Entre Os Pequenos Mortos

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Por mais silenciosos que fossem seus passos ouvidos apurados dariam conta da sua localização. Os calçados com traços de barro vermelho roçavam na grama movimentando também porções de cascalho e deixavam seu cheiro em ambos. Entrando e saindo do plano a mulher com vestes simples e de cores sóbrias carregava nada além de um maço enrolado em seus braços. Uma capa com bordas já rotas em linho lhe dera um ar altivo outrora mas agora mal desempenhava seu papel original.

As estrelas permanecem escondidas atrás das nuvens que o vento carrega através do céu escuro da noite invernal. A lua cheia e magna carece de força para impor sua luz mesmo perto da alvorada. Lufadas frias carregadas de chuvisco fazem as folhas das árvores balançar mas o som que mais teme e espera ainda não vem. O embrulho emite um pequeno som e na vã tentativa de fundir o minúsculo bebê ao seu corpo ela reduz a marcha e inspira fundo apertando-o em seu seio.


— Shhh! Só mais um pouco ... ... ... filho...


Uma visão imediata de si mesma no topo de uma torre de marfim enquanto aquela semente era gerada em seu ventre. O cheiro de pão fresco e geleia de nenúfar preenchia o ar enquanto fazia uma trança diante do espelho com seus cabelos acobreados descendo para abaixo do ventre. O corte rápido veio quando um gato saltou sobre uma das moradas daquela parada dos mortos e seus olhos se apertaram para ver a cauda do bichano desaparecer por uma portinhola enferrujada.

Seu cheiro ainda era forte ali, por isso percorreu vielas e permeou quadras em mais de uma direção antes de rumar por fim para a área mais erma. Podia sentir a vibração maligna daquela respiração selvagem e ouvir o estalo que sua língua bifurcada dava mesmo que seu perseguidor ainda não houvesse se manifestado nesta realidade.

Uma última parada para olhar o nenê que tinha os traços do pai: sobrancelhas longas, narinas estreitas e o corte vertical no queixo. Gostaria de ver seus olhos abertos pela última vez, mas se contentaria com a memória das esferas castanhas com bordas esverdeadas porque já havia sido difícil coloca-lo naquele estado de sono e por um capricho tolo não iria arriscar.

Desprender-se de toda maternidade que sequer chegara a cultivar para fora de seu corpo foi doloroso. Depois que o depositou com cuidado no concreto frio, a única sensação morna restante foi das lágrimas que escorriam por sua face que nada mais de radiante conservava.

Havia tanto a dizer que chegou a cogitar deixar algo escrito junto dele, o único e amado filho, mas isso não apenas colocaria seu plano em risco como não havia garantia de que no futuro ele tivesse acesso a tais informações. E se isso não denunciasse seu esconderijo quando a barreira caísse provavelmente não fosse capaz de entender aquela língua já que neste mundo o idioma praticado é outro.

A quebra da realidade por fim foi notada e Amara sentiu a veia jugular pulsar em urgência, o sangue sendo bombeado com violência e o arrepio percorrer seu corpo: mesclado ao cheiro da necrópole humana o odor pútrido e rançoso do selvagem se espalhava como as folhas secas pelo caminho. Fechou os olhos com força e entoou por meio de sussurros palavras numa língua desconhecida, ergueu as mãos cujos dedos longos e finos bastante feridos se iluminaram num tom salmão e na gaveta vazia do cemitério vertical para infantes uma janela etérea e invisível se fixou.

"What's left around me
It's all so strange, it's all so dark
And I'm alone here
To mend the pieces of my heart"


O pranto na tumba se iniciou já que conforto algum havia. Tampouco o perfume doce, a maciez ou calor do corpo dela. Uma magia havia sido substituída por outra e o há pouco nascido entregou-se ao choro porque se sentia abandonado, com frio e fome. Noção alguma tinha que o acossador em sua forma animalesca logo alcançou aquela parede onde muitos deixavam seus filhos mortos. Os olhos gigantescos percorriam a construção porque o rastro ainda estava fresco, mas as íris vermelhas dentro dos globos amarelos nada viam. Nem foram úteis as cavidades nasais que após o golpe sofrido no início da caçada eram apenas dois buracos purulentos que vibravam a cada fungada.

Impaciente, a criatura bípede com mais de dois metros bateu seus cascos no chão e grunhiu antes de retomar a corrida. A concentração do odor da mulher era forte ali mas sem qualquer sinal dela tudo que pode fazer foi recomeçar a perseguição antes que os vestígios mais fracos desaparecessem. 



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NA:
 
1) - Inspirada pela matéria
https://recordtv.r7.com/balanco-geral/videos/homem-abandonado-em-cemiterio-quando-bebe-quer-conhecer-os-pais-biologicos-03012022

2) - Trilha escolhida ajudou a fundamentar o ninho confortável onde eu me ajeitaria para a composição do texto. Obrigada Shaman

3) - Retornando a prática após um hiato tão grande quanto um mega iate. Apesar de concluída sei que muitos aspectos da história ficaram soltos mas não pense que foram atirados a esmo, ok ? Se houver interesse do público ela pode ganhar outros capítulos e se tornar algo maior. 

4) - Obrigada pela força de sempre WEST DURAND. 



Entre os Pequenos MortosMga kuwentong kahuhumalingan mo. Tumuklas ngayon