para nós dois, sentamo-nos em cadeiras de frente um ao outro, havia ali dois sanduíches de geleia de morango e doce de leite, e um copo de leite. Meu pai como de costume comia uma tigela de cereal, e diferente dos outros dias, me encarava com as sobrancelhas franzidas em preocupação.
— Você está horrível.
— É o sonho de toda mulher ouvir isso. — Brinquei levantando meu olhar em sua direção.
— Estou falando sério, olhe o tamanho das suas olheiras. Parece que varou a noite em claro.
Bebi um gole de suco desviando o olhar. Não havia a real necessidade de tocarmos novamente nesse assunto, e meu pai não pareceu indignado o suficiente para continuar que questionando, então terminei o café da manhã grata por não ter que reiniciar o meu monólogo sobre as dificuldades de começar em uma nova escola e ter que realizar a entediante tarefa de me apresentar novamente para diversas pessoas as quais eu não tinha a real intenção de conhecer.
Vesti um suéter azul claro que pertencia a minha mãe e calça jeans, minha jaqueta marrom apesar de surrada era necessária, já que a chuva se fazia constante nos últimos dias. Entramos no carro de meu pai, e seguimos pela deserta rua, em direção a avenida principal. Eu sabia que poderíamos seguir em silêncio até o destino final, mas meus pensamentos começaram a ficar mil vezes mais barulhentos do que antes, então precisei recorrer a conversa para matar o tempo que nos restava em direção a escola.
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Cem Invernos
RomanceAo se mudar para uma cidadezinha pacata, Amélie ingressa num trabalho de meio período na biblioteca da faculdade local, e repentinamente começa a ser atormentada pela memória do acidente que levou a vida de sua mãe. Além disso, terá que lidar com a...
