Conto

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Capítulo I – A Black Friday

Ofertas imperdíveis!!! Diz o comercial na TV.

Maria Joana mal pode esperar por amanhã. Precisa de roupas novas, uns tênis, sandalinhas... Levanta-se cedo com a mira no horário de abertura das lojas, que foi anunciado durante toda a semana.

No caminho para o shopping ela, completamente excitada, já ensaia mentalmente a luta pelos produtos em promoção. Pensa consigo mesma:

- Nenhuma véia gorda vai conseguir pegar o que quero mais rápido que eu!

Colocou uma pequena pochete na cintura, cujos itens foram criteriosamente escolhidos: os cartões de crédito, algum dinheiro e o smartphone.

Ao chegar ao shopping, viu que já haviam diversas pessoas a frente da entrada do estabelecimento. A maioria mulheres, ávidas pelo embate na sessão de fraldas de alguma loja de departamento, ou talvez um tapete novo, daqueles felpudos maravilhosos. Os ânimos estão fervendo, as adversárias com suas pupilas dilatadas e musculatura tensa, permanecem em posição de alerta, esperando o momento mágico em que as portas serão abertas.

Capítulo II – O embate

Poucos minutos depois da chegada de Maria Joana, surge um homem fardado segurando um rádio comunicador. Ele podia ser visto por todos através do vidro incolor das portas do estabelecimento do lado de dentro do hall.

A tensão e angustia aumentam. Certamente o que se passava na cabeça das concorrentes às maravilhas mercantis era: para onde ir primeiro? A escolha errada poderia acarretar na perda de oportunidade valiosa na aquisição de um bem a custo muito baixo.

Mais e mais gente aglomera-se no ponto de partida da corrida maluca. Maria Joana pensa: - Não posso perder esse momento. Depois vejo como pago essa peste desse cartão.

O calor já impera. O suor escorre pela sua testa enquanto olha com despeito para as pessoas ao seu redor.

Uma moça olha para Maria Joana e puxa assunto dizendo:

- Será que as ofertas estão boas iguais ao ano passado?

Maria Joana, responde:

- Acho que vai estar melhor. Essa pandemia parou tudo, eles não estavam vendendo as coisas.

Com pouco tempo de conversa as duas voltam seus olhares para as portas. Elas começam a abrir-se. Os homens presentes esboçam um avanço e sem o mínimo cuidado atropelam parte das mulheres, apoiando-se no seu biotipo mais musculoso. Gritos de revolta e reclamação ecoam gratuitamente. Logo a multidão segue em marcha acelerada para o paraíso.

Capítulo II – O Vale da Sombra da Morte

Maria Joana, uma mulher de estatura média, na altura dos seus 20 e poucos anos, corre em meio ao bando de caçadores vorazes. Já tinha tudo arquitetado na sua mente consumidora. Entrou numa das maiores lojas. Havia despontado com vantagem. Orgulhosa do seu desempenho, seus olhos brilham frente aos excelentes produtos que pairavam por todos os lados como num filme mágico.

Ela conseguiu com êxito apanhar quase que cem por cento do que queria. O campo de batalha ao seu redor demandava cuidado. Entre empurrões e cotoveladas, esquiva-se pra lá e pra cá no caminho do caixa de pagamento.

Vê-se nessa trilha perigosa verdadeiros gladiadores. Discussões fervorosas, bailes e "desapartamentos" de brigas. Cada lutador defendendo sua futura propriedade com unhas e dentes.

Capítulo IV – O pódio

Ela chega à fila do caixa. Olha para as outras pessoas e vê nos seus semblantes uma alegria estranha, cada qual com seus itens sonhados. Também olha com desdém para aqueles que ainda lutavam por seus objetos tão desejados.

Já começava a somar de cabeça o custo de cada coisa que havia pego. Pensava nas parcelas e no que pagaria em dinheiro. Seus sentidos já ignoravam todo o caos a sua volta. Pensava em mostrar para seus entes queridos as conquistas daquele dia.

Ela era a próxima. A sinalização do caixa de pagamento mostra um alerta que se entende como livre. Um rapaz que lhe faria o atendimento, sorri de forma amarela e diz: - Bom dia, moça!

Sem atentar para o cumprimento, ela começa a colocar os itens sobre o balcão. Eram tantos que ocupara suas duas mãos. Ouvia-se o bip da registradora enquanto os produtos eram pegos pelas mãos do rapaz. Ele pergunta:

- Qual a forma de pagamento?

Com as mãos livres, ela solta um "ah!", como numa lembrança rápida. Nesse momento ela desse as mãos a pequena pochete na sua cintura. Não havia nada dentro daquela pequena bolsa, o zíper estava aberto. Nem cartões, nem dinheiro, nem o amado smartphone.

A DOIDIVANASHistórias para pegar e não largar. Descubra agora