Aos poucos, os convidados chegaram para o jantar e foram se assentando na sala enquanto os criados não terminavam de fazer as entradas. O homem, dono da sapataria ao fim daquela rua, foi recebido pelos donos da casa com cumprimentos mui calorosos e com uma bela taça do melhor vinho da família. O jantar celebraria o noivado da filha dos donos da casa com o filho do velho fidalgo que morava no fim da cidade. O velho que impressionava pela falta de educação, acabara por aceitar o convite para jantar e disse que chegaria ao badalar das oito.
Eram sete da noite e os convidados já se preparavam para comer, estavam há tempos sem colocar um mísero amendoim entre os dentes. E então, pela falta do que fazer começavam a conversar e beber. Ao todo, naquela casa, se juntaram dentre quarenta a cinquenta pessoas, entre homens e mulheres, velhos e crianças. A filha dos donos da casa estava no andar de cima se preparando para receber o noivo assim que a carroça do fidalgo parasse na porta do casebre.
Os donos da casa conversavam assim com o dono da sapataria sobre coisas alegres, sobre como ficaria a encomenda dos sapatos da filha para o casamento.
Mas, num canto da sala, próximo a um quadro pintado da família, dois garotos, um mais velho e o outro recentemente curado de uma gripe, e mais uma mocinha se encolhiam ali, sentados no chão, e conversavam sobre os próprios pais.
— Implorei aos meus pais que deixassem meu irmão mais velho... — disse o garoto, ainda tinha sintomas daquela gripe que passara.
— O qual?
— Aquele... aquele que corria atrás das moças na praia.
— Ah, conheço. — respondeu o outro garoto, já entediado.
— Continue. — pediu a menina, ajeitava os vestidos tentando cobrir suas pernas.
— Enfim. — o rapazinho logo respirou fundo e começou a falar — implorei aos meus pais que deixassem meu irmão mais velho em casa. Acredita? Acredita se eu disser que eles nem deram bola? Olharam para a minha cara como se eu fosse um monstro.
A menina ficou quieta.
— Eu acho que a pior escolha foi deixar que minha irmã se case com o filho daquele velho rabugento no fim da cidade. — disse a mocinha, mexia nas mechas soltas do cabelo enquanto olhava para o chão.
— Que quer dizer com isso? — disse o primeiro garoto, mexeu em sua pulseira de couro, com a imagem de um santo da cor prateada.
— Não vê? Nunca ouviste a lenda da família do fidalgo? — a menina ficou pálida.
— Nunca. — respondeu, logo vendo o repúdio do garoto mais velho.
— Existe, na família daquele velho, de uma das tias se eu não me engano... — disse o mais velho.
— Ora, mas que, não fala coisa com coisa, deixa que eu conto, eu que sei melhor de tudo. — disse a menina, logo se acomodando no chão e dando pequenas tosses para chamar a atenção dos dois — faz talvez uns bons cinco anos que a filha mais velha do fidalgo morreu de raiva.
"A moça, foi mordida por uma cadela raivosa, que ao ver que ela ia servir-lhe com um prato de carne com cacos de vidro, abocanhou a canela dela e logo, tempo depois de comer a carne, morreu numa viela qualquer por aí. Mesmo assim, a filha do fidalgo passou por muito tempo passando mal, mandava os criados buscarem água e recusava comida, bebia mais que gado em tempo de seca, bebia e bebia. Mas com o tempo, como não parecia mais querer viver, e não morria pela doença, começou a descontar sua raiva pela dentada da cachorra em outros cães que passassem, parava na frente do casarão do fidalgo e cada cão que passava, dava-lhe oito ou nove pauladas com o cabo de uma vassoura, fazia isso até o cão fugir ou até ele morrer.
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A cadela - conto
Short StoryNo jantar para celebrar o casamento de dois jovens, três garotos começam a contar lendas de horror sobre a família do noivo. Mas eles nem esperavam que essas lendas pudessem ser reais. Conto único Obra original Diga não às drogas
