*Triimmm
Soou o sinal da escola e os portões se abriram. Com a mochila nas costas, várias crianças saíram correndo ao encontro de seus pais. Era finalmente hora de ir embora. Dentre elas, com a cabeça baixa, vinha uma menina de pele branca e tranças loiras. Ela caminhou até a saída com uma cara de poucos amigos.
—Vamos —disse, depois de olhar rapidamente para a garota e voltar a atenção ao seu telefone-celular. Um homem alto, grande e forte, talvez até um pouco intimidador. Ele tinha uma expressão séria, um jeito diferente dos outros adultos que esperavam seus filhos ao redor da escola. A menina apenas concordou com a cabeça e seguiu o homem até o estacionamento.
Eles entraram no carro
Saíram da escola
E apenas o silencio estava entre eles.
Até que o homem disse uma palavra. —Então...—e se calou
A garota o olhou desconfiada. —Então?
—Você está bem com o que aconteceu? —Ela virou o rosto para a janela do carro depois de aumentar o volume da rádio, uma maneira de encerrar o assunto por ali.
—Sim. —Disse.
—Que bom. — O silencio volta. Ainda sem olhar pra ele, ela diz baixinho —Eu gosto daquela música. —Ele liga de novo o som.
No meio do caminho, o homem ainda comenta algumas coisas sobre o trabalho, ou faz perguntas sobre a escola. Ela apenas responde com sim e não, virando rapidamente para olhar para ele, e voltando sua atenção a rua de novo.
Eles chegam em casa.
Ele vai para a sala.
Ela vai para o quarto.
Ela fecha e tranca a porta. Ao entrar, uma atmosfera ruim lhe envolve. Ela não entende o porquê de isso acontecer. O dia não foi ruim, foi completamente normal. Ela acordou, tomou café, tomou banho, fez lição, se arrumou, almoçou, foi para a escola. Na escola, a mesma coisa de sempre. Ela desceu do carro, esperou o sinal bater, sentou em sua mesa, e não disse mais uma palavra no resto do dia até que as aulas acabaram e ela saiu da escola e voltou para casa. Tudo foi exatamente igual. Acordar...ir pra escola...comer. Acordar...fazer lição...estudar. Acordar...não falar...esperar. Isso acontecia todos os dias, todo santo dia desde que sua vida voltou a ser normal depois do acidente. Era tudo completamente previsível, e aparentemente nada faltava. Até por que, o que faltaria? Ela tem casa, comida, escola, e adultos bem resolvidos no ambiente em que vive. Ela tem tudo, mas mesmo assim as coisas parecem tão sérias, tão repetitivas, e ela sente um vazio. Um vazio imensurável que ela sente tão forte que é como se nunca fosse acabar.
Talvez a culpa seja dela, afinal, por não falar com ninguém. Ela não queria ser assim, sem amigos, alguém que ninguém sabe o nome. Mas é como ela é, e parece ser tarde demais para mudar. Por que essa dor? Por que esses sentimentos e essas culpa? Pareciam perguntas sem resposta. No momento de tão grande confusão, ela achou uma solução. Uma saída, uma das mais improváveis. Ela simplesmente se cortou. Com uma tesoura que já estava guardada a um tempo, e que ela sabia muito bem onde estava. Ela tentou uma vez, e desde então não soube mais parar. E por que parar? Se aquilo lhe fazia bem, lhe trazia alívio.
Ela começou e realmente não parou. Não teve dó nem de si mesma. Nem do próprio corpo. Haviam tantas marcas de vezes passadas que já era normal estar sempre de manga longa e evitar ao máximo mostrar o corpo. Sempre com calças, sempre com um casaco. Ela se sentia bem na hora, mas ficava mal depois. Não queria se ver no espelho, não queria tocar o próprio corpo, apenas para se machucar. E ninguém sabia. Mesmo com todos os sinais de que alguma coisa estava errada ninguém se importava. Isso só fazia ela se sentir pior.
Ela continuou. Naquela hora ela sentiu uma coisa horrível. Como se estivesse se quebrando, ou pior, morrendo. Não demorou muito para anoitecer. Todos os adultos estavam em casa fazendo suas últimas tarefas do dia, e ela estava lá, sangrando na cama. E ninguém estava nem aí. Ninguém se importava com o que ela estava fazendo, nem mesmo ela se importava. Quando você chega ao ponto de não se importar com nada, nem consigo mesmo, é porque tem algo muito errado. E ela sabia que algo estava errado, mas continuou calada. Até que, finalmente, alguém bateu em sua porta:
—Ei, vem jantar!
Mas ela não podia fazer isso. Não ali, não agora. Era uma coisa tão simples, mas impossível na situação em que ela estava.
—Tô sem fome.
E ficou por isso.
Sem conseguir mais se conter, lágrimas desceram por suas bochechas e ela se jogou na cama chorando. Mas porque ela estava chorando? A dor era um dos motivos. Porque ela tinha se cortado? Para aliviar a tristeza e a raiva. Raiva e tristeza por não estar com sua mãe.
Ela não podia esperar que aqueles adultos a amassem como sua mãe. Eles não precisam se importar. Ela não é nada deles. É por isso que eles não veem. Ficou pensando que se fosse sua mãe, ela saberia. Mas não era, ela não estava ali. O tempo passou com ela ainda deitada. Todos pareciam ter ido dormir. Ela estava cansada e com dor, com aquela luz forte em seus olhos, aquela coisa esmagadora no peito. Sua vista escureceu lentamente, as últimas coisas que ela sentiu foi a dor em seu corpo e o aperto em seu coração. Talvez, quando ela acordar, verá muita gente ao seu redor, como anjos. Isso se ela acordar
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Mais uma noite
Non-FictionEla já estava acostumada a ficar sozinha, desde criança. E não era ruim para ela, na verdade, ela gostava. Ficava dentro de casa o dia inteiro, mas podia fazer o que quisesse. Preferia quando não tinha ninguém vendo nada do que ela estava fazendo. E...
